Bolsas caem após Fed sinalizar antecipação de alta dos juros

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.08.2011 - Painel de indicadores econômicos na sede da Bolsa de Valores de SP. (Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.08.2011 - Painel de indicadores econômicos na sede da Bolsa de Valores de SP. (Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O índice de referência da Bolsa de Valores brasileira ficou perto de cair abaixo dos 100 mil pontos nesta quarta-feira (5), dia marcado pela sinalização de alta dos juros antes do esperado nos Estados Unidos. O Ibovespa fechou em queda de 2,42%, a 101.005 pontos.

É o pior resultado do indicador desde 1º de dezembro do ano passado, quando notícias sobre a variante ômicron do coronavírus derrubaram mercados. No exterior, Nasdaq, S&P 500 e Dow Jones também registraram quedas nesta quarta.

O dólar subiu 0,36%, a R$ 5,7100. A divisa americana também ganha valor global com a perspectiva de alta dos juros no país.

Operando em baixa desde os primeiros negócios desta quarta em meio a incertezas sobre o cenário fiscal brasileiro, o Ibovespa aprofundou a queda à tarde devido à divulgação da ata da reunião realizada em dezembro pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano).

O documento mostrou que a autoridade monetária dos Estados Unidos avalia antecipar a alta dos juros e diminuir de forma mais rápida a sua compra de ativos no mercado. Essas medidas visam frear a alta da inflação por meio da redução da disponibilidade de dinheiro e de crédito na economia.

Essa combinação de medidas tira a disposição dos investidores para aplicar em mercados de ações emergentes, como o brasileiro. Isso ocorre por dois motivos: em primeiro lugar, há menos dinheiro disponível. Em segundo, títulos do Tesouro dos Estados Unidos, considerados a aplicação mais segura, ficam mais atraentes com a elevação dos juros básicos americanos.

No exterior, os principais índices americanos fecharam em forte queda. A Nasdaq desabou 3,34% e teve o seu pior resultado diário desde fevereiro de 2021.

O índice concentra pequenas e médias empresas do setor de tecnologia, ainda em formação de caixa, cujos custos operacionais são fortemente pressionados pela alta dos juros.

O peso do setor de tecnologia derrubou o índice de referência do mercado americano, o S&P 500, que cedeu 1,94%. O índice Dow Jones caiu 1,07%.

"A ata de hoje nos parece muito mais hawkish [agressiva, do ponto de vista do aperto monetário] do que o comunicado sugeriu, principalmente no tocante às discussões de política monetária", disse Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.

Antes da divulgação da ata, havia consenso no mercado de que a elevação dos juros, hoje muito próximos de zero, ocorreria a partir de março. Essa data era considerada porque é quando o Fed pretende encerrar o seu programa de compra de títulos, que já vem caindo aos poucos. No jargão do setor, está ocorrendo o tapering, que é o afilamento do fluxo de recursos destinados ao mercado através da compra de ativos.

Agora, a avaliação é que a torneira pode fechar mais cedo. Essa expectativa ganhou ainda mais força porque houve forte geração de empregos no país em dezembro, segundo dados divulgados pela consultoria ADP, uma espécie de prévia da divulgação da medição oficial da folha de pagamentos do pais. Foram criados 807 mil postos de trabalho no setor privado.

A retomada com força do emprego é um dos fatores que o Fed aguardava para encerrar o seu programa de estímulos econômicos, criado justamente para diminuir o impacto da desaceleração durante os períodos de paralisação de atividades provocados pela pandemia.

"Com isso, a já curta perspectiva sobre o aperto monetário fica ainda mais intensa, principalmente após a surpresa altista observada no ADP hoje. Caso o payroll [pesquisa oficial de empregos] confirme tal perspectiva, fica cada vez mais provável a chance de encerrar o tapering com a elevação imediata da Fed Funds Rate [taxa de juros do Fed]", avalia Sanchez.

As previsões mais recentes são de que os aumentos de juros somados alcancem 0,75 ponto percentual durante o ano de 2022.

A disseminação da variante ômicron do vírus da Covid, porém, pode impor obstáculos ao aperto monetário. A reunião de dezembro foi realizada quando a contagem de casos de coronavírus estava começando a aumentar.

As infecções subiram muito rapidamente desde então, e ainda não houve comentários de autoridades do alto escalão do Fed que indicassem se a mudança na situação de saúde alterou seus pontos de vista sobre a política monetária apropriada.

Andrey Nousi, presidente da consultoria Nousi Finance, alerta, porém, que novas paralisações das atividades para a contenção da Covid podem gerar mais altas nos preços.

"Problemas na cadeia logística devem se estender ainda esse ano, o que poderia trazer mais pressões inflacionárias", comentou.

O presidente do Fed, Jerome Powell, comparecerá ao Comitê Bancário do Senado na próxima semana para uma audiência sobre sua nomeação para um segundo mandato de quatro anos como chefe do banco central, e é provável que atualize suas opiniões sobre a economia na ocasião.

No Brasil, a Petrobras caiu 3,87%, e deu a maior contribuição para o recuo do Ibovespa. A queda ocorreu mesmo diante da valorização de 0,23% do petróleo. O barril do Brent subiu a US$ 80,18 (R$ 453,99).

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