Antes de opinar, você já buscou saber como funciona o sistema eleitoral de seu país?

·5 minuto de leitura
In this photo illustration a woman simulates a vote in the electronic ballot box used in the elections of Brazil.
Foto: Getty Images

Quem não leu nem assistiu, sugiro que pare o que está fazendo e leia (ou assista) a declaração do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Luís Roberto Barroso sobre a segurança das urnas eletrônicas. A proposta de voto impresso acaba de ser enterrada, não se sabe se para sempre, em uma comissão especial da Câmara.

Na mesma manifestação em que pediu para que o presidente da República fosse investigado no inquérito das fake news do Supremo Tribunal Federal, o ministro refutou um a um os argumentos levantados na já antológica live em que o capitão proferiu os maiores ataques e mentiras contra o sistema brasileiro de votação.

O bate-boca levou a uma crise sem precedentes entre Executivo e Judiciário. Levou Luiz Fux, presidente do STF, a cancelar uma reunião agendada com o ex-capitão, que agora promete jogar fora das quatro linhas da Constituição —colocando na rua o que a Folha de S.Paulo chamou, em editorial, de projeto de ditador.

A fala de Barroso é uma aula. Sobre logística (alô, Pazuello) e, principalmente, sobre tecnologia.

Mas aviso: é um pouco mais densa do que supõem os áudios enviados pela tia ou pelo tio no WhastApp.

É justamente aí que mora o perigo.

Os argumentos e contra-argumentos de Barroso ou qualquer outra autoridade da área não cabem num meme com design de gosto duvidoso que resume qualquer querela numa imagem ou frase de efeito lacradora. Isso faz de qualquer discussão mais bem embasada, longe das bravatas e ameaças bolsonaristas, uma luta inglória.

Leia também:

A tentação dos atalhos para a “verdade que ninguém quer que você saiba” contido em mensagens conspiratórias do tipo são o sintoma de um país que se desconhece.

Muitos dos que opinam não têm a menor ideia de como funciona o sistema de votação no país. Nem o que faz o Judiciário. Ou o Executivo. Nem o Legislativo. Nem como os políticos são eleitos em seu país.

Não têm ideia também do tamanho do retrocesso que as propostas em defesa do voto impresso podem levar em um país de dimensão continental, com áreas deflagradas e controladas por tráficos e milícias no caminho dos caminhões com os papéis que vão “só” decidir o futuro do país.

Geralmente, quem é aliciado pelo argumento lacrador tem a melhor das intenções. Só não sabe que está servindo de manobra para quem tem as piores.

Como esta, outras campanhas de desinformação ou propostas de atalhos baratos para qualquer discussão são disseminadas diariamente e transformam seu público-alvo em replicantes que parecem treinados e orientados para repetir sempre os mesmos comandos.

Esse portão aberto para a ignorância e o senso comum não existiria se seus receptores fossem educados, desde cedo, a pensar e conhecer a fundo as veias e artérias das instituições.

É tentador dizer que essa ignorância é resultado da falta de educação. É também. Mas não só. O que não falta, nessas discussões lideradas por quem não tem capacidade ou preparo para tal, é gente especializada em outras áreas que receberam das redes, mais do que um atalho, uma confirmação das próprias impressões, desejos, medos, paranóias.

Muitos não sabem que opinam sem conhecer o objeto-tema de opinião porque estão dispersos em outra especialidade. É possível, sim, ser craque em uma área (os jogadores de futebol convertidos ao populismo barato que o digam) e professar bobagens sobre o território que desconhecem porque ouviram dizer.

O que nos conecta (o bem comum e a consciência sobre ele) é o que está em disputa, e risco, hoje. Este sempre foi relegado a segundo plano.

Em momentos críticos como o enfrentado agora, é, ou deveria ser, vergonhoso opinar sobre um tema central da vida pública, como o sistema de votos, sem sequer ter a curiosidade de saber como ele funciona de fato.

Mas poucos se constrangem ou estranham a precariedade das ferramentas do discurso oferecidas pelo meme. Pudera: mesmo nas melhores escolas, as que treinam alunos para gabaritar questões de múltipla escolha e cruzarem a linha de chegada do mercado feito cavalos, e não cidadãos, falta vontade, tempo, recurso e interesse para promover conversas, seminários, debates e visitas às instâncias que norteiam a vida pública, como o Ministério Público, o Judiciário, as secretarias de uma prefeitura que seja.

Se fossemos educados a conhecer esses espaços desde cedo, e a nos interessar por seu funcionamento, assim como as leis e normas que regem o país, teríamos ferramentas corretas para rebater conversas do tipo “eles se reúnem em uma sala escura pra soltar bandido e escolher quem será eleito”.

Não por acaso, debater direitos e cidadania, para formação e aprimoramento do espírito crítico, hoje é interpretado como doutrinação.

Da mesma forma que educação sexual é chamada de “incentivo à sexualização precoce”.

Quanto mais debates do tipo são adiados ou escamoteados, maiores as chances de nos tornarmos adultos que opinam sobre tudo o que desconhecemos —inclusive os próprios corpos.

Essa sociedade que se desconhece é uma sociedade condenada a uma epidemia permanente de ignorância. E essa epidemia também pode matar.

Quanto mais pessoas aceitam (e espalham) fakes relacionadas a chips, vacinas, fraudes regadas sem provas mas com muitas convicções, mais vulneráveis seremos aos vírus dos espertalhões. Obscurantismo, aqui, não é exagero de linguagem.

Tudo o que gente como Bolsonaro não quer é gente capaz de acender as luzes no escuro onde nada de braçada.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos