Bloqueio dos militares ao Facebook não impede apelos de resistência em Mianmar

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Em Bangcoc, manifestantes queimam imagem do general e do chefe das Forças Armadas, Ming Aung Hlaing, em protesto contra o golpe de Estado de Mianmar, em 3 de fevereiro de 2021

Os generais birmaneses ordenaram nesta quinta-feira (4) o bloqueio do acesso ao Facebook, uma ferramenta essencial de comunicação em Minamar, três dias depois de um golpe de Estado que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi, enquanto os apelos para resistir continuam.

O Exército pôs fim à frágil transição democrática do país na segunda-feira, impondo o estado de emergência por um ano e prendendo Aung San Suu Kyi e outros líderes de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND).

A dirigente, de 75 anos, que se acredita estar em prisão domiciliar na capital Naipyidaw, segundo seu movimento, foi acusada de ter violado uma norma comercial.

Nesta quinta-feira, centenas de apoiadores do Exército se reuniram na capital.

"Não queremos mais traidores nacionais vendidos a países estrangeiros" e "Tatmadaw [as Forças Armadas] amam o povo", podiam-se ler nas faixas e cartazes.

Não muito longe dali, 70 deputados do LND assinaram um "compromisso para servir ao povo" e organizaram uma sessão parlamentar simbólica para denunciar a tomada do Parlamento.

Nas ruas, multiplicam-se os sinais de resistência ao golpe de Estado, condenado pela ONU e por muitos governos ocidentais.

Em Mandalay (centro), houve uma pequena manifestação com cartazes que diziam "Protesto do povo contra o golpe de Estado militar!". De acordo com a imprensa local, quatro pessoas foram detidas. A AFP não conseguiu confirmar essa informação com as autoridades.

O medo de represálias persiste neste país que viveu sob uma ditadura militar por quase 50 anos desde sua independência, em 1948.

Na quarta-feira à noite, no bairro comercial de Yangon, a capital econômica, os moradores tocaram suas buzinas e faziam panelaços pela segunda noite consecutiva. Alguns gritavam: "Viva Mãe Suu!" (Aung San Suu Kyi).

Advogados protestaram com fitas vermelhas, nas cores da LND e fizeram a saudação de três dedos, um gesto de resistência adotado por ativistas pró-democracia em Hong Kong, ou na Tailândia.

Profissionais de saúde também se somaram ao protesto. Dezenas de estabelecimentos no país se negaram a trabalhar "sob uma autoridade militar ilegítima".

No Facebook, rede social muito popular no país, foram criados grupos que convocam a "desobediência civil".

A empresa norte-americana informou que alguns de seus serviços foram "perturbados" e pediu às autoridades que "restabeleçam a conexão", disse uma porta-voz da plataforma à AFP.

A norueguesa Telnor, um dos principais provedores de telecomunicações do país, confirmou que as autoridades deram ordem para "bloquear temporariamente" o Facebook.

"Não acreditamos que esta medida (...) esteja em conformidade com o direito internacional", acrescentou.

- Negociações na ONU -

O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que faria todo possível para garantir que a comunidade internacional "exerça pressão suficiente" sobre Mianmar para garantir o "fracasso" do golpe.

Em uma entrevista ao jornal The Washington Post, ele considerou "absolutamente inaceitável mudar os resultados das eleições e a vontade do povo". Guterres também lamentou que o Conselho de Segurança não tenha conseguido chegar a um acordo, na terça-feira, a respeito de uma resolução sobre Mianmar.

Para ser adotada, a resolução precisa do apoio da China, que tem direito de veto nesta instância das Nações Unidas, mas Pequim continua sendo o principal apoiador de Mianmar na ONU.

Durante a crise dos rohingyas, a China obstruiu todas as iniciativas, por considerar que o conflito é um assunto interno de Mianmar. Já Estados Unidos e União Europeia (UE) planejam impor novas sanções ao país, enquanto o Reino Unido condenou, hoje, "a prisão e a acusação" de Aung San Suu Kyi.

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