Bob Wolfenson planeja exposição sobre acervo de fotos perdido em enchente em SP

Giuliana de Toledo
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87017199_SC São Paulo SP 14-02-2020 Estudio do fotografo Bob Wolfenson atingido pela chuva. Foto.jpg

Bob Wolfenson observa fotos atingidas por enchente em seu estúdio em São Paulo

SÃO PAULO - Nus da apresentadora Cissa Guimarães, em impressões contorcidas e descoladas, descansam perto de retratos do ator mexicano Gael García Bernal, apenas salpicados de manchas. Enquanto isso, na mesa ao lado, Regina Casé e Joãosinho Trinta não dão sinais da tragédia. Cenas como essa dominam o estúdio do fotógrafo Bob Wolfenson em São Paulo desde o começo da semana.

O local, no bairro Vila Leopoldina, na zona oeste, ficou inundado com mais de um metro de água depois do temporal que atingiu a cidade na madrugada da última segunda (10). Só na terça foi possível entrar de novo no estúdio para começar a reparar os estragos. O fotógrafo calcula que cerca de 80% do seu acervo não digitalizado, período que pega principalmente a sua produção dos anos 1970 até 2006, tenham sido atingidos.

Para a recuperação, Bob, que acumula prêmios por seus retratos para revistas e publicidade, conta com a ajuda de técnicos do Instituto Moreira Salles (IMS), especializado em acervos fotográficos. Após ver publicações do fotógrafo nas redes sociais, Sergio Burgi, coordenador de fotografia, ofereceu voluntariamente os serviços da instituição. Desde então, armou-se uma corrida contra o tempo. Entre funcionários do IMS que vieram do Rio para a missão e ajudantes chamados na capital paulista, chegam a trabalhar simultaneamente 13 pessoas.

— A bibliografia diz que esse trabalho [de recuperação] deve acontecer dentro de 48 horas — conta Gabriella Moyle, coordenadora do núcleo de preservação e conservação de acervos do IMS, remexendo imagens dentro de uma grande caixa de plástico cheia de água, já com 24 horas de atraso.

Do líquido tingido pela tinta que se descola das fotos, especialmente das que ficaram mergulhadas em lama, saem papéis com diferentes estágios de qualidade. Como as chances das impressões são menores, o foco está em salvar os negativos. Lavados, todos esses materiais são pendurados em varais improvisados ou ficam deitados em mesas de diversas salas do estúdio.

Exposição

Até os que se transformam em páginas quase em branco, sinal de deterioração completa, são observados de perto por Bob. Circulando entre o material, ele vai planejando como usar essas memórias da destruição em uma futura exposição. Tem também registrado em fotos o trabalho de recuperação no estúdio, como uma espécie de diário dessa UTI fotográfica.

— Poderia até ter uma instalação com um freezer [na exposição] — diz.

O aparelho elétrico se tornou peça-chave na luta para salvar negativos e impressões, pois ajuda a interromper a deterioração e evita que o material seja atingido por microorganismos. Comprado por Bob sob orientação dos técnicos, o primeiro equipamento, que chegou na terça, está lotado. Um segundo era instalado no momento da visita da reportagem nesta sexta. Os pacotes que vão para dentro do freezer são vedados e anotados para que Bob e a sua equipe continuem o restauro nos próximos dias. E a maior parte ainda nem começou a ser examinada.

— Eu nem sei ainda o que perdi do acervo — lamenta Bob.

De maquinário já consegue calcular as perdas em R$ 1 milhão. Impressoras, monitores e equipamentos de iluminação caros elevam a conta. Para essa parte, porém, há seguro. Para si, após o ressarcimento da seguradora, calcula que terá um prejuízo entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, a depender de quantos dias o espaço que aluga para outros fotógrafos e produtores audiovisuais ficar parado. No momento, as paredes e o piso do lugar estão descascados.

Isso, claro, fora o prejuízo imensurável da perda da memória.

— Estava pensando no acervo como uma aposentadoria para mim e algo para deixar para os filhos — lamenta, contando que as imagens antigas são requisitadas com frequência para compra.

Essa lástima não o pegou com tanta força em outra enchente que atingiu o mesmo estúdio em 2005. Uma porção menor do acervo foi afetada da outra vez, mas o cenário foi mais assustador, conta Bob, que, na ocasião anterior, após um dia ilhado no mezanino, foi resgatado de barco por um amigo. Ao voltar ao lugar, só depois de uma semana pôde checar a situação do acervo. Não contava com a mesma ajuda de especialistas que tem agora, então quase tudo que ficou molhado foi para o lixo. Até hoje, não tem a noção exata do que perdeu ali. Com certeza, se lembra de uma exposição inteira feira no Masp.

— Tenho ódio de mim — resume, ao constatar que deveria ter armazenado o material de outra forma desde o incidente de 2005.

Uma obra feita na região após a inundação, porém, o animou a continuar alugando o espaço, crente de que não aconteceria algo parecido de novo. Agora, repensa se seguirá no bairro.

— Desta vez, foi pior. Na outra, a água atingiu uma gaveta e meia. Agora foram duas e meia — conta, em referência à altura nas estantes metálicas.

Cinemateca Brasileira

No condomínio do estúdio, em que também ficam a Empresa Brasil de Comunicação e o portal de notícias iG, entre outras firmas, o cenário é o mesmo: marcas de lama nas paredes e materiais secando ao sol nas calçadas estão por todos os lados.

A um quarteirão dali, um cenário parecido por ser visto em uma das duas sedes da Cinemateca Brasileira. A principal delas, na Vila Clementino, não foi atingida pela chuva. A da Vila Leopoldina, vizinha de Bob Wolfenson, serve como espaço extra para o acervo. Nos tijolinhos brancos da fachada, há manchas até a altura de um metro. Dentro, funcionários passam pela porta de vidro usando máscaras e luvas. A reportagem não teve acesso ao local. Ao conversar com um vigilante na porta, foi possível sentir um forte cheiro de umidade lá dentro.

Procurada, a Secretaria Especial da Cultura informou, por meio da sua assessoria de comunicação, que “está sendo feita a avaliação dos danos decorrentes da inundação dos dias 9 e 10 de fevereiro”. Segundo a nota, “informações preliminares da Cinemateca Brasileira indicam que foram atingidas apenas cópias de difusão, sem prejuízo à memória do cinema brasileiro”.