Boleiros pelo mundo: as experiências dos brasileiros que jogam e treinam na África

Ricardo Nascimento no Mundial de 2016 (Atsushi Tomura/Getty Images)

Por Rodrigo Herrero (@rodrigoherrero)

O sonho na vida de um jogador brasileiro é fazer sucesso na Europa ou, pelo menos, conseguir uma vaga em um clube de razoável expressão, fazer o pé de meia e garantir o futuro da família, antes de voltar ao Brasil. Se não der para jogar nos principais mercados europeus, uma passagem pelo famoso “Mundo Árabe”, pelo Japão ou pela China e a vida está ganha. Ninguém vai imaginar em conseguir fama e fortuna na África, por exemplo. Bem, é difícil mesmo. Mas, ainda assim, existem brasileiros que vão tentar sorte no vasto continente africano para jogar o seu futebol, ganhar um salário e ter estabilidade na carreira, algo meio complicado no Brasil.

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É o caso do zagueiro Ricardo Nascimento, 31 anos, o único brasileiro atuando no futebol profissional da África do Sul. Desde 2016, ele defende o Mamelodi Sundowns, de Pretória, maior campeão sul-africano com oito títulos. Embora ele admita que o principal motivo que o levou ao time verde amarelo (não à toa conhecido como The Brazilians) foi a possibilidade de disputar o Mundial de Clubes. O resultado, no entanto, não foi o esperado: derrotas para o Kashima Antlers (2 a 0) e Jeonbuk (4 a 1) e um amargo sexto lugar em 2016.

Apesar disso, Ricardo considera a experiência ótima, mas que poderia ter sido melhor. “O time não estava preparado para isso (Mundial), teve jogador que não conseguia dormir. Demoraram uns quatro dias para eles se acostumarem com a competição, então isso prejudicou muito”, lembra.

Após o Mundial, Ricardo seguiu no Mamelodi e conquistou a última edição do campeonato nacional (temporada 2017-2018). Para ele, a África do Sul é um bom lugar para se viver. A maior dificuldade no dia a dia é a língua, há 11 idiomas oficiais no país, incluindo o inglês.

“Não há intérprete, o que deixa tudo mais difícil, mas a gente consegue se virar no dia a dia. Além disso, a língua do futebol é universal, né. Mas no começo passamos alguns apuros. Eu e minha esposa estávamos no hotel com fome e com vontade de comer algo diferente. Daí pedimos a comida e veio um macarrão cheio de pimenta, que não tinha como comer. Mas a fome era tamanha que a gente comia um pouco e bebia água”, conta, aos risos.

O país que recebeu o Mundial de 2010 ainda sofre com a falta de estrutura. E ainda que o salário não seja uma maravilha, há uma vantagem em relação ao país pentacampeão. “Aqui não se paga tão bem assim em comparação a outros lugares, mas se paga em dia e tem uma condição razoável. Porém, a gente percebe que em algumas coisas há uma certa desorganização, eu acredito que aqui tem condição de ser bem melhor”, diz Ricardo, que jogou pouco no Brasil, com passagens pelo Palmeiras B, pelo Rio Branco-SP e São Luís-RS, mas atuou por anos em Portugal, além de uma breve passagem pelo futebol romeno.

“As pessoas me paravam na rua para tirar foto e pedir autógrafo”

Wanderley no Renassaince, do Congo (Arquivo Pessoal)

Além de valores, a possibilidade de ser reconhecido e fazer sucesso atrai brasileiros para lugares aparentemente inóspitos. Foi o caso do meia Wanderley, 27 anos, que em 2017 jogou por sete meses no Renaissance, do Congo. Lá o maranhense se tornou ídolo de uma torcida apaixonada por futebol e muito alegre, apesar da pobreza e das agruras do cotidiano.

“O que me encantou no povo é como ele acolhe os estrangeiros. O fato deles me acolherem bem tornou mais fácil minha adaptação. As pessoas me paravam na rua para tirar foto e pedir autógrafo, coisas que eu nunca vivi no Brasil, quem vive é só jogador de Série A”, diz Wanderley.

E apesar das adversidades, a torcida lota os estádios no Congo. Wanderley lembra que jogava na capital Kinshasa para públicos de 50 mil, 60 mil, 80 mil pessoas, encantados com um brasileiro em ação nos gramados. Já a qualidade não era lá essas coisas. Um futebol mais pautado pela força física do que pela técnica e com nível bem abaixo em relação a outros países. “Em um torneio que é uma espécie de Sul-Americana deles (Copa das Confederações da CAF), enfrentamos times do Gabão e da Argélia e os últimos eram bem mais difíceis, até pelo dinheiro que têm”, afirma.

Convidado por um empresário de Pernambuco a jogar no Renaissance, após terminar o campeonato nacional em terceiro, Wanderley voltou ao Brasil. Uma questão familiar, além dos velhos problemas financeiros, ajudou na decisão. “A proposta para ir jogar lá era boa, tinha uma luva, eu cheguei e já peguei um dinheiro na mão. No Brasil não tem isso. Por outro lado, fiquei sem receber três meses de salário. Isso pesou para eu voltar, mas principalmente porque meu filho ia nascer em julho e eu queria acompanhar o parto no Brasil”, explica.

Ao retornar ao Brasil, Wanderley voltou à realidade de ser apenas mais um em busca do lugar ao sol. Em 2018 ele defendeu as cores do Imperatriz-MA, e participou da histórica campanha maranhense que garantiu uma vaga na Série C do Brasileirão em 2019. Mas o contrato acabou e o meia está em busca de um novo time para jogar. “O contrato no Brasil é muito curto, tudo coisa de seis meses. Lá fora você assina um contrato de pelo menos um ano. No Brasil é difícil se manter, pois cada hora você está em um lugar, não tem estabilidade”, lamenta.

Wanderley conta que até hoje recebe mensagens pelo Facebook de congoleses pedindo a sua volta. Chegam até mesmo propostas para jogar no Congo. “Eu voltaria se eu pudesse levar minha esposa e meu filho, mas tenho medo da malária que existe lá”, argumenta, lembrando de problemas sanitários recorrentemente citados no continente africano.

As disparidades dentro do continente africano

Que há uma diferença de estrutura, investimento e dinheiro no futebol africano, isso é perceptível. Embora não seja uma análise 100% estática, o Norte tem os clubes mais organizados e vencedores, ainda que haja casos no Sul que lutem fortemente quanto a isso. Um exemplo é o famoso Mazembe, que em 2010 eliminou o Internacional nas semifinais do Mundial de Clubes. Financiado pelo dono de uma mineradora, o clube congolês é o segundo maior vencedor da Liga dos Campeões da África, com cinco troféus, empatado com o egípcio Zamalek e atrás do Al Ahly, também do Egito, que detém oito títulos.

“O Norte da África, constituído por países como o Egito, Marrocos, Tunísia, entre outros, é totalmente diferente em vários aspectos, desde a estrutura do futebol do país, até a mentalidade dos dirigentes”, detalha o técnico Sergio Farias, com passagem vitoriosa no futebol asiático e que treinou o Al Hilal, do Sudão, no primeiro semestre de 2018 (veja mais abaixo).

O caso mais recente e emblemático dessa prosperidade do Norte, porém, pouco tem a ver com o poderio africano em si. Trata-se do Pyramids, cujo dono é o bilionário Turki Al-Sheikh, Ministro dos Esportes na Arábia Saudita. Lá foram contratados jogadores como Rodriguinho, Keno, Carlos Eduardo e Ribamar. Até o treinador era brasileiro: Alberto Valentim comandou o time por três partidas e saiu após uma suposta divergência mal explicada com a diretoria. Recentemente, o clube anunciou pelo Twitter um pagamento de 100 mil libras egípcias (R$ 22 mil) por jogador por uma vitória na quarta rodada do campeonato egípcio, bem distante de qualquer realidade no mundo.

Já o Sul da África, mais pobre economicamente, tem alguns centros como Nigéria, Costa do Marfim, Senegal em que o talento impera, fazendo com que sejam revelados bons jogadores, que explodem na Europa e nas seleções, mas pouco entregam para seus países. E a realidade africana, em geral, é a mesma brasileira: negociar e fazer lucro.

“A África é uma realidade na Europa, a seleção da França é um exemplo vivo disso. As pessoas estão migrando para a Europa, jogando futebol. E a França é basicamente formada por africanos. É uma questão de tempo (o sucesso africano), porque a África tem as questões socioeconômicas, financeiras, os países têm muitos problemas, mas o futebol está evoluindo bastante. E hoje o clube africano é como o clube pequeno do Brasil, prepara para vender que é a salvação deles. A Costa do Marfim fazia isso há muito tempo”, explica Heron Ferreira, que tem vasta experiência no futebol do Oriente Médio e também africano, com passagens pela Líbia, Egito e Sudão, onde treina atualmente o Al Ahly Shendi.

“Para fazer os caras comerem de talher foi difícil”

Heron Ferreira com sua família e o título local de 2005 (Arquivo Pessoal)

No Sudão, Heron Ferreira é conhecido pelo nome do meio. Assim, todos o chamam de Ricardo por aquelas bandas. Ele chegou em 2005 ao Al Hilal após um amigo que trabalhou com ele no Juventude indicá-lo para o ex-jogador e empresário saudita Mohamed Abd Al-Jawad. Este recomendou para o time sudanês Heron e Caio Jr. (falecido em 2016 no acidente aéreo da Chapecoense). O escolhido foi Heron. Com a ajuda de um intérprete espanhol, o treinador não teve problemas de adaptação no quesito idioma – que se fala árabe e inglês. Mas em outros…

“Eles comiam uma comida um pouco diferente, feita à base de um feijão amassado que eles chamam de “Fu”, misturado com muito pão e ovo. Então eu procurei dar aos atletas uma refeição mais balanceada. E eles comiam todos juntos, ao redor de uma bacia, com as mãos. Para fazer os caras comerem de talher foi difícil”, relata.

Antes de ser tricampeão sudanês e alcançar as semifinais da Liga dos Campeões da África em 2007 pelo Al Hilal, Heron Ferreira viveu algumas situações inusitadas, típicas de um país em constante alerta por conta do clima bélico. “No começo de 2005 haviam muitas barreiras espalhadas pela cidade e sempre com um soldado com um fuzil. Você tinha que parar o carro, ligar a luz interna e se identificar para poder passar. No início dava medo chegar e ver o soldado com aquele fuzil apontado. Depois que eu fiquei mais conhecido, isso passou a me ajudar”.

Heron Ferreira lembra que quando veio pela primeira vez havia uma Missão das Nações Unidas no Sudão, o que trazia muitos estrangeiros, inclusive brasileiros, para a capital Cartum. “Eu conheci um grupo de brasileiros que veio pela ONU, eram 10 militares, e ficamos muito amigos. Nem havia embaixada na época (foi instalada em 2006), então tudo acontecia na minha casa, que tinha piscina, quadra de tênis. Esses militares passavam um ano aqui e quando acabava a missão eles já passavam meu telefone para o próximo grupo. E assim foi, fiz amizade com uns três grupos de militares”, recorda Heron, que hoje mora em um hotel e lembra que há dois anos a ONU saiu do Sudão e com ela foram boa parte dos estrangeiros e brasileiros, deixando o dia a dia um pouco mais difícil.

Heron saiu do Al Hilal para comandar o Ismaily do Egito e retornou ao Sudão em 2012 para treinar o Al Merrikh, rival do Al Hilal. Em 2018, assumiu o Al Ahly Shendi, considerada a terceira força do país. Nesse novo desafio, ele disputa o título cabeça a cabeça com Al Hilal e Al Merrikh, que monopolizam o campeonato local desde 1993. Ele acredita que sua passagem pelo Sudão ajudou a mudar para melhor o futebol no país e abriu o mercado para outros brasileiros.

“Eu consegui fazer uma coisa bacana, que vai ficar marcada na minha vida, onde eu vou na rua vem um bando atrás. Você imagina um país com muitos problemas sociais, questões difíceis de resolver e aí tu pega o poderoso Al Ahly poderoso do Egito e mete 3 a 0? Eliminar o Zamalek. Antes eles vinham aqui e ganhavam de dois, três e em casa metiam cinco, seis. Essas coisas resgataram o amor próprio das pessoas. Creio que as coisas mudaram com minha contribuição. Depois vieram outros brasileiros, o Paulo Campos (treinou o Al Hilal entre 2009 e 2010), o Sergio Farias”.

Mas nem tudo são flores

Sergio Farias comandando treino no Sudão (Arquivo Pessoal)

Amigo de Heron, Sergio Farias ficou pouco tempo no Sudão. Sua ida à África para treinar o Al Hilal foi motivada pelo desafio de desbravar um novo mercado, mas as situações vivenciadas no dia a dia começaram a mudar sua visão em relação ao futebol sudanês. “Fui contratado por um bilionário sudanês (Sami Al-Jaber) que possui vários negócios, dentre eles um canal de TV, e reside em Dubai. Os atletas são ótimos, mas praticamente escravos. Os jogadores locais ficam sem receber vários meses e não reclamam ou boicotam o trabalho”, conta.

Sergio Farias acabou deixando o Sudão em maio. “Quando o capitão da equipe estabeleceu uma relação de confiança comigo passou a me dizer todos os problemas. Eu tentei solucioná-los, mas quando percebi que eram questões culturais e que poderiam pôr em xeque o meu prestígio, eu pedi a rescisão do contrato. Obviamente não me deram, me obrigando a acioná-los na Fifa”.

Na mesma época ocorreu um caso semelhante que quase provocou um incidente diplomático entre Brasil e Sudão. Isso porque, o preparador físico Rodrigo Andrade, que foi para o Al Hilal com Sergio Farias, entrou em litígio com o clube sudanês e teve o seu passaporte retido. Com a família residindo temporariamente no Egito, Rodrigo pediu o passaporte para visitá-los (lá é comum o passaporte ficar com o clube), o que lhe foi negado, segundo informou a Agência Efe à época. A partir daí desencadeou uma série de problemas e divergências, que culminaram com o envolvimento da embaixada brasileira e do governo sudanês para resolver a questão, até que a rescisão foi assinada e o preparador físico pôde sair do Sudão e reencontrar a família.

Um dos problemas que podem contribuir para revelar o quanto o futebol sudanês e africano ainda precisam correr para evoluir e confirmar todo o potencial que seus jogadores demonstram pelos campos do mundo. “O torcedor é muito apaixonado pelo futebol, não tem nenhuma semelhança com o futebol brasileiro. E a qualidade do jogador sudanês é muito boa, mas a falta de estrutura é muito grande. Tirando as principais equipes, que inclusive estão disputando a fase final, falta muita estrutura nas demais se for comparar aos grandes centros. Agora, se for comparar dentro da África, fica no meio termo, não está entre as piores”, finaliza Heron.