Uma entrevista com os líderes do Movimento Passe Livre

charles_nisz

Nina Cappello, estudante de Direito da USP de 23 anos, e Lucas Oliveira, historiador formado também pela USP foram os entrevistados de ontem do Roda Viva, da TV Cultura. Antes do programa, Nina concedeu rápida entrevista ao "Vi na Internet" e falou um pouco sobre as propostas do Movimento Passe Livre.

Leia também:
Vem para a rua: Fiat tira campanha do ar após comercial virar tema de protestos
Uma seleção dos vídeos dos protestos pelo Brasil
Um dia, três cidades, sete vídeos

O MPL teve uma reunião com Antônio Donato, secretário de Governo da gestão Haddad na manhã da segunda-feira (17). Nessa reunião, não estava prevista a participação do prefeito Fernando Haddad. Ainda assim, Haddad apareceu de surpresa - seu gabinete fica próximo à sala de Donato e ele conversou com Nina por alguns minutos.

Durante a reunião, ficou acertada a participação do MPL nas reuniões do Conselho da Cidade sobre o aumento da tarifa de ônibus. Haddad deu razões econômicas e técnicas para o aumento da tarifa e justificou-se dizendo que o valor da passagem foi reajustado abaixo da inflação.

Mas, de acordo com Nina, o MPL não é um movimento político, é um movimento social. "Não cabe a nós dizer como será o financiamento do transporte em São Paulo, mas mostrar como o aumento da tarifa exclui muitas pessoas de usufruir de um serviço público". Para ela, a prefeitura deveria arcar com todo o custo do transporte na cidade.

Segundo cálculos feitos pela Prefeitura, revogar o aumento de R$ 0,20 custaria R$ 360 milhões aos cofres municipais. Nina sugere a renegociação da dívida de São Paulo (estimada em R$ 200 bilhões) como maneira de obter recursos para não precisar reajustar a tarifa.

Outro ponto defendido pelos manifestantes do MPL é uma gestão verdadeiramente pública do transporte na cidade: "Os cidadãos devem ser ouvidos em relação às demandas da cidade. Linhas, trajetos, ônibus 24 horas. Não podemos ficar dependendo das decisões das empresas", pontua Nina.

Para a estudante, há uma grande viabilidade na revogação do aumento: na terça-feira (11) havia cerca de 20 mil pessoas nas ruas. Na quinta (13), 40 mil. O MPL estima que mais de 100 mil pessoas estavam protestando nas ruas e avenidas paulistanas nesta . "A repressão policial ajudou com que mais gente ficasse simpática ao movimento, mas além disso, o crescimento mostra a força dessas reivindicações", diz Nina.

Lucas e Nina mostraram articulação e segurança durante a entrevista no Roda Viva, apesar de estarem sendo sabatinados por especialistas e jornalistas experientes. Reforçaram que o MPL tem uma pauta definida: a revogação do aumento de R$ 0,20 na tarifa de ônibus de São Paulo.

"Abandonaremos as ruas quando o preço baixar", diz Lucas. Ou seja, o MPL não teme uma queda de braço com os governos municipal e estadual. Lucas diz que o trabalhador gasta uma parcela significativa do salário com transporte - 31% e isso deve ser repensado pelo poder público.

Por mais que Lucas e Nina tenham ressaltado que o MPL é um movimento social, eles não se furtaram aos aspectos econômicos da questão: o governo federal gastou 12 vezes mais em subsídios aos carros (isenção do IPI) do que com transporte público. Outro ponto levantado por Lucas é o dinheiro perdido por São Paulo por causa dos congestionamentos (cerca de R$ 31 bilhões por ano, segundo estudos).

Lucas refutou a crítica de que os protestos param a cidade: "Os recordes de congestionamento não aconteceram em dias de protestos". Outra estatística trazida por ele é de que os carros transportam 20% dos carros e ocupam 80% do espaço das ruas. Ou seja, priorizar o transporte público é a única maneira de melhorar o trânsito das cidades, na opinião dos líderes do MPL.

A repressão policial virou o jogo da opinião pública em favor do MPL, Na quinta-feira (13), sete repórteres do jornal Folha de S. Paulo foram feridos por policiais. Ironicamente, na edição de quinta-feira, o jornal pediu dureza na repressão contra os manifestantes. A sociedade reagiu mal e isso impulsionou a adesão às reivindicações do MPL.

Quando perguntados sobre atos de vandalismo nas manifestações, Lucas e Nina saíram-se bem: "o MPL condena os atos e vandalismo e não há um comando centralizado, não há ordem para quebrar vidros e queimar lixeiras. É diferente da violência da PM, só cometida sob ordens dos superiores".

Uma das últimas perguntas foi sobre as empresas de transporte e como elas influenciam as políticas públicas do setor. Para Lucas, elas são uma "caixa-preta". Segundo o historiador, elas influenciam a gestão. De acordo com Lucas, o dono da Gato Preto, maior empresa de ônibus de SP, doou R$ 125 mil para a campanha de Geraldo Alckmin. Uma bela pauta quicando para ser apurada pela grande imprensa.