Bolsa Capes, do MEC, completa 9 anos sem reajuste. entenda o que isso signfica

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Bolsa Capes, ligada ao Ministério da Educação (MEC), é a principal forma de remuneração de pesquisadores no Brasil. Foto: Divulgação.
Bolsa Capes, ligada ao Ministério da Educação (MEC), é a principal forma de remuneração de pesquisadores no Brasil. Foto: Divulgação.
  • Desvalorização chega a 67%

  • Especialistas apontam perdas para desenvolvimento nacional

  • Bolsa Capes, do MEC, é principal remuneração para pesquisa brasileira

Nesta quarta-feira (23), a bolsa de fomento à pesquisa da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), vinculada ao Ministério da Educação (MEC), completa nove anos sem reajustes - nem pela inflação.

A bolsa Capes é a principal forma de fomento da pesquisa do Brasil. Segundo um levantamento da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), cerca de 73% das bolsas da pós-graduação no país é bancada pela instituição. A bolsa é destinada para projetos de Iniciação Científica (IC), realizados em nível de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Além da Capes, a bolsa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, também não sofre reajuste há uma década.

Um dado anterior à pandemia, de 2019, levantado pela Clarivate Analytics, revelou que apenas quinze universidades brasileiras, todas públicas, produzem 60% da ciência no país - e são pesquisadores em nível de mestrado, doutorado e pós-doutorado que realizam esse trabalho.

Hoje, o valor pago para bolsistas de nível de mestrado pela Capes é de R$ 1.500,00 e de doutorado R$ 2.200,00 - ou seja, pouco mais de um salário mínimo para mestrandos, e pouco menos de dois para doutorandos. Segundo dados levantados pela ANPG, a desvalorização pela falta de reajuste já chega a 67% do valor.

Ou seja, um pesquisador em nível de mestrado deveria receber, pelo menos, R$ 2.505 ao mês, e um doutorando, R$ 3.674.

Para Odir Antônio Dellagostin, presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), as consequências da falta de reajuste das bolsas são "severas".

"Hoje, 50% da graduação se mantém com bolsa", conta Dellagostin. "A falta de reajuste significa que muito não conseguem se manter e precisam de apoio de terceiros ou trabalhar, sem se dedicar integralmente ao estudo e à pesquisa, como deveriam."

Além de prejudicar aqueles que não conseguem arcar com os custos de se manter na universidade, o baixo valor pago aos pesquisadores também torna a carreira acadêmica pouco interessante no Brasil.

"Com esse valor, a bolsa deixa de ser atrativa e não consegue atrair os melhores cérebros ou até nenhum cérebro", pontua. "Há programas de pós-graduação hoje que têm vagas sobrando."

"Os pesquisadores hoje no Brasil são os de mestrado e doutorado", diz o professor. "Sem valorização, vamos ter diminuição da qualidade e quantidade de pesquisa científica no país."

A presidenta da ANPG, Flávia Calé, afirma concorda que a bolsa é a forma de se valorizar o pesquisador.

"É quase uma década de desvalorização dos jovens pesquisadores no Brasil", lamenta. "Essa data vem na mesma semana que vem a público uma grande negociata no Ministério da Educação, que virou um grande balcão de negócios voltado para a reeleição do Presidente da República, enquanto a gente vive a maior crise da Educação brasileira."

Para Calé, há relação entre essa desvalorização e a evasão do ensino.

"O nível de evasão escolar é muito alto - seja na escola, seja na universidade, seja na pós-graduação", afirma. "A gente está perdendo uma geração."

O trabalho de pesquisa, segundo Calé, tem grande importância para o desenvolvimento nacional.

"Hoje dois terços dos pós-graduandos atuam na pesquisa, trabalham como pesquisadores, sem remuneração, ou seja, de forma voluntária", pontua. "Essa força de trabalho é fundamental para o desenvolvimento da ciência brasileira e hoje está completamente abandonada pelo governo Bolsonaro."

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