Frias x Weintraub, Fabio x Ernesto: bolsonarismo é um reality de alunos brigões

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Brazil's Education Minister Abraham Weintraub speaks during a session of education commission of the Brazilian Federal Senate in Brasilia, Brazil May 7, 2019. REUTERS/Adriano Machado
O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. Foto: Adriano Machado/Reuters

Se alguém criasse um reality show juntando os meninos brigões do fundo da sala e os colocasse para gerir uma escola o resultado não seria muito diferente do que a atração bizarra que o país assiste há mais ou menos três anos, desde que Jair Bolsonaro tomou posse como presidente e confinou no mesmo palácio os maus alunos que tentavam melhorar as notas riscando o carro da professora.

Spoiler: ao fim do programa os espectadores descobririam que os valentões, armados com pedras e tacos de baseball, não transformariam a instituição em um modelo de gestão pedagógica, mas numa praça de guerra. O que eles sabem fazer, afinal, se não brigar? (e brigar pelos motivos mais bizarros, tipo uma curtida em postagem de rede social).

No episódio mais recente do reality, o brother Mário Frias, secretário da Cultura acusado por colegas de andar armado pela repartição, gerou revolta ao curtir um post de uma seguidora dizendo que o ex-colega Abraham Weintraub seria preso em breve. O irmão do ex-titular da Educação tomou as dores e perguntou se a postagem era mais torcida ou desejo. Foi o princípio do quiproquó.

O ex-ministro, que no cargo arrumava encrencas diplomáticas com chineses e ministros do STF com a mesma facilidade com que surrava a língua portuguesa, disse que não chegaria perto da autora do post porque “ela deve ter bafo” e se queixou do ex-colega de confinamento: “Ele defende nossa prisão ilegal, por que (sic) eu falei em prender vagabundos. Tá certo, centrão”.

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E seguiu: “Antigamente, quem defendia minha prisão arbitrária por falar uma frase, era a comunistada. Agora é o Secretário da Cultura, Mário Frias! Cargo de confiança do Governo Federal. Em 2017, eu estava na Paulista ou fazendo o plano de Governo, enquanto ele estava na Globo…”

Como diria o xaropinho, boneco de um apresentador amigo da turma: “rapaaaaaaz”.

A espetada não ficou sem resposta. Frias disse não entender por que os brothers estavam chateados com uma simples curtida. E questionou: “Quantas vezes vocês deram aquela curtida marota em inúmeros perfis que chamam o presidente de frouxo, covarde e vendido para o sistema? Não gostaram da brincadeira de oposição sonsa?”, devolveu o ex-ator em sua peça mais prestigiada.

Denzel Washington, provável vencedor do Oscar 2022 ao interpretar MacBeth, não ostentaria tanto recurso dramático em uma mesma fala.

O deputado Eduardo Bolsonaro, filho 02 do presidente, também entrou na roda de sopapo ao dizer no Twitter que a briga “explica muito do que estava ocorrendo nos bastidores. Não se trata de dividir/unir a direita, mas separar o joio do trigo”.

O joio, no caso, tem planos para se lançar candidato ao governo de São Paulo, o que desagrada o presidente. Bolsonaro prentende lançar outro brigão para comandar o estado.

Em outro canto da casa, o atual ministro das Comunicações, Fábio Faria, anunciou que ia moer na porrada judicial outro brother, o ex-chanceler Ernesto Araújo, autor do neologismo “comunavírus” e que acaba de acusar o ex-colega de entregar a tecnologia 5G do país aos chineses. A fala foi feita em uma entrevista ao lado de Weintraub e Ricardo Salles, o ex-ministro do Meio Ambiente acusado de favorecer madeireiras num esquema desbaratado pela polícia –e cujo maior feito no governo foi chamar um ex-general de “Maria Fofoca”.

Está impressionado? Pois a briga parece protagonizada por lordes ingleses perto da pancadaria ocorrida em outro canto da casa no fim do ano passado, quando Sergio Camargo, o incendiário presidente da Fundação Palmares, ousou criticar o mestre dos magos da turma, Olavo de Carvalho. Allan dos Santos, o porta-voz oficial do bolsonarismo no YouTube que precisou fugir do país para não ser preso, reagiu e foi chamado de invejoso e “oportunista fracassado”.

O blogueiro devolveu chamando o desafeto de “moleque de merda” que leva “puta em churrasco de família em Brasília deixando todo mundo desconcertado”.

(Silêncio para sentir um climão).

O nível é esse mesmo e mostra que o Brasil ainda não declarou guerra ainda a nenhuma outra nação porque os brothers estão ocupados demais com a própria autofagia. Isso apesar das ameaças do presidente de substituir saliva por pólvora para conversar com a maior potência militar do Planeta.

Estranho não é ver os meninos brigões do fundo se estapearem e jogarem bolinhas com cuspe na testa uns dos outros quando chamados para assumir o comando da aula. Estranho é alguém acreditar que dali realmente sairia alguém preparado para compreender e formular respostas para as complexidades e os desafios do nosso tempo –inclusive os da sala de aula.

Pode funcionar como (mau) entretenimento. Como projeto, o risco é levar ao paredão o espectador que só assiste.

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