Pra cima, com raiva

Pois é, acabou na segunda a ocupação dos estudantes na reitoria da USP com direito a algumas centenas de soldados da tropa de choque da PM fortemente armados (e sem identificação). Nesses novos tempos bicudos, no qual até um ex-presidente diagnosticado com câncer é alvo de desejos de morte e “campanhas” idiotas para vê-lo se tratar no SUS, esses estudantes foram xingados de tudo quanto é nome pelos comentaristas anônimos e raivosos de plantão.

Filhinhos de papai, playboys, vagabundos, baderneiros, maconheiros e o diabo a quatro. E quando um deles foi fotografado com um casaco da GAP então? Até um pessoal mais esclarecidinho saiu jogando pedra. Ninguém pensou que um mero casaco não tem relação alguma com o que está sendo questionado? Em tempos assim, pensar realmente é exigir demais.

Quase toda minha vida escolar passou pelos corredores de escolas públicas e foi assim que entrei na USP, em 1994, no curso de Ciências Sociais. Lembro que boa parte de meus contemporâneos era parecida comigo: ou vinham de escolas públicas ou de outras cidades, ou os dois.

Sempre fui avesso a políticas estudantis. Sentia uma preguiça gigantesca dos papos furados politizados e vazios de sempre, da distância entre as necessidades e problemas diários da universidade e as bandeiras levantadas (abaixo o imperialismo? Por favor). O mais próximo que cheguei do Centro Acadêmico foi na participação de um divertido e farsesco roubo da urna de uma das votações: a ideia porra louca era criticar a ausência de representatividade do processo (íamos fazer um vídeo com a urna amarrada numa cama pedindo que nossas exigências fossem atendidas. Detalhe: não tínhamos exigências). Como era de se esperar deu o maior chabu. Foi sensacional. Era um jeito diferente de fazer política.



Então me formei e de vez em quando ficava sabendo de alguma coisa na faculdade. Tudo meio parado, ninguém se mexia pra nada. Anos e anos de reitores capatazes de um governo do estado sem interesse por educação resultam nisso mesmo: apatia (estou falando aqui de São Paulo, mas essa história se repete de outras formas em outros estados).

Quando aconteceu esse recente confronto entre a Polícia Militar e os estudantes achei interessante. Primeiro porque acho que passou da hora de receber paulada de policiais numa boa. Porque só eles podem bater? Segundo porque foi um sinal de movimentação e raiva, e isso é bom, é transformador.

Bem, a questão do policiamento no campus deveria ser pensada pelo estado em conjunto com estudantes, professores e funcionários. Mas é pedir muito de um reitor autoritário, e com uma extensa folha corrida de barbaridades, como João Grandino Rodas (saiba mais sobre o figura aqui). No entanto, não dá para ficar do lado dos estudantes que desejam a total exclusão de policiamento. O campus é público, faz parte da cidade. Agora, o que não pode é a polícia fazer o maior fuzuê por causa de três usuários de maconha e seguir completamente ausente para os casos de estupros, roubos e assassinatos nesse mesmo campus.

Nessas horas é preciso ser inteligente e não cair em armadilhas como a ocupação besta da reitoria. Claro que a Justiça iria pedir “reintegração de posse” e que junto disso viriam os policiais e a imprensa sedenta por imagens de impacto desses baderneiros “recebendo o que merecem”. Prato feito para deixar parte da opinião pública de olhos e ouvidos fechados para qualquer discussão. É necessário pensar uma outra forma de confrontar politicamente o sistema e acredito que o Wikileaks, a Primavera Árabe e os movimentos decorrentes do Occupy Wall Street possam nos dar pistas do que fazer no futuro (vale ler o discurso do filósofo Slavoj Zizek, “A tinta vermelha”, feito um mês atrás em Nova York).

Porque você aí ignorante que defende que a polícia bata em estudantes, você pode muito bem ser o próximo. Afinal, a mal treinada e gloriosa Polícia Militar do Estado de São Paulo bate em professores, estudantes, grevistas das mais diversas profissões, e dispersa manifestações pacíficas com bombas e balas de borrachas. Não é esse mundo que eu quero. Não mesmo.



p.s.: aproveito para recomendar outros textos escritos recentemente no calor do momento. São eles “Geração mascarada”, de Marcelo Rubens Paiva, “O choque na USP e a militarização de São Paulo”, de André Forastieri, e “A cortina de fumaça da segurança na USP”, de Pablo Ortellado.