Bolsa recua 0,78% em meio a adesão de empresas e bancos a manifestos por democracia

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, BRASIL, 28.06.2018 - Investidores lotaram o saguão da B3 (Bolsa de valores) em São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1806281254967390
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, BRASIL, 28.06.2018 - Investidores lotaram o saguão da B3 (Bolsa de valores) em São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1806281254967390

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa de Valores brasileira fechou em queda de 0,78%, a 119.739 pontos, nesta segunda-feira (30), em meio a desdobramentos da crise político-institucional e à realização de lucros após a alta de 2,22% da semana passada.

Preocupações com o risco político foram renovadas após a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil ameaçarem deixar a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), caso a entidade formalizasse a adesão a um manifesto articulado por Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

O documento, assinado por mais de 200 instituições empresariais, critica a escalada da crise entre os Poderes e pede respeito à Constituição. O governo interpretou o manifesto como uma crítica à gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

No câmbio, o dólar fechou em queda 0,15%, cotado a R$ 5,1890. Nas bolsas americanas, Dow Jones fechou em queda de 0,16%. S&P 500 e Nasdaq avançaram 0,43% e 0,90%, respectivamente.

Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria Integrada, aponta que a saída da Caixa e do Banco do Brasil da Febraban confirmaria o que o mercado já havia avaliado: os nomes que estão no comando dessas instituições colocam um peso político na tomada de decisões e que o alinhamento deles com a visão do governo é mais importante que os interesses das instituições.

"A politização, como um todo, é ruim. A Febraban é uma entidade importante e esses dois bancos públicos têm peso no cenário nacional. O mercado olha para isso como um novo foco de incêndio e aumenta a cautela que tomou conta dos investidores nas últimas semanas."

Segundo Ribeiro, o mercado segue preocupado com a questão fiscal do país e a agenda econômica para os próximos trimestres, tendo em vista a importância que a eleição de 2022 já vem ganhando. Existem, hoje, diversos elementos que deixam o mercado cauteloso e esses ruídos acabam por trazer insegurança e postergar a recuperação da economia.

O mercado foi complacente com os ataques do presidente à democracia e com os sinais de intervenção do governo nos bancos públicos, segundo a economista.

"Havia a aposta de que [o ministro da Economia] Paulo Guedes seria um pilar de sustentação da agenda do governo, mesmo que ao longo do tempo ele já desse sinais de se moldar às necessidades do presidente."

Para Leon Abdalla, analista de investimentos da Rio Bravo, um desembarque da Febraban seria mais um fator de risco em um cenário econômico que já vem piorando nos últimos meses.

"Estamos entrando em um terreno muito sensível, com diversos problemas por resolver, como a crise hídrica e a escalada da inflação. Quando ouvimos uma notícia como esta da Febraban, a sensibilidade aumenta e qualquer ruptura vai ser interpretada de forma negativa."

Abdalla diz que o mercado está olhando para os aspectos fiscais, para o futuro do Bolsa Família e a indecisão com o uso dos precatórios. Para ele, tirar duas instituições da Febraban pode desarticular o setor inteiro e não há razão para isso.

"O manifesto é curto, neutro e pede pacificação. O que o mercado deseja é calma neste momento", diz Abdalla.

Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimento, afirma que o risco político está ficando mais latente, e o principal medo do mercado é quanto à demonstração do quão forte pode ser a interferência do Executivo em empresas de economia mista e nas empresas públicas.

“O setor bancário é um setor diretamente ligado ao crescimento do PIB, é uma fonte de liquidez, e isso pode aumentar o receito que o governo interfira em outras áreas estratégicas, e também a preocupação de eventual retaliação ao setor bancário”, diz Oliveira.

Os riscos fiscais e políticos internos colaboraram para que o mercado doméstico deixasse de acompanhar o clima de otimismo no exterior gerado após o presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), Jerome Powell, ter sinalizado na última sexta-feira (27) que não haverá redução brusca do pacote de estímulo econômico adotado durante a pandemia.

“O que está sendo precificado no dia de hoje aqui no Brasil é mais um temor político porque, se lá fora o mercado está indo bem ainda na esteira da fala do Powell, hoje esse é o ponto negativo local, que é o risco político, de forma geral”, avalia Oliveira, da Zahl Investimentos.

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