Bolsonaristas desdenham de desaparecidos no AM e falam em novas 'Marielles' da esquerda

SÃO APULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) amplifica argumentos usados há dias por grupos de apoiadores e influenciadores pró-governo nas redes sociais sobre os desaparecimentos no Amazonas.

O discurso central é que o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips não deveriam ter entrado no Vale do Javari sem autorização e que, todos os anos, "60 mil pessoas desaparecem no país".

Esse dado é do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que divulgou 62 mil desaparecidos em 2020.

Em um vídeo com mais de 127 mil visualizações no YouTube, o influenciador Gustavo Gayer, que tem quase 1 milhão de seguidores, disse há dois dias que a "esquerda encontrou duas Marielles para usar contra Bolsonaro".

O vídeo foi publicado inicialmente na rede social de direita Gettr, criada no ano passado por um ex-auxiliar de Donald Trump.

Segundo ele, a esquerda "instrumentalizou a morte de Marielle Franco" e agora faz isso com as outras duas vítimas. "Sessenta mil pessoas morrem por ano e você não vê ninguém se importar", diz. "Nenhum santinho. Entraram na maior floresta do mundo."

Em live com a jornalista Neda Nagle nesta quarta (15), Bolsonaro disse que "os dois resolveram entrar numa área inóspita, sozinhos, sem segurança e aconteceu um problema". Afirmou que Phillips era malvisto na região por fazer matérias contra o garimpo e que "muita gente não gostava dele".

"Sessenta mil pessoas desaparecem no Brasil por ano. Barroso poderia dar cinco dias para achar as 60 mil", disse Bolsonaro.

Na semana passada, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, determinou que o governo adotasse todas as providências necessárias para encontrar os dois desaparecidos.

"O posicionamento político ideológico do Dom Phillips, não me interessa. Como correspondente internacional, foi responsável por dezenas de matérias críticas ao governo Bolsonaro, mas isso é irrelevante", diz o youtuber conservador Ed Raposo, em vídeo com mais de 75 mil visualizações.

"Dois caras que se embrenham no meio da mata fechada, numa região perigosíssima, que já tinham visitado anteriormente, que sabiam que era perigosa, eles sabiam do risco."

Um texto apócrifo disseminado todos os dias desde a segunda-feira em diferentes grupos de Telegram afirma que Pereira é ex-funcionário da Funai, exonerado em 2019 "por condutas extremistas e incorretas ao cargo", em referência às balsas de garimpo ilegal que ele teria ajudado a demolir.

"Philips é a ponta de um iceberg que a esquerda mundial, o PT, PSOL e a mídia farão de tudo para desviar a atenção, pois foi um tiro no pé, tal qual o caso da Marielle."

Sem explicar a relação, texto diz que o jornalista trabalha para a Fundação Alicia Patterson (que apoiava o livro que escrevia) e que, portanto, é financiado pelo bilionário Bill Gates e "outros gigantes que querem controlar a mídia e o mundo".

A morte da missionária Dorothy Stang é lembrada por ter acontecido durante o governo Lula. Os apoiadores do governo dizem que há uma tentativa de difamar Bolsonaro internacionalmente e que a mídia e a oposição usam a tragédia para culpar o presidente.

Nesta quarta, o presidente disse que "quando mataram a Dorothy Stang, ninguém culpou o governo. [O governo] era de esquerda, mas tudo bem". Stang foi assassinada em 2005, tentando proteger trabalhadores rurais em meio a conflitos agrários no Pará.

Nesta semana, um vídeo com propaganda positiva sobre a Amazônia, divulgado em maio por Jair Bolsonaro, voltou a circular em grupos de mensagens, no Twitter e no Facebook.

Narrado em inglês para ser compartilhado para fora do Brasil, o vídeo diz que 84% da Amazônia é preservada e que quem fala em desmatamento nunca pisou na Amazônia.

Bolsonaro defende garimpos em terras indígenas e preservadas desde antes de se tornar presidente.

No vídeo, ele aparece fardado e posando com uma onça. Em seu perfil no Twitter, o conteúdo tem mais de 430 mil visualizações.

Também apócrifo, o vídeo sugere as hashtags preservedbrazil e preservedamazon (Brasil e Amazônia preservados). A agência Lupa analisou o texto, que mescla informações falsas e verdadeiras.

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