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  • Niemeyer global

    A morte de Oscar Niemeyer é tratada pela imprensa brasileira sob um ângulo em particular: grande parte dos elogios ao "gênio" vêm do fato de ter contribuído para a glorificação do Brasil no estrangeiro. É verdade que isso ocorreu, ampla e continuadamente. Mas a ênfase posta aí revela as dinâmicas persistentes de um complexo.

    O telenoticiário Jornal da Globo, ainda na noite de quinta-feira (5/12), gastou mais da metade do tempo dedicado a Niemeyer mostrando a circulação internacional do arquiteto, recortando obituários e manchetes várias, pinçadas de jornais da Europa e do Mundo. As repercussões de primeira hora homenageavam o demiurgo em diversas línguas. Nada de mais, apenas notícias: "Morre Oscar Niemeyer", "Oscar Niemeyer morre". Para a Globo, eram confirmações de alguma coisa.

    O crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes já havia tematizado o problema falando, nos anos de 1960, sobre os "carmas" de um país cuja autovalorização, em geral, exige primeiramente um reconhecimento no

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  • o B dos Brics

    a revista inglesa "the Economist" deu às bancas o seu já tradicional exemplar de prognósticos para o ano que vem: "the World in 2013". No Brasil, o preço da publicação é salgado, mas compensa. "the World in 2013" tenta um amplo panorama do "jogo" internacional corrente, com boa atenção à diversidade das situações locais e regionais. Partes do dossiê podem ser lidas em www.economist.com/theworldin/2013. Não há na imprensa brasileira uma publicação desse quilate, nem sequer a pretensão de que venha a existir algum dia. O discurso midiático brasileiro sobre globalização, política, economia e mundo contemporâneo continua a reboque do efêmero caricato. Sobretudo na web, as informações sobre "o Mundo" são notas esparsas e sucintas, compradas das grandes agências.

    O Mundo da Economist para 2013 está dividido em três centros nevrálgicos que, segundo os seus editores, hão de continuar a marcar as dinâmicas produtivas e criativas do planeta: Beijing, Berlin e Washington. Por elas passarão as

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  • Obama e “O Mundo”

    No centro de Paris há um imóvel histórico. Há muitos, na verdade. Mas um deles, em particular, tem a ver com "O Mundo" das últimas horas. Nas paredes desse antigo edifício os franceses se vangloriam. Ali, em 1783, foram esboçadas as cláusulas fundamentais do Tratado de Paris. O prédio abrigava então a embaixada da Inglaterra na capital francesa.

    O Tratado de Paris foi um dos acordos de paz que encerraram a Guerra de Independência Norte-Americana. Com ele, os EUA foram reconhecidos como nação independente por todas as grandes forças da ordem internacional à época. Até hoje, os proprietários do imóvel parisiense sublinham o "evento" na plaquinha colocada à entrada. A independência norte-americana foi montada e assinada em Paris. Os Estados Unidos são (mais) uma invenção da França?

    três cores
    Ontem, os jornais franceses estamparam-se de olho no destino americano, atentos ao resultado da eleição presidencial: Obama? Romney? Na capa do "Le Monde", um extenso editorial apoiava Obama de forma

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  • O Nobel da Crise

    A eleição da UE para o Nobel da Paz é um grave episódio de auto-complacência e eurocentrismo? O tiro saiu pela culatra e a indicação foi percebida, mundo afora, como uma "gracinha"? Mais ou menos.

    A ideia por detrás da escolha não é ruim.

    Todos sabem, em primeiro lugar, que a criação dessa União é o fundamento da paz europeia contemporânea. O continente viveu em guerra durante todos os séculos da modernidade. A pancadaria só deu trégua quando, após a catástrofe descomunal de 1939-1945, cresceu na diplomacia a ideia de uma união transnacional. Seria o melhor (talvez o único) modo de apaziguar as tensões e os conflitos ancestrais, criando o caminho da cooperação e a diluição prática das fronteiras. Essa história é bonita e — não à toa — encanta os mais jovens. Ela contém a narrativa básica dos valores do século 21 e do 3º milênio. É uma história geminada com a história das Nações Unidas, outra macro-instituição tecida nas ruínas da civilização mundial, holocausto e bomba atômica. A ONU

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  • Direitos humanos, na Tv e no Cinema

    No centro do programa Roda Viva (Tv Cultura), esteve nesta 2ª feira o sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro — assunto e homenageado aqui em textos anteriores. Pinheiro dirige estudos sobre violação de Direitos Humanos na Síria e é membro também da Comissão Nacional da Verdade. Criada no último mês de maio, a comissão vai traçar um panorama dos arbítrios cometidos pelo Estado brasileiro e seus agentes entre 1946 e 1985. O foco da comissão, evidentemente, é o regime militar que durou de 1964 a 1985.

    Aqui está o link direto para íntegra do programa: Paulo Sérgio Pinheiro no Roda Viva.

    A fala de Pinheiro é impecavelmente institucional e evita emitir juízos pessoais sobre qualquer assunto. "Desde que eu entrei na Comissão da Verdade o que eu penso pessoalmente não interessa muito", disse ele no começo do programa. Já estava então claríssimo que não falaria passionalmente sobre os temas em questão. Perguntado sobre a Lei da Anistia brasileira, limitou-se a dizer, com sobriedade ímpar, que "a Corte

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  • Existe o Brasil?

    O artigo de João Pereira Coutinho no jornal paulistano Folha de S. Paulo ("As democracias midiáticas", 25/09), expõe a difícil questão das visões internacionais na imprensa e o tema antiquíssimo da imagem do Brasil fora do Brasil. São assuntos delicados. O último é uma obsessão nacional. É conversa, entre nós, até de almoço de domingo. E costuma acabar em briga.

    O Brasil mantém correspondentes na Europa, assim como há europeus escrevendo em jornais brasileiros sobre a vida e as crises europeias. Isso é sempre bom de ler, e vem aumentando. É útil, também. O leitor brasileiro interessado em visões contemporâneas sobre o Velho Continente pode recorrer aos artigos e matérias de Gilles Lapouge, Jamil Chade, Gustavo Chacra, Rodrigo Russo e alguns outros. Na Folha de S. Paulo, Clóvis Rossi visita esporadicamente os altos e baixos europeus. O Estado de S. Paulo traduz regularmente as reflexões de Paul Krugman sobre a crise financeira internacional, que o levam com frequência a opinar sobre a

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  • Assim caminha a humanidade…

    A delegação do Irã junto à 67ª Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas levou ao plenário do encontro, na noite desta quarta-feira (26 de setembro de 2012), uma rápida nota sobre a soberania territorial do país:

    "The government of the Islamic Republic of Iran reassures its full sovereignty over the iranian islands of Abu Moussa, Greater Tunb and Lesser Tunb, in Persian Gulf, and rejects any claim to the Chancelary".

    Tradução:

    "O governo da República Islâmica do Irã reafirma sua plena soberania sobre as ilhas de Abu Moussa, Greater Tunb and Lesser Tunb, no Golfo Pérsico, e rejeita qualquer pleito feito à Chancelaria".

    Lido em inglês sofrível, o comunicado diz respeito a uma histórica contenda entre os persas e os Emirados Árabes Unidos. Os EAU reivindicam para si as três ilhas. Abu Moussa, Greater Tunb e Lesser Tunb ficam na "boca" estratégica do golfo e "assistem" diariamente ao vai-e-vem dos petroleiros globais. Lesser Tunb tem 2 km quadrados de área.

    A leitura teve ares

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  • Round trip (ida)

    Cerca de uma 1h20 para ir da Paulista a Pinheiros e voltar. Quem mora em São Paulo, calcule a insânia. Só fui por não ter opção: o envelope me faria falta na viagem.

    Na sequência dos pecados pagos, mofamos na 9 de Julho, eu e o estranho taxista. Ele abusa das freadas e me causa uma certa náusea. O ar é pútrido, o cheiro de borracha torrando. Mofamos na boca do túnel — adeus ao teatro dos modernos!, mofamos na avenida Tiradentes — adeus ao batalhão de polícia!, mofamos para entrar na Marginal — farewell, prefeito Maluf! Welcome, Russomano! Em todo o percurso, o mesmo trânsito doentio, abjeto. E a paixão patológica dos conterrâneos pelos seus automóveis de passeio. Incompreensível.

    "Outro dia, levei uma senhora da Paulista no Aeroporto. Foram 4h20. Peguei ela às 3h da tarde, chegamos em Guarulhos às 7h20 da noite. Ela só não perdeu o voo porque não tinha bagagem", me conta o motorista.

    Estarrecido, silencio. 4h20 é sem dúvida o record nas minhas apurações. E eis que a conclusão do chofer

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  • Apaixonados por carro…

    É incrível a polêmica criada em torno de uma obviedade como esta: a proposta de um bilhete mensal para o transporte público na cidade de São Paulo, feita pelo candidato a prefeito Fernando Haddad.

    Em primeiro lugar, é vergonhoso-escandaloso-desesperador-chocante que ninguém tenha proposto ou implantado uma coisas dessas até hoje, na capital paulista ou em qualquer outra cidade brasileira. Mas é compreensível também. Afinal, quem matou a charada foi a rede de auto-postos Ipiranga, aquela onde — segundo as inserções comerciais — é possível fazer de tudo. O slogan do posto de serviços é a mais certeira assertiva sobre o nosso primitivismo na matéria: "Ipiranga: apaixonados por carro, como todo brasileiro". Falou e disse.

    O estado deplorável das nossas cidades (metrópoles?) está intimamente associado ao automobilismo. Daria para escrever uma centena de pequenos textos a respeito, se o assunto da coluna, a rigor, não fosse "Europa e sua(s) crise(s)". Com tudo o que a Europa pode ter de

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  • O mundo de ontem

    Preocupados com os rumos que a coisa toma nos debates sobre o futuro da União Europeia, um grupo de cientistas sociais austríacos organiza sucessivos workshops para discutir as "múltiplas culturas" que formam o seu continente. No foco dessas discussões está o grande desentendimento que parece ser a tônica da política europeia hoje. Praticamente, não há consenso sobre nada.

    O pressuposto das pesquisas do Eipcp ("Instituto Europeu para Políticas Culturais Progressivas") é relativamente simples. Para esses pesquisadores, a Europa é um espaço de transições culturais graduais e antigas, indo dos Montes Urais até o Atlântico. Um espaço pluriétnico e multicultural, formando uma sequência de "arranjos" que expressam formas diferentes de falar, de viver, de pensar, de vestir, de cozinhar, de projetar, e por aí vai. São os "regionalismos" persistentes.

    A União Europeia, nessa visão, é uma difícil tentativa de botar essas variações "em comunhão": tentativa organizada sobre bases portanto

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