Bolsonaristas e TSE fazem 'jogo de gato e rato' com multiplicação e derrubada de grupos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Grupos com foto de Coca-Cola no perfil ou nomes como "varejo e atacado - SP", "Flamengo" e "Idosos no jiu-jitsu" são algumas das estratégias adotadas pela militância bolsonarista para driblar o monitoramento da Justiça Eleitoral, que passou a suspender dezenas de grupos de articulação golpista.

De um lado, a rápida mobilização bolsonarista para criar novos grupos e camuflar os que seguem no ar gera dúvidas sobre a efetividade das medidas. De outro, os bloqueios da Justiça ajudam a desgastar e interromper, mesmo que por algumas horas, a comunicação entre os membros.

Na segunda-feira (31), o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) passou a emitir ordens judiciais às plataformas com determinações para remoção de grupos de WhatsApp e Telegram.

Antes do resultado das eleições no domingo (30), inúmeros grupos surgiram para organizar atos que questionam o resultado das urnas. Entre os destaques, havia uma lista de grupos com o nome "Resistência Civil" -em cada estado do Brasil tinha um grupo próprio dedicado a planejar as barricadas. Desde o fim da apuração, os grupos de modo geral estavam com um ritmo frenético.

A Justiça derrubou a primeira leva, e uma nova lista passou a ser disparada na terça-feira (1º), com grupos que estiveram ativos ao longo dia. No início da madrugada, porém, quase todos já eram alvo do TSE.

Diante dos bloqueios, os integrantes passaram a difundir links para "grupos reservas" no próprio Telegram, no WhatsApp e em aplicativos menos populares, caso fossem novamente derrubados.

Grupos superativos da militância bolsonarista foram atingidos, caso do B38, criado por militares que defendiam o voto impresso. Com cerca de 60 mil integrantes, ele não pode mais ser acessado. "Este grupo não pode ser exibido porque violou as leis locais", diz um aviso.

Outros chats populares de apoio ao chefe do Executivo permanecem no ar, mas camuflados. O grupo "Os Patriotas Br", com 14 mil membros, substituiu a imagem de seu avatar para uma garrafa de Coca-Cola, retirando a bandeira do Brasil, e chegou a mudar de nome algumas vezes nos dois últimos dias.

Já o "A Mídia Não É Sua Amiga", com 21 mil pessoas, passou a se chamar "Coca-Cola é melhor que Pepsi". Outro exemplo é o negacionista "A Toca do Coelho", com quase 10 mil membros, e que agora se chama "ATC".

Sob risco de terem a comunicação bloqueada e com programação de atos para esta quarta (2), extremistas fizeram apelos e pediam, em caso de suspensão dos aplicativos que impossibilite a comunicação, que os apoiadores do presidente não deixassem de sair às ruas em protestos.

Outro movimento, que por ora tem menor adesão, é a migração para outros aplicativos de conversa que não o Telegram e o WhatsApp. Diversos links para Discord e Signal começaram a ser disparados. A reportagem identificou alguns com algumas dezenas de integrantes, um deles já chega a quase mil usuários.

Conforme os canais de Telegram foram sendo derrubados, novos grupos também foram criados no WhatsApp.

O TSE determinou a remoção de grupos específicos e o banimento dos que fizessem parte de um mesmo "cluster". Ordenou ainda que a empresa adotasse medidas dentro de suas capacidades para identificar e remover grupos que discutam golpes de Estado.

O WhatsApp afirma que está cumprindo "o banimento das contas e grupos indicados pelo TSE dentro do prazo estipulado".

Na tentativa de encontrar novos espaços de diálogo, grupos golpistas terão uma curva de aprendizado, que inclui até mesmo a instalação de novos programas.

Já para a Justiça, um desafio é o risco de pulverização da militância radical em ferramentas mais fechadas, que, no contexto eleitoral, não têm acordos de cooperação com o TSE -o que pode dificultar a execução de decisões.

Ainda que as suspensões ordenadas pela Justiça Eleitoral possam ser encaradas como "enxugar gelo", elas geram dificuldades, pois não é fácil e nem rápido congregar todos os integrantes em novos grupos.

A nova dor de cabeça para a militância também tem deixado em evidência a falta de coordenação dos grupos e sentimento de perseguição.

Há uma constante acusação entre os usuários de que há infiltrados ou que os próprios donos de grupos recém-surgidos seriam pessoas da esquerda interessadas em passar informações incorretas ou desmobilizar os movimentos.

Mistura de rede social e aplicativo de mensagem, o Telegram foi uma ferramenta central para a mobilização do bolsonarismo na campanha eleitoral. O limite de até 200 mil usuários por grupo é um dos seus principais atrativos. Com ferramenta de busca, ele torna fácil a descoberta de chats e canais.

Já o WhatsApp impõe uma restrição de 256 pessoas por grupo, no entanto, apresenta dificuldades maiores para o monitoramento de conteúdo. Sob pressão da sociedade civil e de questionamentos da Procuradoria da República em São Paulo, o WhatsApp adiou o lançamento das comunidades, que permitirão a conversa entre muitas pessoas no aplicativo, para o período pós-eleitoral.

É possível dizer ainda que a concretização da derrubada de uma série de grupos só é realidade devido a ações tomadas ao longo do ano pelo Judiciário.

A dez dias da eleição, o TSE aprovou uma nova resolução que ampliou seus poderes e permitiu ao tribunal determinar a derrubada de conteúdo mesmo sem ser provocado, sob pena de multa que pode chegar a R$ 150 mil por hora de descumprimento.

Já o Telegram, que constantemente ignorava decisões judiciais e as tentativas de contato da Justiça Eleitoral, nomeou um representante legal no país para responder a demandas sobre desinformação e assinou acordo de cooperação com o TSE, depois de ter sido alvo de um bloqueio de Alexandre de Moraes, depois de descumprir determinações do STF (Supremo Tribunal Federal).