BNDES pode comprar até R$ 100 milhões em créditos de carbono ainda este ano

O diretor financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), Lourenço Tigre, explicou que a entidade gostou da experiência de compra de créditos de carbono no primeiro semestre, um piloto de R$ 10 milhões, e agora já estrutura mais uma leva de aquisição, no valor de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões. O montante será alocado em projetos que visam, prioritariamente, evitar o desmatamento no Brasil, mas também investiu em ofertas de mobilidade urbana e gestão de resíduos sólidos, entre outros, acrescentou o executivo em evento do banco suíço UBS realizado na manhã desta terça-feira.

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-No espírito de criar um mercado de carbono voluntário em escala no Brasil, nós nos comprometemos a alocar dinheiro diretamente em projetos. Apesar da quantia baixa – R$ 10 milhões – ela nos deu uma exposição a diferentes fontes de crédito de carbono e permitiu que entendêssemos melhor o mercado - explicou Tigre.

- Agora, estamos no processo de preparação de uma estrutura para uma segunda transação; conversamos com diversos stakeholders para melhorar, a partir das lições aprendidas na primeira transação- completou, ao responder perguntas de Frederic de Mariz, líder de ESG no banco na América Latina.

Tigre citou ainda o anúncio feito na conferência do clima em Glasgow, no fim do ano passado, sobre um investimento de R$ 700 milhões que o banco de desenvolvimento e parceiros, entre empresas brasileiras e multinacionais, além de governos estaduais, prometeram para reflorestar áreas degradadas em sete biomas no país.

-No fim do dia, é um início de iniciativa que nos permite ter uma melhor compreensão deste mercado para depois ampliar a escala de projetos - disse.

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Tigre falou ainda que o BNDES estuda a criação de um instrumento de emissão de “corporate bond” (título de dívida de empresa) que vai permitir aos investidores brasileiros e internacionais ter acesso ao mercado de carbono, mas não entrou em detalhes. A única informação extra é que deve ser lançado entre o fim de 2022 e início de 2023.

As iniciativas, disse o executivo, fazem parte de uma estratégia do banco de desenvolvimento de deixar de ser um banco que capitaliza empresas públicas, listadas em bolsa de valores, e prioriza o financiamento de projetos de impacto. Citou que isso passa pela venda de ações da Petrobras, Eletrobras e JBS, que são ainda os maiores investimentos da carteira, e a entrada em novas áreas, como a do mercado de carbono e incentivos a descarbonização de setores.

A intenção do banco é dar o exemplo, mostrar acertos e erros, e ajudar na construção de um framework (uma série de parâmetros e metodologias) que possam dar segurança às empresas e investidores e transparência sobre os preços mais adequados para cada projeto.

- Quando eu penso em remoção de carbono no Brasil, imediatamente vem à cabeça o combate ao desmatamento. O Brasil tem um amplo potencial para ser provedor de créditos de carbono com base na natureza (florestas, por exemplo); estamos focando os esforços nessas iniciativas. Quando olhamos o Brasil e sua ampla cobertura vegetal, entendemos o desafio que isso representa, e para um banco de desenvolvimento, é importante emitir os sinais certos para o mercado -completou.

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Tigre lembrou que o banco vai pedir a todos os seus clientes que quiserem financiamento a contabilização de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE):

- Estamos nos estágios finais de preparação de estrutura para, até janeiro 2023, todo real que colocamos em projetos, o empréstimo terá que fazer o cálculo de carbono de emissões para receber o financiamento. A meta é aumentar o entendimento do impacto ambiental de cada projeto que o BNDES financia.

As compensações de emissões via compra de crédito de carbono, disse Tigre, são o primeiro passo para empresas fazerem sua transição, mas é preciso, na sua opinião, se atentar para a qualidade dos projetos.

Em suas conversas com participantes da indústria, o diretor executivo conta que identificou que empresas e organizações que querem, voluntariamente, comprar créditos no mercado para compensar emissões, podem estar considerando risco reputacional em sua conta.

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A suposição vem do fato de que, apesar de muito se falar que há pouca oferta para muita demanda no mercado de carbono no Brasil, os projetos chamados de “vintage” (antigos), que geram créditos de carbono, mas não são certificados ainda, acabam sendo preteridos. Ele contou que, das 15 ofertas que receberam para selecionarem cinco, percebeu que metade das que não compraram são de projetos ‘vintage’, não certificados, e que precisam ser certificados em até cinco anos.

-Tem muito potencial de demanda, mas não transações de fato. Isso pode ter a ver com um tópico que estamos tentando ajudar, que é o risco reputacional associado a alguns desses projetos. Por isso queremos criar framework que o investidor possa ter certeza de que ele é de boa qualidade, do jeito que as grandes corporações esperam - explicou.

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