Boeing lança nave privada à estação espacial internacional

MARIANA VERSOLATO

CABO CANAVERAL, EUA (FOLHAPRESS) - Os Estados Unidos deram mais um passo crucial nesta sexta-feira (20) em direção à missão de voltar a viajar por conta própria ao espaço, sem precisar combinar com os russos. 

Na manhã desta sexta-feira (20), a Boeing lançou com sucesso sua cápsula CST-100 Starliner, projetada sob encomenda da Nasa para levar astronautas à órbita terrestre. O voo-teste, não tripulado, partiu do plataforma de lançamento 41 da Força Aérea americana em Cabo Canaveral, na Flórida (EUA), com destino à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês).

Desde 2011, quando os ônibus espaciais da Nasa foram aposentados, os americanos dependem da nave russa Soyuz para ir à ISS a um custo de cerca de US$ 90 milhões (R$ 366 milhões) por assento. A parceria da agência espacial americana com o setor privado, porém, promete mudar esse jogo muito em breve e entra em sua reta final. 

Assim que um clarão surgiu no céu após a contagem regressiva, gritos irromperam na arquibancada montada no gramado do Kennedy Space Center Visitor Complex, de onde a Folha de S.Paulo acompanhou o lançamento. As palmas foram mais contidas, já que grande parte da plateia filmava o lançamento com o celular.O feito vem em boa hora, um triunfo em meio à pior crise da história da Boeing.

Seu principal avião, o MAX 737, sofreu dois acidentes -um em outubro de 2018 e outro em março deste ano, nos quais morreram 346 pessoas- e está proibido de voar desde o último deles. Nos nove primeiros meses deste ano, o lucro operacional da empresa caiu 97% em relação a 2018.

Relatos internos de funcionários e relatórios de órgãos especializados apontaram negligência da Boeing no processo de certificação do Max. O cenário não ajuda na competição com a SpaceX de Elon Musk, a outra empresa escolhida pela Nasa em 2014 para levar os primeiros astronautas até a ISS dentro de seu programa de voos comerciais tripulados.

A Boeing recebeu US$ 4,2 milhões (R$ 17 milhões) da Nasa e a SpaceX, US$ 2,6 milhões (R$ 10,6 milhões) para o desenvolvimento das naves. Ambas estão atrasadas em pelo menos dois anos -os voos tripulados deveriam ter acontecido em 2017. 

A SpaceX saiu na frente com um bem-sucedido voo-teste até a ISS em março de 2019, mas, em abril, a nave pegou fogo e foi destruída durante um teste de seu sistema de emergência na Flórida. Uma segunda tentativa deve ocorrer em janeiro de 2020. A Boeing fez esse mesmo teste no mês passado e viu um dos três paraquedas falhar. Um vazamento de combustível ocorreu em outro teste do tipo no ano passado.

Nesta sexta-feira (20), a cápsula Starliner viajou a bordo do foguete Atlas V, da empresa ULA (United Launch Alliance). Se tudo ocorrer conforme o planejado, a nave deve acoplar de forma totalmente automatizada à ISS, desacoplar depois de alguns dias e retornar à Terra. O pouso suave está programado para ocorrer em terra, na costa oeste dos EUA, e não no oceano como de praxe.

Segundo a Boeing, esse diferencial permite acesso mais rápido à cápsula e sua reutilização --a Starliner foi construída para ser usada em até dez missões. Nove astronautas americanos (sete homens e duas mulheres) já foram escolhidos para trabalhar e treinar com a Boeing ou com a SpaceX e estão à espera do momento em que inaugurarão uma nova fase do programa espacial americano, quem sabe ainda nesta década.