Boca de urna aponta derrota da centro-esquerda no Uruguai após 15 anos

SYLVIA COLOMBO

MONTEVIDÉU, URUGUAI (FOLHAPRESS) - O centro-direitista Luis Lacalle Pou, 46, será o novo presidente do Uruguai, de acordo com pesquisa de boca de urna do instituto Cifra, o mais confiável do país. 

O candidato do Partido Nacional teria vencido por 49,4% contra 46,4% do governista Daniel Martínez, 62, da centro-esquerdista Frente Ampla.

Esta foi a segunda tentativa de Lacalle Pou de chegar à Presidência. Ele já havia perdido para o atual mandatário, Tabaré Vázquez, 79, em 2014. 

Pela primeira vez em 15 anos, haverá alternância de poder no Uruguai, com a saída da centro-esquerda e o retorno ao poder do tradicional Partido Nacional (blanco), que contou com o apoio de outras quatro legendas de oposição neste segundo turno.

Advogado, Lacalle Pou terá como principal desafio combater a insegurança, grande preocupação dos uruguaios, impulsionar a economia, que ficou praticamente estagnada em 2019, e a harmonização dos interesses dos cinco partidos que o apoiaram.

Liberal na economia, Lacalle Pou faz parte de um partido criado para defender os interesses do campo. A legenda possui uma ala progressista e outra mais conservadora, à qual pertenceu seu pai, Luis Alberto Lacalle, presidente de 1990 a 1995. 

Lacalle Pou se situa um pouco mais à esquerda que o pai e afirmou que não irá rever ou pedir a revogação das leis de direitos civis aprovadas durante o governo da Frente Ampla, como o matrimônio homossexual e as leis da maconha e do aborto.

A vice da chapa de Lacalle Pou, Beatriz Argimon, 58, é a presidente do partido e uma conhecida defensora de maior participação das mulheres na política. Neste domingo, reforçou: "Não podemos esquecer que a pobreza no Uruguai tem cara de mulher e de criança".

Na economia, porém, fará mudanças em relação ao modo como o atual governo conduzia o país. Lacalle Pou quer abrir mais o mercado, derrubar travas protecionistas, cortar gastos do Estado com administração e colaborar com a flexibilização do Mercosul.

O dia de votação, de sol e calor na capital uruguaia, Montevidéu, foi tranquilo. Havia movimento regular nos centros eleitorais e muita gente aproveitando para passear nos parques e na orla junto ao rio da Prata.

Após as 17h, começaram a circular carros com bandeiras dos dois partidos, com buzinaços e gente nas esquinas.

O único episódio de distúrbio em meio ao pleito foi a publicação de um vídeo de Guido Manini Ríos, um general aposentado do Exército que obteve 10% de votos no primeiro turno. 

Com linguagem agressiva contra a esquerda, Manini Rios pedia a membros das Forças Armadas para não votar na Frente Ampla. Membro do partido Cabildo Abierto, ele passou a apoiar Lacalle Pou após a derrota no primeiro turno.

A atual vice-presidente do país, Lucía Topolansky, disse que o vídeo feria o veto à propaganda política durante o dia das eleições e que Manini Ríos deveria ser investigado.

Lacalle Pou também reagiu. Disse "não compartilhar em nada" com o tom do aliado nem com o que foi dito no vídeo. Afirmou que "esse tipo de coisa não pode ocorrer no Uruguai". 

O atual presidente, Tabaré Vázquez, votou cedo. Ao sair de casa, encontrou uma faixa que dizia "gracias, Tabaré", o que o deixou emocionado.

Vázquez termina seu segundo mandato à frente do país --entre os dois termos, José "Pepe" Mujica foi presidente-- em meio ao tratamento de um câncer de pulmão e após a morte de sua mulher. "Foram cinco anos difíceis", admitiu.

Após votar, Vázquez disse que não será um problema se a Frente Ampla deixar o poder. O atual presidente disse que "não deve haver drama" e que trabalhará junto com Lacalle Pou em uma transição.

"Olhando para a região e vendo o Uruguai, me orgulho de como este governo vai deixar o país. Ontem recebi uma ligação de Julio María Sanguinetti (ex-presidente, do Partido Colorado), na qual disse que se orgulhava do nosso país, em um momento em que a América Latina está tão convulsionada", disse Vázquez. 

O ex-presidente José "Pepe" Mujica foi com Topolansky, em seu Fusca azul, aos locais de votação. Mujica foi discreto e disse apenas que estava "emocionado, com uma emoção que vai além desta eleição". 

"Tem a ver com recordações e uma nostalgia, com a memória de todos os tropeços e dificuldades que tivemos para chegar até aqui." 

As imagens de grupos de apoiadores da Frente Ampla e do partido Nacional confraternizando, com hino nacional em conjunto e batucada, viralizaram nos últimos dias. Mas elas foram bastante comuns ao longo da última semana. 

Na mesma manifestação, Felisa Giménez, 63, afirmou que prefere ver o candidato da Frente Ampla vitorioso.

"Mas se isso não for possível, tudo bem. Medo mesmo eu tenho de um ex-general, como Manini Ríos com muito poder nesse governo", disse ela.

"Isso seria um mudança para um mau caminho, ao qual os uruguaios não querem trilhar porque lembra a ditadura. De resto, nós conhecemos os 'blancos', não vai ser muito diferente e é bom porque eles vão saber como endireitar a nossa economia."