Qual era urgência de Bolsonaro para mudar a PF no pior dia da pandemia?

Jair Bolsonaro e seu ministro durante a coletiva-resposta a Sergio Moro. Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images)

Sergio Moro caiu atirando.

Chamou uma coletiva dizendo que Jair Bolsonaro até agora não deu justificativa plausível para querer trocar, a essa altura do jogo, o diretor-geral da Polícia Federal.

Em resposta no mesmo dia, que durou mais de 40 minutos, o presidente posou ao lado de ministros aglomerados em meio à pandemia para mostrar união. Apenas Paulo Guedes usava máscara.

Resultado: Moro e os espectadores ainda não sabem o que, afinal, justificava a demissão urgente de Maurício Valeixo. Ficaram apenas com um diz-que-diz-que sobre um certo cansaço do delegado.

Moro, em sua coletiva, desmentiu que a exoneração aconteceu a pedido. Ou que Valeixo quisesse abrir mão do cargo. Em seguida, complicou a situação do presidente ao enviar um print de uma conversa em que o presidente dizia que a investigação sobre deputados da base era “mais uma razão” para trocar o diretor.

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Antes, Bolsonaro afirmou que, sim, Moro exigia dele a indicação para o Supremo Tribunal Federal, embora ambos sempre tenham negado o trampolim. Segundo esta versão, o ex-ministro disse em conversa reservada que o ex-capitão poderia indicar quem quisesse à PF, mas só depois de novembro, quando Celso de Mello, decano da corte, se aposenta. 

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Em sua fala, Bolsonaro acusou Moro de lotear a PF e a PRF com amigos de Curitiba. Contou ter falado a deputados, em uma reunião, que eles em breve conheceriam a pessoa que quer ocupar o seu lugar. E afirmou que uma coisa é ter uma imagem de uma pessoa que admira, outra é conviver com ela.

Ele, por fim, insistiu na tese de que Moro quebrou hierarquia e que quem manda é ele.

Aqui, dois pontos.

Boa parte da fala Bolsonaro usou para desancar o trabalho da PF. Acusou a corporação de ser incapaz de chegar aos supostos mandantes da sua tentativa de assassinato, durante a campanha de 2018. A conclusão é que o agressor, Adélio Bispo, agiu sozinho.

Ele se queixou também de não saber como seu nome foi parar no “caso do porteiro”, em que os supostos assassinos da vereadora Marielle Franco teriam interfonado para sua casa em um condomínio no Rio. A certa altura, disse que a morte de Marielle era mais importante do que a vida do presidente da República e questionou: cobrar isso da “sua” PF indicava interferência?

Bolsonaro citou diversas reportagens relacionadas a seus parentes para dizer que jamais pediu para que sua família fosse protegida por quaisquer investigações. Detalhe: em nenhum momento da coletiva Moro falou sobre isso. Bolsonaro trouxe o assunto à tona por sua conta e risco.

O presidente trouxe também outras rusgas à tona. Chamou Sergio Moro de ministro desarmamentista. E lamentou que ele tenha anunciado a decisão de deixar o governo em uma coletiva.

Aqui o ponto que mais chama a atenção, e que provavelmente entrará para a história -- muito mais do que os momentos exóticos relacionados ao aquecedor da piscina, aos poderes de sedução do filho 04 ou os taxímetros do Inmetro que ele mandou implodir.

Na troca de farpas, Bolsonaro relatou o encontro privado com Sergio Moro em que precisou dizer que quem mandava era ele e ponto. Sua grande preocupação no dia 23 de abril de 2020 era trocar o diretor-geral da PF. E ponto.

A questão era tão urgente que ele não mediu forças para fazer valer sua vontade de soberano e entrar em rota de colisão com seu ministro mais bem popular (em janeiro, 53% dos entrevistados pelo Datafolha avaliavam seu trabalho como ótimo/bom, contra 30% do chefe).

Isso tudo, repito, no dia 23 de abril de 2020. Dia em que 407 pessoas morreram em decorrência do coronavírus. O dia em que passou de 3.000 o número de vítimas fatais da pandemia no Brasil.


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