Zoropa

O ocaso de uma deusa

Federica Pellegrini chegou a Londres ainda na condição de rainha da natação mundial. Há pouco mais de dois meses, na Hungria, Federica brilhou nas piscinas (como brilha fora delas) conquistando medalha de ouro em uma das categorias que dominou, os "200 m Livre". Para muitos, porém, o mau desempenho noutra prova, a dos "400 m Livre", acendia uma luz amarela às vésperas dos Jogos ingleses. Sinais de "decadência"? Acertou quem achou que sim.

Nas piscinas londrinas, Federica foi mal, muito mal, nem sombra do prodígio que surpreendeu e arrebatou corações em Atenas. Com míseros 16 anos de idade, foi então — e segue sendo — a mais jovem atleta italiana a subir em um pódio olímpico. A medalha, na ocasião, foi de prata, nos mesmos "200 m Livre" de que se tornaria senhora nos anos posteriores. Em Pequim, já crescida e se consolidando, Federica esteve no degrau mais alto nessa mesma categoria, e cravou recorde olímpico (1'54''82). O ouro — e o novo recorde — pertencem agora à norte-americana Allison Schmitt (1'53''81).

Federica Pellegrini, na piscina e fora dela (© AP Images)

São raros os casos de atletas extremamente belas que mantém um domínio intenso de suas modalidades. Lembremos, por exemplo, da mítica Gabriela Sabatini: durante muito tempo, Sabatini enfeitou as quadras, competindo em alto nível, mas ganhando muito pouco. Também no Tênis, Maria Sharapova é um ponto fora dessa curva: embora menos vitoriosa do que outras gigantes históricas como Martina Navrátilová e Steffi Graf, Sharapova conquistou 27 títulos, inclusive o Grand Slam completo. A sérvia Ana Ivanovic, outra beldade da raquete, não tem a intensidade de suas rivais.

na onda contemporânea
No caso de Federica, a mistura de sex appeal, simpatia e beleza vibrante fez dela um dos maiores ídolos do esporte italiano e europeu, mobilizando milhares de fãs ao redor de si. Sabendo de sua beleza e do potencial econômico disso, aderiu também à onda contemporânea que associa os atletas de alta perfomance ao comércio pujante de material esportivo, ao mundo da moda e do design, à badalação e aos eventos sociais multiplicados. Num país como a Itália, onde essas indústrias são centrais (e não periféricas, como no Brasil), o rosto de Federica se multiplicou nos outdoors, nas vitrines, nas revistas, nos catálogos e nas páginas de fofoca. Mas com razoável tranquilidade (e uma certa inteligência), Pellegrini parece ter administrado corretamente as fronteiras entre esses mundos, considerando-se a grande pressão midiática em que vive há 8 anos. Muitas de suas atitudes revelaram uma beleza sem culpa e mostraram uma importante convicção de que essa beleza não nublava o seu talento esportivo. De Atenas para cá, ganhou 31 medalhas em competições oficiais, sendo 15 de ouro.

o corpo e o esporte
No terceiro dia de competições em Londres, após sua derrota na prova dos "400 m Livre" já em clima de fracasso, um repórter perguntou-lhe prontamente se "a cabeça" e a agenda extra-esportiva estavam interferindo em seu desempenho. Com naturalidade (e ironia), Pellegrini lembrou ao moço que o esporte "também" tem a ver "com o corpo" e que "a cabeça não pode tudo". É uma sábia consciência, espantosa para uma garota de 23 anos, num mundo em que muitas pessoas se recusam a envelhecer e parecem não aceitar as limitações impostas pela idade. O inclemência da imprensa esportiva com a estado físico de Ronaldo Fenômeno, por exemplo, foi sintoma duradouro dessa incompreensão profunda: as carreiras muitas vezes são breves em função de "variáveis" que independem da vontade dos atletas. Em declarações recentes para a revista Vanity Fair, Federica avisou que, depois de Londres, seguirá uma carreira de modelo. É seu direito, embora não faltem vozes para acusá-la de "corpo mole".

Se as piscinas olímpicas assistiram à despedida de uma Pellegrini "em baixa", convém registrar que tal despedida — precoce — aconteceu com extrema elegância e com a mesma graciosidade que marcou sua carreira. Do outro lado, o exemplo discrepante e absurdo de Michael Phelps não serve como régua para nada nem ninguém. Phelps é algo que não se explica, um híbrido mágico e zoomórfico na fronteria entre os homens e os peixes.

(por josé guilherme pereira leite)

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