Entrevista: 'Rei da lambada', Beto Barbosa está de volta

“Adocica, meu amor, adocica/ adocica, meu amor, a minha vida.” Esses versos prosaicos, que tomaram conta do Brasil 23 anos atrás, voltaram à tona neste 2011, por conta de um comercial de cerveja. Não se sabe se a Skol queria homenagear o autor do som que embalou as paradas de 1988. Se queria, o fez mais ridicularizando que afagando o paraense Beto Barbosa, 57 anos, autor de outros hits arrasa-quarteirão, como “Mar de Emoções” (1988), “Preta” e “Beijinho na Boca” (1990). O “rei da lambada” dos anos 1980 nem é o único a virar alvo da atual coqueluche da publicidade, de zoar gente que está, digamos, fora de moda, como bem o sabem o cantor Byafra e o ator Ricardo Macchi.

O tal comercial com Beto, atualmente no terceiro episódio, lista atitudes como usar pochete e ouvir “Adocica” como de mau gosto, “cafonas” – rótulo usado, de resto, para toda música que cai no gosto das grandes multidões. Beto diz que assinou contrato consciente da faca de dois gumes que significava topar a parada. Afirma que topou raciocinando “como um empresário, não só como um artista”, de olho na oportunidade de ocupar horários nobres transitórios na mesma mídia que primeiro o endeusou, depois o excluiu.

Na entrevista abaixo, o músico fala sobre a lambada, para ele uma mistura de carimbó paraense (aprendido com seu ídolo e padrinho Pinduca), forró de Luiz Gonzaga, música árabe e ritmos caribenhos como salsa, cumbia e merengue. Explica os desencontros com o estado natal e os porquês de nunca ter sido identificado como um astro paraense, enquanto seu colega e rival Luiz Caldas levava adiante o orgulho de ser baiano, com o fricote que desembocaria na axé music.

Avalia de modo crítico as festas paraenses de aparelhagem e seu estilo musical, o tecnomelody (“melotécnico”, segundo ele). Mas faz o mesmo com a MPB, que nunca assimilou com tranquilidade o sucesso popular de artistas como ele. “Não merecemos ser tão ridicularizados, menosprezados, humilhados como querem fazer”, resume. Conta, também, da infância e adolescência vividas entre os extemos da riqueza e da pobreza, no seio de uma família de origem árabe que não aceitava o fato de a mãe de Beto ter se casado com um motorista de ônibus e táxi.

Yahoo! Brasil: Qual é sua relação com o Pará hoje em dia?
Beto Barbosa: É zero.

Y!: Mas sua música deve muito ao Pará, não?
É, porque eu nasci lá, né? Minha música tem muito da minha história árabe, do meu avô libanês. Escutei muita música libanesa, meu avô tinha um rádio muito grande que pegava o Líbano, toda tarde ele ficava ali escutando. Eu não entendia nada, ficava do lado, ele me contando. E as músicas árabes são nervosas, agitadas, têm muita coisa no meio, aquela música da dança do ventre. Era uma mistura, quando me antenei pra vida era o movimento de Roberto Carlos, jovem guarda, e o movimento black power, Jimi Hendrix, Michael Jackson, Jorge Ben, Gilberto Gil. E ouvia muito as músicas clássicas, aquelas coisas que começaram a chegar em Belém,

Frank Pourcell, Ray Conniff. Isso tudo eu escutava na casa do meu avô, e se juntava aos ritmos da periferia – Evaldo Braga, Paulo Sérgio, Reginaldo Rossi, essa galera que não fazia música de qualidade para os críticos da música brasileira. Tive a felicidade de escutar o carimbó do meu amigo Pinduca, que foi meu mestre, o cara que me deu a primeira mão. Uma das minhas tristezas com meu estado do Pará é não terem Pinduca como o Luiz Gonzaga da Amazônia.

Y!:O norte tem a influência dos ritmos do Caribe, que é menor no resto do Brasil, e torna o som de lá muito particular. A lambada também tinha a ver com isso, não?
Ah, sim. Esses ritmos entram muito pela Amazônia, Colômbia, Peru, Venezuela, as Guianas, o Suriname. E é engraçado como a cultura vai pegando outras caras. A música do Caribe chega ali, o pessoal quer tocar igual e não consegue, toca um pouco diferente, já cria um ritmo novo. Aí o cara lá do Nordeste pegou a lambada, que já veio do carimbó, que já veio do Caribe, toca outra coisa, e já é o forró moderno, estilizado. A cultura dá essa volta, no Brasil inteiro, cada um com a sua interpretação.

Y!: Luiz Gonzaga foi uma grande influência, não?
Nossa, escutei muito Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Jackson tinha uma coisa de tocar com três notas e botar um poema todinho dentro daquele quadrado. As minhas músicas geralmente têm poucas notas, são bem simples. Uma vez eu estava com o Erasmo Carlos na minha casa em Fortaleza e disse pra ele: “Pô, eu queria poder tocar dissonante, me aprofundar nas notas”. E ele: “Mas você consegue fazer coisas que os caras das notas profundas não fazem, que é o simples”.

Toco nessa região aí, da simplicidade do verso. Eu danço, gosto de dançar. Quando estou fazendo música, vou dançar pra ver. Se eu não conseguir dançar, com certeza ninguém mais dança, aí descarto aquele projeto.

Y!: Na infância, você conviveu com a riqueza e com a pobreza.
Era um momento de muita revolta, eu não compreendia como é que meu avô e meus tios tinham condições financeiras, e minha mãe não tinha a mesma oportunidade. Falavam que era porque minha mãe tinha casado com um homem que não prestava. Eu achava aquilo uma ignorância. Se meu avô não queria ajudar meu pai,  que ao menos ajudasse a filha dele. Meu avô tinha as Lojas Acreanas, que se chamavam assim em função da minha avó e da minha mãe, que eram acreanas.

Y!: Ele veio do Líbano?
Do Líbano. Foi pro Acre pra trabalhar com o irmão dele, que já trabalhava com borracha, no tempo dos seringais. Chegou pobre, depois teve terras de borracha. Aí dividiu as terras com o irmão e foi pra Belém vender roupa na rua, chamava-se mascate. A mãe da minha avó era cearense, talvez seja esse o meu carinho pelo Ceará. Mas ela era aquela pessoa que não dava uma palavra, não podia dizer um “ai” nem um “oi”. Já pegava as decisões todas tomadas do meu avô, era proibida de falar. Minha mãe era rebelde nesse sentido, dizia: “Eu tinha tudo e não tinha nada. Tinha comida, roupa, tudo, mas não tinha minha vontade própria”.

Meu pai era amazonense, motorista de ônibus. Meu avô foi contra, abandonou, morreu e não perdoou. Comigo era diferente, porque eu era homem, o neto. Vivia aqui e ali, trabalhando com eles. Quando estava na casa da minha mãe eu ia juntar pedra na rua pra vender, ia pras feiras juntar comida pra levar pra casa. Meu pai não trabalhava porque se meteu no vício da bebida, só alcoolismo. O pior de tudo não é a fome, é a bebida. Depois que passa, o cara entra em depressão, é muito difícil. Fui trabalhar na Loja Bagdá, do meu tio, que foi dada pelo meu avô. Ninguém ganhou nada que não fosse do meu avô. Ele poderia ter feito a mesma coisa pela minha mãe.

Y!: Era uma questão de machismo, porque ela era mulher?
Exatamente. Os homens tinham tudo, as mulheres não tinham nada. Depois, de tanto minha avó pedir, “ajuda tua filha, não faz isso”, ele deu uma casa pra minha mãe, mas se meu pai se ajeitasse. Meu pai não se ajeitou, ele fez o despejo da minha mãe. A gente morava nas casas de favela mesmo, morava no gueto.

Y!: Como nasceu em você o destino de virar pop star?
Cara, eu já era gerente da loja. Fui boy, vendedor, caixa, motorista. Pra mim foi muito bom, porque eu sei varrer e limpar uma casa, vender, cobrar, argumentar aquilo que penso. Quando vi a oportunidade da música, peguei como um trabalho, como minha tábua de salvação. Olhei quem eram os meus concorrentes, quem estava no mercado, quem ganhava dinheiro com isso. Eram Pinduca, Alípio Martins. Luiz Gonzaga era o rei.

Comecei a ver que se eu pegasse aquele negócio, botasse umas mulheres bonitas dançando, girando, uma coisa moderna, aquilo acontecia. Lançamos, e começou a arrastar multidões. Quando botei a primeira música na Globo, que foi “Adocica”, a novela “Sassaricando” já estava no ar, pra lá do meio, e eles botaram porque estava muito forte, não iam perder aquele embalo. Hoje o cara manda uma música, “não, a novela já fechou” (ri)... Se quiser botar, bota, né?

Y!: Fora exceções como Pinduca e Fafá de Belém, você foi talvez o primeiro artista do Pará que virou nacional mesmo, ficou popular no Brasil inteiro. Como pulou essa barreira?
Eu sempre disse isso pro Pinduca: se ele morasse no Nordeste, era rei. Mas Pinduca é aquela coisa da raiz, não quer sair dali. Eu já sonho mais alto, meu sonho é o mundo.

Y!: Você está dizendo que fez sucesso porque saiu do Pará?
Se estivesse lá, não seria sucesso. O cara da Bahia já sai de lá com sucesso. No Ceará tem o forró, os caras se orgulham de abrir a tampa do carro e mostrar uma música de forró. O próprio Beto Barbosa eles têm como se fosse de lá. Mas o Pará parece que tem vergonha, só assume que gosta quando o sul diz que gostou.

Y!: Não é uma questão de auto-estima, de o povo de lá não acreditar em si?
É, eu sinto isso. Às vezes se torna até meio violento, de agredir, se achar inferior. Não boto muito o meu pé ali, se passo na rua é “esse diz que não é paraense, fica dizendo que é cearense!”.

Sou brasileiro. O dia que quiserem vir comigo estou aqui, mas essa submissão que tem lá é diferente da minha. O povo baiano briga por dinheiro, todo carnaval tem que ter verba pra todo mundo pra botar o carnaval na rua. Em Belém não tem. O som que querem curtir é tudo enlatado.

Aí vêm aquelas aparelhagens que pegam o som de todo mundo, não pagam direito autoral, não pagam Ecad, e ainda acham que estão te fazendo um bem porque estão te tocando. É melotécnico, técnico tecnobrega, tecno não sei o que, só pegam música dos outros e dão um remix. Tiram oportunidades dos artistas solo, dos músicos que tocam instrumentos.

Y!: Mas o tecnobrega tem ajudado a perceber que a musicalidade paraense é muito forte, e o resto do Brasil nem toma conhecimento.
Porque eles não divulgam, não chamam, não têm esse interesse. Quando comecei a ser cobrado pelo povo do Pará foi que vim me entender, por que eu falava mais do Ceará que do Pará: porque o Ceará me fez, foi o meu avalista na música nacional. Gravei o primeiro disco em Belém, em 1985, e fiquei ali sem cantar, ninguém me dava oportunidade, todo mundo tirava onda, ficava ridicularizando. E saí de lá.

Y!: Nos anos 1980, o mercado nacional estava dominado por Beto Barbosa, paraense, lambada, e por Luiz Caldas, baiano, fricote. Qual era a relação entre vocês dois?
Quando conheci ele estava estourado com aquela música (cantarola “Fricote”) “nega do cabelo duro/ que não gosta de pentear”. Eu não chegava nem perto daquele sucesso. Depois fui chegando, era forte no Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba. Eu fazia muito sucesso regional, e ele já foi um sucesso nacional. Mas foi assim que o Brasil começou a dar oportunidade para esses movimentos que vinham dos guetos, da rua, da periferia. Até então a música estava muito elitizada, muito internacional, muito, entre aspas, MPB. Em 1988, a lambada deu um estouro na França. Montaram um grupo de franceses com baianos, e fizeram uma versão, “Chorando Se Foi”.

Y!: “Adocica” saiu em 1988, qual foi a ordem dos acontecimentos?
“Adocica” era a faixa número 9 do meu LP. Eu não gostava , queria trabalhar “Mar de Emoções” (cantarola), “vem dizer a hora, não posso te esperar, bambolê...”. Essa música é minha, música e letra, você puxa no YouTube, tem bandas chilenas, colombianas, peruanas, mexicanas tocando. Eu queria essa, e a gravadora insistia em “Adocica”.

Y!: “Adocica” já era chamada de lambada?
Não, era uma música caribenha. Comecei cantando, e o nome que deram foi lambada. Que dança é essa? Lambada, que é um som imaginário, uma dança. Se for buscar a história, é uma cumbia, um merengue, uma salsa. Tenho uma música que fez sucesso (cantarola “Beijinho na Boca”), “ai, ai, ai, ai merengue/ ritmo gostoso pra se dançar/ toca, toca merengue...”, que é merengue.

Y!: O som do Luiz Caldas também pegava a influência caribenha?
Tinha um pouco de caribe, da Bahia, da África. É tipo esse negócio da dança do kuduro que inventaram agora. Isso aí é uma lambada, um merengue, uma salsa.

Y!: A diferença entre você e Luiz Caldas era que a Bahia podia se orgulhar dele, e você era um representante do Pará que não podia falar que era?
Isso, os caras não têm orgulho. Como consegui corrigir a história da minha mãe, ainda espero que, na história do estado do Pará, reconheçam esse erro grave, que veio deles, não de mim. Os intelectuais da região não souberam aproveitar.

Y!: Os intelectuais do Brasil todo, não? Eles em geral discriminam muito os artistas populares, você deve ter passado muito por isso.
Não tive muito apoio. Mas faz muito tempo que eles também não lançam nada, não criam nada. Eu já disse até que o Brasil precisa de novos caetanos. Tem tanto Caetano bom aí esperando oportunidade, e o próprio Caetano ainda está recebendo prêmio.

Y!: Você tem voltado para o alcance da mídia ultimamente. O que está acontecendo?
Cara, eu estou tendo uma nova oportunidade na mídia, uma nova forma de consertar tudo que foi bom, e o que não foi. É um comercial que tinha tudo pra dar certo na minha vida, e errado também, mas graças a Deus deu certo.

O cara diz: “Quer queimar o filme, chega num churrasco de bolsa pochete, óculos new wave, acompanhado do ilustre Beto Barbosa cantando ‘Adocica’”. Tinha tudo pra queimar o filme mesmo, né? Fui colocado um pouco no ostracismo pela mídia, não pelo meu público, que nunca me abandonou. Foi a mídia que determinou o enterro, a morte da lambada.

Como se acaba um ritmo da noite para o dia? Não se acaba, aquilo estava já enraizado. Os jornalistas, os médicos, os profissionais que eram universitários hoje são formados, e os melhores momentos da geração deles foram aqueles da lambada. Não tinham dinheiro, mas eram felizes, como eu. Virou febre. Xuxa estava começando, Faustão estava começando, as novelas davam ibope.

Y!: Todos ganhavam muita audiência à custa da lambada.
Eles ganharam muito dinheiro com esses movimentos.

Y!: Confesso que a propaganda da Skol me ofende. Acho que desrespeitam você.
Mas tem aquele negócio, eles me mandaram uma proposta, eu aceitei porque quis aceitar. Poderia não ter aceitado. Naquele momento  pensei como um empresário, não pensei só como um artista: o que é que eu vou ganhar? Disseram que íamos ter pelo menos uns três meses de comerciais direto nos melhores horários da Globo, do futebol, das novelas. Pô, não tem dinheiro que pague isso. Vendeu, atingiu o público, e o meu público se renovou, por incrível que pareça.

Y!: Ou seja, se alguém queria te ridicularizar, foi um tiro pela culatra.
Exatamente. Já estão falando no quarto e no quinto comercial, com outras propostas. Isso te traz de novo pro espaço, pra mídia. Começam a te conhecer mais, a ver o que tu pensa, qual é teu sonho como brasileiro, como cidadão. Trabalho pra um público que não é crítico, que quer dançar e ser feliz, um público leve, saudável, que é a maioria dos brasileiros.

Os críticos hoje estão muito reclusos. A própria sociedade não permite mais, nós vivemos num mundo tão moderno, tão atual. Está aí a liberdade gay, de expressão, da palavra, por que não pode ter também liberdade cultural, da música que vem dos guetos, das favelas? Até porque não apresentam nada socialmente, a não ser criticar e ser amargos. Hoje em dia eles são caras marginalizados, eu diria que são os bregas do momento hoje.

Y!: O preconceito de estilo musical, no fundo, é contra quem vem do gueto?
É, até hoje eu não sei explicar o que pensam, ainda não entendi. Essa música é brasileira, não é americana. Você vê Elton John, nos Estados Unidos é considerado brega e aqui é celebridade, pô. Aqui canta no Rock in Rio.

Y!: E ficam brigando com Claudia Leitte como se ela fosse mais brega que Elton John.
É, a levada do Caetano, do Gil, os caras mais celebrados... Eu, com 57 anos de idade, confesso que não tenho nenhuma base estrutural na cultura que me fez gente, que me fez artista... Curti a música do Gil porque tinha a ver comigo, dançante, “Taj Mahal”, do Jorge Ben. “Preta” inconscientemente vem dos meus ídolos de lá. Mas não merecemos ser tão ridicularizados, menosprezados, humilhados como querem fazer. Tenho que cantar o que me fez gente, o que me fez Beto Barbosa. “Adocica”, “Preta”, lambada.

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