Laetitia Sadier

Seu nome e seu histórico musical dispensam grandes apresentações. Herdeira nata de uma tradição em experimentalismos sonoros nos 19 anos de existência de sua banda Stereo Lab, Sadier nos mostrou suas músicas com muita elegância, a mesma competência, e uma fragilidade que a engrandece ainda mais.

Ao ouvir suas canções podemos perceber que a intrigante e inovadora lógica harmônica das canções do Stereo Lab seguem presente em suas veias. Modulações tonais que sempre renderam a unicidade do mundo 'Stereo Lab' de se fazer música, encontram lugar em seu disco com arranjos mais simplicicados, e letras mais pessoais.

Laetitia Sadier - Ceci Est Le Coeur

Mais intimista? O disco nem tanto. O show voz e guitarra, muito. Sua proficiência vocal fica muito clara no espaço que se estabelece entre palco e plateia, um silêncio rico de detalhes e nuances, que talvez não fossem percebidos num concerto em banda.

Chega, pega sua guitarra e canta. Ocupa todo o teatro com suas inebriantes melodias e a inconfundível sutileza do timbre de sua voz. Conquista os mais improváveis desconhecidos e hipnotiza os atentos olhares dos fãs de outrora. Ver para crer.

Laetitia Sadier - "The one million year trip acoustic" - ao vivo Santiago

Seu humor, levemente ácido, apimenta ainda mais a sensação de proximidade que ela cria ao nos contar sua história. The Trip traz letras autobiográficas, relatos e sensações pessoais da compositora nunca antes expostos nos trabalhos com o SL.

Versões também integram seu álbum, como a divertida chanson francaise 80's, Un soir, un chien, de Rita Mitsouko, com vocais sussurrados e beats lo-fi compondo o fundo musical. Ótima opção para pistas de soirées despretensiosas na casa de bons amigos.

Laetitia Sadier - Un Soir, Un Chien

A faixa By the Sea, versão do hit cult da dupla Wendy & Bonnie, apesar das notáveis melhoras no arranjo e na harmonização, não chega junto das demais canções do disco. Muito mais em função da composição, demasiadamente convencional. Já Summertime, ganha densidade sobre arranjo silencioso e uma brilhante solução de reharmonização. Tudo muito bem arquitetado, como se espaço, timbre e tensão harmônica caminhassem juntos há décadas.

Lucia Pamela
Em meio ao êxtase sonoro, somos supreendidos por um hit 90's stereolábico, presente em inúmeras mixed tapes e cool Dj sets, International Colouring Contest, do clássico album Mars Audiac Quintet de 1994.

Stereo Lab - International Colouring Contest

A letra conta a história de Lucia Pamela, cantora dos anos 60, ídolo dos aficcionados por bizarrices underground que, em 1969, lançou seu único álbum Into Outer Space with Lucia Pamela. Suas canções narram viagens fantásticas à Lua, encontros com extraterrestres e outras tantas anedotas futuristas de sua época. Uma verdadeira preciosidade perdida no tempo, que soa como uma calorosa banda de swing dos anos 30, com letras nada usuais.

Descrita desta forma, parece até uma lunártica rica adepta a grandes excentricidades. Lunártica e excêntrica sim, com muito respeito. Mas por de trás de toda sua inventividade, ela guardava sua sólida formação em música e sua experiência em liderar a primeira orquestra feminina americana. Outro curioso detalhes: foi eleita miss St. Louis em 1926!

Lucia Pamela - "Walking on the Moon"

Inevitáveis foram os sentimentos ambíguos e contraditórios aflorados ao ouvir a música. Tristeza, por ter cada vez mais certeza que o SL não voltará, mas alegria em saber que Sadier leva a frente sua música sem ficar devendo nada a ninguém.