Bolsas de pesquisa Capes estão sem reajuste há 9 anos; valor poderia ser 68% maior

·4 min de leitura
Pesquisadores se organizam para pedir reajuste universal das bolsas de pesquisa. Foto: Reprodução/ Redes sociais
Pesquisadores se organizam para pedir reajuste universal das bolsas de pesquisa. Foto: Reprodução/ Redes sociais
  • Valor estimado é com base apenas na inflação

  • Bolsas de pesquisa são remuneração para pesquisadores no Brasil

  • Cientistas se mobilizam para pedir reajuste

A pandemia de covid-19 lembrou o quanto a ciência é necessária na busca por soluções para os problemas que enfrentamos como sociedade. As universidades e os institutos de pesquisa lideraram as pesquisas sobre o novo coronavírus e a busca por vacinas e tratamentos.

Um grande exemplo veio do Brasil: o primeiro sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no país foi realizado por duas pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP) em apenas 48 horas. Em outros países, o procedimento chegou a demorar em média 15 dias.

Os pesquisadores das universidades públicas são pagos por seu trabalho por meio de bolsas de fomento. Elas podem vir de diferentes fontes - públicas ou privadas. A principal, concedendo cerca de 73% das bolsas no país, é a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), vinculada ao Ministério da Educação (MEC), segundo levantamento da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Um dado anterior à pandemia, de 2019, levantado pela Clarivate Analytics, revelou que apenas quinze universidades brasileiras, todas públicas, produzem 60% da ciência no país.

Ou seja, diferente de outros territórios, aqui a pesquisa e o desenvolvimento científico depende das universidades, e não de centros de pesquisas especializados. A pesquisa está na mão, em grande parte, de pesquisadores de nível de pós-graduação - mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Hoje, o valor pago para bolsistas de nível de mestrado é de R$ 1.500,00 e de doutorado R$ 2.200,00 - ou seja, pouco mais de um salário mínimo para mestrandos, e pouco menos de dois para doutorandos.

Nesta quinta-feira (10), a ANPG organiza uma mobilização nacional pelo reajuste das bolsas de pesquisa. A presidenta da associação, Flávia Calé, afirma que a bolsa é essencial para a fomentação da pesquisa enquanto ramo de trabalho.

“O reajuste de bolsas é parte de uma política que a gente tem defendido de valorização da carreira científica, da criação de uma carreira científica no Brasil, que leve os pós-graduandos em consideração como parte integrante, como o início dessa carreira”, explica Calé. “A bolsa de estudo deveria ser encarada como uma remuneração desse trabalho tão estratégico para o país.”

Merllin de Souza, fisioterapeuta e doutoranda pelo Programa de Ciências da Reabilitação da Faculdade de Medicina da USP, é bolsista Capes desde o mestrado. Mulher preta, veio da cidade de Humaitá, no Amazonas, para realizar a pós-graduação em São Paulo.

“Posso afirmar que somente com a bolsa não há como sobreviver aqui”, declara.

Merllin de Souza realizou mestrado e faz doutorado com o financiamento de bolsas de pesquisa. Foto: Arquivo Pessoal
Merllin de Souza realizou mestrado e faz doutorado com o financiamento de bolsas de pesquisa. Foto: Arquivo Pessoal

Para ela, a pesquisa vai além dos próprios objetivos pessoais. “Acredito que todas as pessoas têm algum propósito na vida, e para pesquisadores pós-graduandas(os) vai além dos nossos propósitos, vai na direção de transformar vidas”, declara. “Em sentido contrário, presenciamos que há quase uma década o reconhecimento, valorização da nossa categoria não ocorre”, lamenta.

A bolsa Capes não passa por reajuste desde 2013. Se fosse corrigida apenas pela inflação, o valor deveria ser 67,97% maior. No entanto, o montante pago aos pesquisadores poderia ser ainda mais alto. Em 1995 as bolsas tiveram o aumento mais significativo da história. Se o MEC tivesse mantido a média de ajuste anual, com base no reajuste daquele ano, o valor hoje seria 515% maior, segundo dados levantados e analisados pela ANPG.

Priscila Duarte de Lira, de 29 anos, é doutoranda em Ensino de Química pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) relata as dificuldades para se manter exclusivamente com a bolsa Capes.

“É muito difícil me manter com esse valor uma vez que eu sou a pessoa responsável pela manutenção da casa, a bolsa mal dá para garantir a alimentação e pagar as contas”, revela. “Não há nenhum tipo de assistência aos pós-graduandos, não temos direitos previdenciários.”

A presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduando, Flávia Calé. A organização está à frente da mobilização pelo reajuste das bolsas de pesquisa. Foto: Reprodução/ Redes sociais
A presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduando, Flávia Calé. A organização está à frente da mobilização pelo reajuste das bolsas de pesquisa. Foto: Reprodução/ Redes sociais

Para quem vive o dia-a-dia de pesquisador, muitas vezes faltam recursos. “O valor atual é irrisório para formar profissionais de alta capacitação no país”, avalia a presidenta da ANPG.

A doutoranda Priscila lembra que o valor da bolsa também é necessário para se investir na qualidade do pesquisador.

“Sem contar que como sou doutoranda preciso fazer investimentos, como falar inglês fluentemente”, diz. “A mensalidade de um curso de inglês não é menor do que 300 reais, isso sem contar o material, participar de congressos… A única fonte de renda que tenho é a bolsa, pois pelas regras da CAPES preciso ter dedicação exclusiva”, desabafa.

“Estamos em um cenário onde contribuir com a Ciência não é algo que valha a pena para algumas pessoas em nossa sociedade, e imagine se não existíssemos, como estaria a humanidade?”, questiona Merllin.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos