Bolsonaristas oferecem ônibus de graça para atos antidemocráticos em Brasília

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 03.11.2022 - Bolsonaristas realizam ato antidemocrático em frente ao Quartel do Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 03.11.2022 - Bolsonaristas realizam ato antidemocrático em frente ao Quartel do Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Caravanas com ônibus de graça até Brasília estão sendo anunciadas nas redes sociais e por grupos bolsonaristas para reforçar o ato antidemocrático em frente ao quartel-general do Exército, onde apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) pedem a intervenção das Forças Armadas contra o resultado das eleições.

O objetivo, segundo as convocatórias, é trazer um grande público para o QG no feriado da Proclamação da República, nesta terça-feira (15), e inflar as manifestações que já duram mais de 10 dias.

A Folha de S.Paulo identificou caravanas gratuitas com destino a Brasília saindo de oito cidades: Guarulhos (SP), Cuiabá (MT), Sinop (MT), Rondonópolis (MT), Carmo do Paranaíba (MG), Ipatinga (MG), Videira (SC) e Goiânia (GO).

"Ônibus para Brasília! Saída dia 11/11, às 19h, centro de Guarulhos. Gratuito. Sem data de retorno. Acampamento patriota. 40 lugares. Reserve sua vaga pelo zap [WhatsApp]", afirma um dos anúncios divulgados pelo Twitter.

A Folha mandou mensagem na quinta (10) para o número indicado pela organização da caravana de Carmo do Paranaíba. O banner divulgado pelas redes sociais dizia que o "valor da passagem" era "gratuito".

Uma pessoa não identificada afirmou que a excursão tinha sido cancelada, mas seria remarcada caso a organização conseguisse o ônibus com "colaboradores".

Questionada sobre quem seriam esses colaboradores, a pessoa afirmou que eram pessoas que dividiram o valor do frete do ônibus, mas decidiram doar seus lugares porque não conseguiriam mais viajar.

Procurada por telefone na sexta (11) para explicar quem pagaria os gastos com o ônibus, a organização da caravana de Ipatinga disse que a viagem seria cancelada.

Já o prefeito de Tapurah, em Mato Grosso, Carlos Capeletti (PSD), gravou um vídeo em que convoca empresários do agronegócio e do comércio para irem a Brasília no feriado da Proclamação da República.

Ele ainda agradece os empresários que fecharam as portas em protesto pela vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Capeletti afirmou ainda que "a parte dos quartéis" já foi feita, e que a ideia não é "trancar Brasília", mas "congestionar" a cidade. "O pessoal do comércio, do agro, vamos para Brasília. É lá a batalha final. É lá onde mora o nosso inimigo", disse.

"Se até o dia 15 de novembro o Exército não tomar alguma atitude em prol da nação brasileira e da nossa liberdade, nós vamos tomar atitude. Tenho certeza que, aos milhões lá, alguém vai ter uma ideia. Vamos tomar o Congresso, o STF (Supremo Tribunal Federal), até o Planalto. Se até lá o Exército não tomar uma atitude, vamos nós fazer uma nova Proclamação da República."

Durante a campanha, o prefeito anunciou o sorteio de um carro para incentivar os eleitores a votarem em Bolsonaro. Capeletti disse que colocaria os comprovantes de votação em uma urna e pediria para que uma criança sorteasse o papel do vencedor.

Ele foi obrigado pelo TRE-MT (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso) a cancelar a iniciativa e pedir desculpas pelas redes sociais. A Folha de S.Paulo ligou para a prefeitura de Tapurah na sexta, mas Capeletti não quis se manifestar.

Mais de 100 caminhões chegaram a Brasília na quarta (9) e outros veículos são esperados até o feriado de 15 de novembro, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.

O Comando Militar do Planalto cedeu um descampado no setor militar para ser usado como estacionamento, sob o argumento de que isso evitaria que os veículos obstruíssem vias da cidade. O Detran-DF (Departamento de Trânsito do Distrito Federal) e a Polícia Militar fiscalizam a região.

Como mostrou a Folha, empresários de diferentes estados bancaram a vinda de caminhões para Brasília para engrossar o protesto em frente ao quartel-general do Exército. As placas indicavam que eles tinham saído de Mato Grosso, Goiás, Bahia e Santa Catarina.

As manifestações em frente ao QG em Brasília tiveram queda na participação durante a semana, apesar da chegada dos caminhoneiros. As fortes chuvas e vendavais na capital federal fizeram barracas e tendas instaladas para a acomodação dos manifestantes voarem.

Caminhoneiros que estão no local relataram na sexta que estavam com receio de que os veículos tivessem de sair do setor militar após a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), para que as policias desobstruam as vias de todo o país.

Segundo Moraes, os motoristas deverem receber multa de R$ 100 mil por hora caso desobedeçam a decisão judicial. Em Brasília, o local destinado aos caminhões mudou na última quarta-feira, e a via onde os veículos estavam foi liberada.

O ministro também determinou que sejam mapeadas empresas e pessoas que descumprirem a decisão e que fornecerem apoio material (logístico e financeiro) a manifestantes que permanecem nos bloqueios em locais públicos.