'Bolsodrigo' e pesquisas aceleram 'overdose' de bolsonarismo em campanha de Tarcísio

Nos dias anteriores à convenção do Republicanos que vai oficializar sua candidatura ao governo de São Paulo, o ex-ministro Tarcísio de Feitas intensificou as menções e agrados ao presidente Jair Bolsonaro (PL) em seus discursos e publicações de redes sociais.

Leia: Presidente do Republicanos, sigla do Centrão, se distancia da campanha de Bolsonaro à reeleição

Na última semana, desde a convenção que oficializou a candidatura do presidente à reeleição no Rio de Janeiro, Tarcísio se referiu ao aliado ao menos 20 vezes no Twitter e Instagram e diversas outras em discursos. Nesse período, 11 dos 13 tuítes enalteciam o ex-chefe ou os colocavam lado a lado, por exemplo.

Um dos vídeos publicados mostra Tarcísio cantando "O capitão do povo", jingle em ritmo de sertanejo da campanha de Bolsonaro, num espaço "karaokê" da convenção no Rio. Em dois outros, eles aparecem juntos para convidar os apoiadores a comparecer a eventos.

A convenção deste sábado, organizada na Zona Norte da capital paulista, é vista dentro da campanha como peça-chave para grudar Tarcísio à imagem do presidente, que estará presente no evento. A equipe de comunicação pretende aproveitar o momento para produzir farto material de campanha. Até máscaras anti-covid estampadas com os rostos dos dois serão distribuídas aos convidados que comparecerem ao Expo Center Norte.

Aliados de Tarcísio têm a esperança de contar com a presença de Michelle Bolsonaro, mas a primeira-dama não havia confirmado a vinda até esta sexta-feira. A participação de Gilberto Kassab, presidente do PSD, que passou a integrar a coalizão bolsonarista em São Paulo neste mês, também é dúvida. O cacique deve apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no plano nacional, o que torna mais embaraçoso seu comparecimento a um evento com Bolsonaro.

No início do mês, diferentemente, a comunicação da pré-candidatura focava mais no currículo, na trajetória e no perfil do ex-ministro do que na associação com o presidente. A preocupação era afastar dele a pecha de "estrangeiro" em vez de ex-ministro da Infraestrutura e amigo de Bolsonaro.

Duas razões levaram sua pré-campanha a acelerar a identificação entre os dois. A primeira é que pesquisas internas vêm mostrando que boa parte do eleitorado ainda não associa o nome do Republicanos a Bolsonaro — e quando isso acontece, dizem, as intenções de voto disparam.

Em 7 de julho, em um evento na sede do PSD em São Paulo no qual Kassab anunciou apoio a Tarcísio, essa preocupação foi deixada explícita. Em seu discurso, Kassab justificou a aliança com números da então última pesquisa Quaest. Ele afirmou que o levantamento mostrava Tarcísio subindo de 15% para 28% quando identificado como candidato de Bolsonaro, enquanto o adversário Fernando Haddad (PT) tinha acréscimo de apenas um ponto percentual quando associado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: de 38% para 39%.

No começo de junho, a avaliação de aliados de Tarcísio era que colá-lo à imagem de Bolsonaro causaria naturalmente ganhos e perdas, já que o presidente era reprovado àquela altura por 49% dos paulistas, de acordo com o Datafolha, mas tinha 28% de aprovação — patamar que seria suficiente para levar o ex-ministro ao segundo turno.

O aumento da "dose de bolsonarismo" na pré-campanha de Tarcísio também respingou em seu discurso. Conhecido pelo comedimento, ele defendeu "banir o fantasma do MST do Brasil" — tipo de declaração geralmente presente em falas de Bolsonaro — em um debate na Associação Comercial de Presidente Prudente, no oeste do estado. O comentário provocou críticas dos adversários, que saíram em defesa do movimento social por reforma agrária.

O segundo motivo diz respeito ao fato de o governador Rodrigo Garcia (PSDB) e Bolsonaro terem ensaiado uma aproximação nos últimos dias, uma antecipação à hipótese de ser o tucano o candidato a enfrentar o petista Fernando Haddad no segundo turno do pleito. Tanto o tucano quanto o presidente negam qualquer encontro.

Na segunda-feira, Tarcísio reagiu às especulações e afirmou que a aproximação não deve prosperar. Para ele, não existe a hipótese de uma campanha "Bolsodrigo".

— Está todo o mundo vacinado com relação a oportunismo (eleitoral), já se usou essa estratégia na eleição passada e viu onde é que deu. O eleitor bolsonarista está vacinado com isso e nós também. A gente vai estar muito presente com o Bolsonaro e mostrar que o presidente tem um palanque em São Paulo, e não é o do Rodrigo — afirmou Tarcísio, em alusão ao 'Bolsodoria', movimento feito por João Doria para se aproximar do eleitor bolsonarista nas eleições de 2018.

Apesar de rechaçarem uma eventual aproximação de Bolsonaro e os tucanos em São Paulo, aliados de Tarcísio dizem que a repercussão da história também entrou no cálculo para a intensificação da presença do presidente na pré-campanha.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos