Bolsonarista diz que foi discriminada pelo PL por ser indígena e apoiadora do presidente

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A tenente Silvia Waiãpi (PL-AP), indígena que se tornou uma notória apoiadora do presidente Jair Boslonaro, acusa o próprio PL, partido do mandatário, de discriminação por ela ser "negra, indígena e bolsonarista".

Segundo Waiãpi, que concorre a deputada federal, o partido repassou menos dinheiro do fundo eleitoral para ela do que para as outras duas candidatas mulheres no Amapá pelo fato de ambas serem brancas e ela, negra e indígena.

Waiãpi diz ainda que o partido não enviou nenhum material de sua campanha para ser veiculado no horário eleitoral gratuito porque ela se recusou a apoiar o candidato a senador Davi Alcolumbre (União Brasil) --desafeto de Bolsonaro, mas aliado ao PL no estado-- e o candidato a governador Clécio Luis (Solidariedade). Clécio é um raro caso de candidato que aglutina o apoio tanto do PL como do PT.

Waiãpi entrou com uma ação no TRE (Tribunal Regional Eleitoral), por abuso de poder, contra o presidente do PL nacional, Valdemar Costa Neto, e Alex de Almeida Pereira, que comanda o partido no Amapá.

"A demandante [Waiãpi] está sendo discriminada por ser negra, indígena e bolsonarista. A odiosa discriminação é um grave atentado à ordem jurídica, à democracia e à dignidade da pessoa humana", afirma ela, no processo.

Procurados, o PL nacional e o estadual não responderam.

Silvia Waiãpi nasceu no Amapá, mas ainda jovem foi para o Rio de Janeiro, onde por anos foi moradora de rua. Entrou para as Forças Armadas, foi atleta do Vasco, chegou a trabalhar como atriz na Globo em novelas e, no fim de 2018, entrou para equipe de transição do então presidente eleito Bolsonaro.

No atual governo, a tenente do Exército chegou a ser secretária nacional de saúde indígena, mas deixou o cargo após o Ministério Público Federal alegar que sua gestão vinha dificultando o cumprimento de uma ordem judicial que demandou a contratação de novos profissionais para a área.

Depois, foi nomeada conselheira de promoção da igualdade racial, cargo que é vinculado ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, à época comandado por Damares Alves (Republicanos). As duas têm uma relação próxima, costumam aparecer em vídeos e eventos juntas e a ex-ministra foi uma das que mais enalteceram a atuação de Waiãpi no governo.

Durante sua gestão, Bolsonaro foi fortemente criticado por entidades indígenas por causa de ações que afrouxaram regras ambientais e por sua posição contra demarcações de terras para povos tradicionais.

Waiãpi, por outro lado, seguiu apoiando as políticas do presidente para a população indígena e também para o meio ambiente.

Agora candidata a deputado federal, ela afirma que colegas do PL têm "ciúmes" de sua campanha e, por isso, usam o fundo partidário e o horário eleitoral gratuito para atrapalhar sua tentativa de eleição.

Waiãpi diz na mesma ação que as propagandas eleitorais de seu partido vêm sendo custeadas por uma produtora paga por Davi Alcolumbre --aliado da sigla no estado, mas que protagonizou atritos com Bolsonaro no Congresso-- e que ela, para se manter fiel ao atual presidente, gravou seu material de campanha em outro lugar.

Ao ver que a publicidade não havia sido enviada para rádios e televisões, a candidata conta que foi questionar os dirigentes do PL. Em uma mensagem de WhatsApp anexada ao processo, o deputado federal Vinicius Gurgel (PL-AP) responde: "Silvia, você não apoia o Clécio e o Davi [...] caso queira pedir votos para os dois, a produtora deles está de portas abertas".

"Eu sou fiel ao Jair Messias Bolsonaro. Acabei sofrendo represália porque eu não quis apoiar uma pessoa que era adversária do meu presidente [Davi Alcolumbre] e muito menos um candidato de esquerda [Clécio Luis]", afirma Waiãpi à Folha de S.Paulo.

No processo, ela ainda questiona a distribuição de recursos do fundo partidário feita pelo PL no estado. Na sua visão, as três candidatas a deputado federal pelo estado deveriam receber a mesma quantia de dinheiro, o que não aconteceu.

Segundo os dados da Justiça Federal, Sonize Barosa --esposa do presidente da Assembleia Legislativa do estado, Kaká Barbosa (PL)-- recebeu R$ 1 milhão do fundo partidário, enquanto Mariana Souto, R$ 500 mil. Já Waiãpi recebeu R$ 126 mil.

Para ela, o partido ignorou a proporcionalidade entre as candidatas mulheres.

"Eu não posso ser segregada por ser amapaense, indígena e, principalmente, fiel a Bolsonaro; e não aceitar me envolver com o que possa perdurar os métodos de corrupção que acontecem dentro do estado", afirma.