Sem as ruas, enredo para impeachment de Dilma muda


O impeachment de Dilma pode até acontecer, não se sabe, mas até aqui a sua narrativa (tão necessária ao processo) não deu liga. Por esta narrativa, o número de pessoas nas ruas pedindo a saída de Dilma deveria vir num crescente, o que não ocorreu ao longo do ano, pelo contrário. As ruas não se encheram no último domingo e não foi por falta de tempo de convocação, como alegaram seus organizadores, pois manifestações recentes de vulto no Brasil tem ocorrido da noite para o dia – quando tem que ser, são.

Sem as ruas, o quebra-cabeças do afastamento de Dilma perde uma peça importante. Mas não é só isso. Para o impeachment deveria haver um crime de responsabilidade, algo que a envolvesse diretamente, o que, pelo menos até aqui, não apareceu. Invocar o descumprimento da lei de responsabilidade fiscal, com toda a carga política que envolve tanto a aplicação como a interpretação de leis do tipo, é uma estratégia arriscada e que poderá abrir precedente, no futuro, para se destituir representantes eleitos a partir de interpretações de leis, estas, particularmente no Brasil, utilizadas ou não conforme a conveniência do momento. A lei não existe por si só, sua interpretação no mais das vezes depende de disputas de forças. Nesse jogo como fica a democracia?

E principalmente: para o impeachment teria de haver um projeto alternativo que empolgasse, o que também não existe. Ou alguém acredita que a tão necessária reestruturação da política brasileira vai ser comandada por políticos como Temer ou Cunha? Tirar Dilma em nome de qual projeto, afinal? Na economia – que é onde o calo aperta e o povo sofre com o desemprego e queda de renda – Dilma fez em 2015 o que seus adversários provavelmente teriam feito caso (vejam bem: caso) tivessem ganho a eleição. Se assim é, o que se oferece? Ética? Quem na política brasileira atual se apresentaria como a vestal salvadora da moral e dos bons costumes? Vale lembrar que se 65% querem o impeachment de Dilma, outros 81% querem a cassação do mandato de Cunha, o homem que acolheu o pedido contra a presidente e em tese deveria conduzir o processo.

Juntando os cacos, fica difícil enxergar, até aqui, o enredo para tirar Dilma. Mas o Brasil vive a era da imprevisibilidade. É possível que Dilma caia mesmo sem um script óbvio. Por esta via, a Câmara vota: são necessários 342 votos. Coisa que não parece tão fácil assim de obter, do contrário a oposição não demonstraria interesse em arrastar o processo, como se desenha agora. Nestes termos, a oposição estaria à espera não das ruas, mas da Lava Jato e suas cartadas desconcertantes, capazes de mudar a dinâmica do jogo. Mas é um caminho arriscado: são mais de cinco dezenas de políticos investigados. O fogo pode espalhar para qualquer lado. Em termos de opinião pública, a Lava Jato, no que pese seu alvo midiático ser Lula, parece dialogar mais com o sentimento difuso do “que se vão todos” do que com o impeachment presidencial.

A sensação é que o atoleiro brasileiro de 2015 vai escorregando para 2016. Com a situação econômica ruim, porém, há pressa para que a política seja parte da solução e não mais do problema na vida dos brasileiros.

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Imagem:Rovena Rosa/Agência Brasil