Bolsonaristas divulgaram dossiê contra Ludhmila Hajjar e até vídeo dela tocando violão para Dilma

Filipe Vidon
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Indicada para assumir o Ministério da Saúde, a médica cardiologista Ludhmila Hajjar não aceitou o convite para substituir Eduardo Pazuello porque não havia, segundo ela, “convergência técnica” com o governo. Mas antes disso, ela denunciou que foi vítima de ataques, ameaças e mentiras bombardeadas por grupos que não eram a favor de seu nome na pasta.

Entre os primeiros materiais usados para criticá-la, estava uma live em que a médica conversou com Dilma Rousseff e criticou as medidas de enfrentamento à Covid-19 tomadas pelo governo: “Quem sabe não teremos dias melhores, né presidenta?”, declarou. Mas o vídeo que viralizou em grupos bolsonaristas no aplicativo de mensagens Telegram foi o que Hajjar aparece cantando “Amor I love you”, de Marisa Monte, e tocando violão para a ex-presidente petista.

Nas imagens, a cardiologista aparece ao lado do médico Roberto Kalil Filho, diretor do hospital Sírio Libanês, em São Paulo, por onde Dilma passou diversas vezes enquanto tratava um câncer já curado. Em um trecho da música, ela altera a letra e canta “presidenta, I love you”. Entre os integrantes de um grupo chamado “Bolsonaro Presidente”, dezenas de participantes chamaram a recusa da médica de “livramento”. Outros destacaram o fato de ela não estar alinhada ao posicionamento ideológico de Bolsonaro no tocante à condução da pandemia: “por favor, presidente, a Dra. Ludhmilla Hajjar não. Ela não tem nenhuma afinidade com tratamento precoce que salva vidas.”, declarou um apoiador.

Segundo a colunista Bela Megale, este vídeo circulou entre assessores e ministros do Palácio do Planalto e foi apontado como uma das justificativas para a médica não ter sido nomeada para a Pasta no lugar de Eduardo Pazuello.

Além dos registros com a ex-presidente, bolsonaristas divulgaram em diversas redes de transmissão a imagem de uma manchete produzida para atacar Ludhmilla. Chamada de “Mandetta de saias”, o texto afirma que ela fez parte do estudo para “boicotar a cloroquina” e que seu objetivo foi “claramente atacar a propaganda que Bolsonaro vinha fazendo do medicamento, que apesar de já contar com diversos estudos favoráveis, ainda é boicotado e combatido nos jornais”.

O estudo em questão já havia sido alvo de ataques bolsonaristas quando publicado, após concluir preliminarmente que não era possível afirmar que a cloroquina ajudasse no tratamento de Covid-19. A pesquisa foi desenvolvida por mais de 70 pesquisadores da Fiocruz, USP, Universidade do Estado do Amazonas e outras instituições, e também foi alvo de Eduardo Bolsonaro em abril de 2020.

Fotos em que Ludhmilla Hajjar aparece ao lado do ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ) e do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes também foram usadas contra ela. A narrativa construída entre os aliados do presidente era de que a profissional teria conexões com Maia e Mendes, alvos frequentes de ataques coordenados nas redes.

Após recusar a vaga no MS, Ludhmila Hajjar revelou à Bela Megale que já contratou, na manhã desta segunda-feira, segurança profissional e que passou a andar de carro blindado. As mesmas medidas foram adotadas para proteger sua família. Em entrevista à jornalista Andreia Sadi, da Globo News, a cardiologista relatou que houve três tentativas de invadir o hotel onde estava hospedada em Brasília, na madrugada de hoje. Ludhmila também relatou que sofreu ameaças de morte.