Bloqueio criativo na vida e na arte

Ao encarar thrillers e, vá lá, qualquer ficção que seja, todo mundo instintivamente suspende um certo apego à realidade e se deixa levar pelos vãos produtos da imaginação, como diria Philippe Pinel. Todo escritor conhece esse jogo, o famoso me-engana-que-eu-gosto, e conta com a colaboração do leitor. Mas o suíço Joël Dicker está exagerando. A julgar por “O caso Alaska Sanders”, ele começa a abusar da condescendência alheia. Parece que, depois de ter vendido cerca de 12 milhões de cópias dos seus cinco romances anteriores em todo o mundo, Dicker fez sua fama (e muita grana) e agora acha bonito apenas correr atrás do próprio rabinho para alegrar a plateia. Só que a piada se repete, e isso cansa.

“O caso Alaska Sanders” cai nessa armadilha. É o mais recente título da trilogia iniciada com “A verdade sobre o caso Harry Quebert”(2014), seguido por “O livro dos Baltimore” (2017). Não precisa ler um para entender os outros. O primeiro foi bem engenhoso, surpreendeu, mereceu o sucesso. O segundo seguiu a mesma estratégia, também deu certo.

Todos da trilogia são narrados pelo bem-sucedido escritor de thrillers Marcus Goldman, que incidentalmente vira investigador de crimes esquecidos e acaba reabrindo alguns cold cases — ou seja, casos considerados encerrados. É um filão que dá ibope nas séries de televisão.

Outro ponto acertado das narrativas é que, embolando a trama com a vida íntima de um escritor de sucesso, a gente chega até a confundir as personas: quem é Dicker, quem é Goldman? No fim, o suíço entrega o que promete: entretenimento com fins lucrativos, sem qualquer sombra de maior ambição literária.

E então chegamos à história de Alaska Sanders. Diz que a bela jovem foi morta em 1999, pelo namorado, Walter Carrey, e o muy amigo Eric Donovan, numa pequena cidade dos EUA. O crime foi elucidado em três dias, mas Carrey matou-se tão logo confessou o homicídio, não sem antes dedurar Eric, que escapou da forca mas ganhou uma prisão perpétua.

Onze anos depois da morte de Alaska, o sargento Perry Gahalowood, que fora o encarregado do caso Alaska e vivia crente que tinha resolvido tudo certinho, recebe uma carta anônima dizendo que ele estava equivocado: Carrey e Donovan seriam inocentes.

Gahalowood já era personagem do primeiro volume da trilogia e tornou-se amigo de Goldman desde então. Por falta do que escrever, o escritor reencontra o amigo e os dois resolvem investigar o assassinato, reabrir o caso, driblar mil pistas falsas e partir para o abraço, porque no fim vai dar tudo certo, como sabemos desde o início.

Olhando assim, parece tudo certinho, com Dicker embaralhando as peças para prender o leitor por 500 páginas. Ele já fez isso antes, com bastante talento, e por isso o sucesso continua. Vai vender como água, até por inércia, e não há mal algum nisso, se o leitor ficar feliz. A voz do povo é a voz do mercado.

Mas sabe quando a fórmula já se mostra gasta? Sabe quando a conversa está tão repetitiva que você já antecipa o que seu interlocutor vai dizer na próxima frase? E aquelas piadinhas que já não provocam nem meio sorriso? E os truques narrativos que já não surpreendem mais? Sem falar nos personagens que parecem ser dublados pela mesma voz, além de coincidências e “evidências” inverossímeis, anacrônicas, decepcionantes.

Pois é. Joël Dicker parece estar sofrendo a mesma agonia que o seu personagem principal: bloqueio criativo. Goldman é um escritor que vive com esse problema, e acabou contagiando seu criador. Talvez venha daí a referência exaustiva, em “O caso Alaska”, aos títulos anteriores da trilogia. São trechos que, no geral, servem única e exclusivamente para encher linguiça — ou para inflar o ego do alter ego... É como se estivesse reforçando que, ó, aqueles livros anteriores eram muito bons mesmo, mas desculpa aí se este agora vai decepcioná-lo.

Não que “Alaska” seja pavoroso. É bonzinho, corretinho e tal, mas é apenas mais do mesmo Dicker que já lemos outrora e de quem se espera sempre mais — até porque, aos 37 anos, o cara não teria motivo para ficar estagnado como uma múmia. Seus dois primeiros livros da trilogia tinham novidade por cima dos clichês intrínsecos ao gênero. Em alta voltagem, “O caso Harry Quebert” ensina até mesmo a estruturar um thriller, uma excelente e generosa sacada. Não por acaso, rendeu uma boa série para o streaming, disponível no Globoplay.

Então... quer saber? Se você não conhece Joël Dicker, vá de “O caso Harry Quebert”. Se o conhece, não espere de “O caso Alaska” muitas emoções diferentes do que já viu antes.