Quem é que manda aqui?

"Quem manda em sua casa? Você ou seus filhos?" Assim o líder espartano Licurgo esculhambou a democracia, que, embora seja realmente a melhor (ou a menos pior) forma de governo, não funciona sem um mínimo (eu disse um mínimo) de ditadura. Não é possível viver sem obedecer a alguém, de Deus ou Lênin para baixo, sejam guardas de trânsito, gerentes e subgerentes, patroas, síndicos, maestros, curadores, editores... E é preciso deixar claro sobre quem manda e quem obedece, bem como a possibilidade de negociações e entendimentos entre mandantes ou mandados — inclusive cães e seus donos.

Vida de cãoSempre afirmo que devemos cuidar de nossos caninos como cuidamos de nossas crias humanas. A criança é a rainha do lar até a página 142: ela precisa ter limites quanto a hora de dormir, consumo de guloseimas, permanência na Internet ou volume do aparelho de som. Do mesmo modo, o cão deve ser educado de acordo com o ambiente em que residir, obedecendo ao(s) dono(s), respeitando visitas, assustando intrusos indesejáveis e não mastigando ou bulindo no que não deve. Não importa se ele tem raça definida ou se é genérico de parece-que-não-sei, nem se foi comprado com linhagem de dois metros de papel ou encontrado na rua. Tamanho também não é documento, muito menos desculpa para deixar o bicho tomar conta — por exemplo, um enorme e respeitável Akita vive muito bem em um apartamento não muito grande, bastando que o(a) "kainushi" lhe dê oportunidades suficientes para passeio e exercício. E nem precisa ser um Akita, "mochiron"!

A questão pode ser resumida e resolvida em poucas e curtas palavras — isso mesmo, as famosas ordens de comando como "Não!", "Junto!", "Fica!", "Pra lá!", sucintas e objetivas, ditas com bondade mas com firmeza; não é preciso — e nem apropriado — ser nenhum General Patton ou Dona Chucruts com pau de macarrão, muito menos apelar para chineladas ou tapas. E nunca é demais lembrar a famosa parceria de São Tiago com Jimmy Cliff: essa mesma, a frase "let your yeah be yeah and your no be no", que seu "sim" seja "sim" e seu "não" seja "não"; nada de se deixar vencer pelo charme daqueles olhões sofredores e rabo abanando. Eu mesmo aprendi a negociar com Fredy, genérico de dálmata com quem convivi durante três anos (e que hoje mora com meu filho humano). Sempre que me via sentando à escrivaninha para escrever, Fredy vinha enfiando a cabeça em meu colo para pedir atenção e carinho (agora o editor sabe por que às vezes eu estourava o prazo em quinze minutos para entregar o texto). Eu passava uns cinco minutos conversando com Fredy e fazendo-lhe cafuné, daí eu me levanto, dizia "Fredy, vai pra lá!" e ele se afastava (ao menos pelo tempo suficiente para não me fazer atrasar o texto em mais quinze minutos). Para quem não gosta de cães do tipo "grudento", próximo demais, que segue o dono por toda parte, o comando "fica!" também é muito útil — por exemplo, quando você precisar ir à cozinha ou ao banheiro e quiser que o cão se mantenha na sala ou no quintal. "Dessa forma, além de o cão se acostumar com as sua ausências temporárias, perceberá que você volta se ele precisar latir ou arranhar a porta", lembra Alexandre Rossi, expert por excelência em comportamento animal e meu vizinho na revista Cães & Cia.

Tanto no mundo animal como no racional, a maioria é quem manda. Às vezes deixamos nosso amor pelos bichos levar a melhor e tentamos colocar em casa todos os cães e/ou gatos do mundo, tornando-nos então minoria humana. Um exemplo é o da cantora e produtora fonográfica Tereza Miguel, que nos últimos anos recolheu das ruas a cadela Nara e meia dúzia de varões caninos: Sarney, Bonitão, Neve, Orelha, Junior e Billy. E conseguiu, embora a custo, fazer com que eles parassem de fazer "backing vocal" durante as gravações do estúdio que tem em casa, na região Norte paulistana.

Aos poucos Tereza vai negociando outros detalhes com eles. "O Billy costuma fazer cocô no tapete que fica na frente das casinhas. E não adianta brigar. Ele fica tão envergonhado quando chamo sua atenção que acabo relevando. Nem ligo mais", diz ela. "Sei que eles fariam tudo pra me agradar se conseguissem entender tudo o que digo a eles. Ainda bem que entendem várias palavras: 'Cala a boca!', 'Chega de latir!', 'Pra dentro!', 'Pra cima!' e as duas palavras que eles, com certeza, mais gostam de ouvir: 'Vamos passear?' Como ficam felizes! É uma festa! E um barulho também. Não param de latir. É um verdadeiro inferno para os meus vizinhos. E eu, feito uma desequilibrada, fico gritando inutilmente com eles: 'Cala a boca!' Nesse momento, eles não me obedecem. Um dia, quero ganhar o suficiente para pagar uma dessas pessoas especializadas em cães, as tais passeadoras profissionais."

Mas é bom mandarmos outras pessoas mandarem em nossos bichos? "Um dia, eu estava na rua com a Nara, o Sarney e o Bonitão", conta Tereza, "quando vi um desses passeadores caminhando apressadamente com cerca de seis cães. As guias estavam encurtadas de tal forma que os cães caminhavam tropeçando uns nos outros. Imagino que o comprimento das guias era de vinte centímetros, mais ou menos. Assim, os pobres cães ficavam com suas cabeças extremamente próximas. Mal podiam caminhar e, ainda assim, tinham de seguir os passos apressados do 'passeador profissional'. Pareciam estar sendo punidos, como alguém puxado pela orelha, e não passeando. Não havia aquela expressão de felicidade em seus olhos. Havia angústia e mal estar. Isso não é passeio, é castigo, pensei. Para passear minha filha e filhos adotivos, prefiro usar guias longas, de mais de dois metros, que encolho e solto conforme a necessidade. Já ouvi alguns adestradores afirmando que a guia deve ser curta, que o 'animal' deve ficar alguns centímetros atrás do dono ou dona, para entender que quem manda é o ser humano e não o ser canino. Se a guia for longa e o 'animal' andar na frente do humano, vai acreditar que quem manda é ele e não o humano. Bom, eu não tenho esse complexo de inferioridade. Não faz a menor diferença se minha cadela e meus cães acreditam que mandam em mim. Aliás, na hora do passeio, há uma liderança compartilhada, que se verifica pelo comprimento da guia. Gosto de ver meus bichinhos com o máximo de liberdade para caminhar. A guia longa dá a eles a sensação de mais espaço. Não ficam tolhidos por estarem perto demais das minhas pernas. Ficam mais soltos e mais felizes. Bem que eu gostaria de caminhar com eles sem as guias. Infelizmente, é perigoso. Eis aí, enfim, nossa liderança compartilhada: eu os levo para passear com guias longas e eles retribuem caminhando para todos os lados, de tal forma que as guias ficam completamente embaraçadas. Daí, para que possam continuar se movendo felizes e despreocupados, ficam parados — a meu pedido — esperando que eu as desembarace para continuarmos nosso passeio. Será que é por isso que os adestradores profissionais preferem guias curtas? Não por causa da liderança dos humanos, mas por causa do trabalho que dá passear vários cães com guias longas? Pense nisso: se você paga algum passeador profissional para levar seu cão ou cadela para passear, exija que o passeio seja feito com guia longa. Não caia nessa conversa de liderança humana. A hora do passeio é sagrada para o seu bichinho de estimação - é o momento dele. É como quando vamos ao teatro, ao cinema, ao restaurante. Gostamos e precisamos igualmente desses passeios humanos. Sem guia curta. Afinal, já estamos suficientemente adestrados e sabemos voltar pra casa na hora mais adequada. Às vezes nos perdemos por aí. Mas acabamos voltando para nossos filhos e filhas adotivas, que sempre nos oferecem toda a felicidade do mundo guardada em seus corações amorosos — a felicidade de nos ver voltar." Tereza resume com uma sugestão: "Vamos compartilhar essa nossa liderança: nós os conduzimos — com guias longas - e eles se divertem cheirando tudo ao seu redor."

Enfim, tudo na vida é negociação, e podemos mandar em nossos animais de estimação sem oprimi-los. Pode reparar: gatos e pintinhos tentam fugir quando segurados à força, mas ficam horas em nossa mão ou colo se não os tentarmos prender. O cão é mais submisso, mas tem limites. Se soubermos mandar e comandar, eles saberão obedecer; se compartilharmos o comando, melhor ainda. E, já que comecei citando um grande especialista em governo, Licurgo de Esparta, terminarei citando outro, Abraham Lincoln: "Nenhuma pessoa é suficientemente boa para governar outra pessoa sem o consentimento desta outra pessoa." Muito menos para governar um bicho de estimação...

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