Bolsonaristas usam duplo padrão para contabilizar vacinados e mortos de Covid

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SAO PAULO, SP, 27.04.2021: COTIDIANO - CORONAVIRUS - Ensaio em cemitério para o dia em que o Brasil atinge 400 mil mortos por Covid-19. Na foto, sepultadores paramentados enterram caixão no Cemitério Vila Formosa, na tarde desta terça-feira. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
SAO PAULO, SP, 27.04.2021: COTIDIANO - CORONAVIRUS - Ensaio em cemitério para o dia em que o Brasil atinge 400 mil mortos por Covid-19. Na foto, sepultadores paramentados enterram caixão no Cemitério Vila Formosa, na tarde desta terça-feira. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na guerra de informações sobre a Covid-19, os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vêm popularizando a máxima de que números, se bem espremidos, podem dizer qualquer coisa.

Em redes sociais, entrevistas e pronunciamentos, bolsonaristas e a Secretaria de Comunicação Social do governo federal vêm alardeando que o Brasil é o quinto país que mais vacina no mundo e que está bem para trás em número de mortos pela pandemia.

Tudo verdade, assim como seria possível uma leitura oposta do cenário: o Brasil é o segundo maior em número de mortos e ocupa a distante 57ª posição no ranking da vacinação.

O aparente paradoxo se deve ao fato de os apoiadores do presidente usarem duas formas diferentes para medir vacinação e mortes, privilegiando a métrica que for mais conveniente.

No caso da aplicação de doses, preferem o valor absoluto, sem levar em conta o tamanho da população. Quando falam de mortes, divulgam o número proporcional, em relação a 1 milhão de habitantes.

Um dos principais gurus do presidente na condução da pandemia, o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) é adepto deste duplo padrão.

"O Brasil está entre os cinco países que mais vacinam para Covid no mundo. A velocidade aumentará com o tempo e o aumento na produção", escreveu, em 20 de fevereiro.

Dois meses depois, referiu-se à quantidade de mortes de outra forma. "O resultado mais trágico da pandemia está na proporção de mortes por milhão de habitantes. Por aí se mede a efetividade da estratégia para salvar vidas", disse, em uma rede social.

Segundo dados do projeto Our World in Data, que agrega estatísticas da pandemia de todos os países, o Brasil é o segundo colocado no ranking total de mortes, com 417 mil até a última sexta-feira (7), atrás apenas dos EUA.

Ponderando pela população, ocupa a 12ª posição, com 1.961 óbitos por milhão de habitantes, embora esteja avançando rapidamente.

No caso das vacinas, é o quinto em números gerais, com 46,5 milhões aplicadas, atrás apenas de China, EUA, Índia e Reino Unido.

Pelo critério proporcional, contudo, despenca no ranking, com 21,9 doses aplicadas por 100 habitante, bem distante dos líderes e de países como Israel (121,1,), Chile (80), Reino Unido (75,4) e EUA (75,3).

A prática dos defensores de Bolsonaro inclui diversos exemplos de "contabilidade criativa".

Filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) usou uma rede social em 3 de abril para comparar as 20 milhões de doses aplicadas até aquela data com a população de países bem menores.

Segundo esse raciocínio, o Brasil já havia vacinado quase seis vezes a população do Uruguai, três vezes a do Paraguai e nada menos do que 530 vezes a de Mônaco, principado europeu com cerca de 30 mil moradores.

"Se a população do Brasil fosse a de Israel, já teríamos aplicado a segunda dose em 100% da população", acrescentou. Em nenhum momento mencionou que o Brasil tem população 24 vezes a do país do Oriente Médio.

Outra apoiadora do presidente, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) misturou diferentes métricas num único post, em junho do ano passado, para ressaltar o número de curados e minimizar o de mortes.

"Lembrando que o país é o 1° em n° (absoluto) de curados, o 2° em n° (absoluto) de infectados e o 17° em n° de mortes p/ milhão de habitantes", disse.

Ginástica semelhante tem sido feita desde o começo da pandemia por vários apoiadores do presidente, como o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), o assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, e a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), entre outros.

O perfil oficial da Secom também usa as duas medidas. "Com 14,12 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 administradas pelo governo federal até 22 de março, o Brasil está em quinto lugar em doses absolutas de imunizantes contra a doença", escreveu, em 23 de março.

Já em agosto do ano passado disse que o Brasil tinha "um dos menores índices de óbitos por milhão entre as grandes nações".

Em lives e redes sociais, o próprio presidente Bolsonaro costuma reforçar o número absoluto de aplicação de vacinas, sem ponderar pela população total.

Para o pesquisador Marcelo Gomes, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), o padrão correto é sempre relativizar dados pelo tamanho da população, sejam óbitos ou vacinas.

"Tanto os números de ocorrências, seja de casos ou óbitos, quanto os de vacinas têm que ser normalizados pelo tamanho da população. Um país pode ter menos casos e óbitos apenas porque tem menos gente, não porque a situação é menos grave", afirma ele, que coordena o Infogripe, sistema de análise de dados para casos de síndrome respiratória aguda grave, que tem na Covid-19 seu maior fator atualmente.

Segundo Gomes, o dado absoluto para vacinas é ilusório. "Sim, estamos entre os cinco países que mais vacinam, mas também estamos entre os países mais populosos do mundo. O fato é que a gente tem pouca dose. Para estamos numa situação confortável, deveríamos estar bem acima no ranking de vacinas", afirma.

Os apoiadores do presidente Bolsonaro dizem que usam dados oficiais, que mostram a o que está acontecendo de fato no cenário pandêmico.

"Usar o dado absoluto de vacina está correto, porque o Brasil é o sexto país do mundo em população. Isso é matemática. Mostra a eficiência na vacinação", afirma o deputado Bibo Nunes (PSL-RS).

Em março deste ano, ele escreveu que o Brasil é o quinto país que mais vacina no mundo, e provocou os opositores do presidente: "Chorem, urubus".

Duas semanas depois, ao falar de mortes, disse que os "urubus estão inconsoláveis". "Espanha, Inglaterra e Itália --primeiro mundo-- têm mais mortos por milhão que o Brasil!"

Segundo Nunes, "cada um usa os dados a seu favor". "Eu vejo o lado positivo, eu não politizo. Eles torcem para o quanto pior melhor, isso é falta de patriotismo."

Para Osmar Terra, não há problema de a contabilidade de vacinados e mortos ser feita com critérios diversos.

"São duas situações diferentes. Uma é ver a mortalidade no mundo, comparar. Outra é o volume de vacinas que os países estão comprando, o número absoluto. Se isso representa uma taxa de vacinação determinada, não tem como avaliar. A crítica que se faz ao governo é sobre a compra", afirmou.

A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) também defende o duplo critério. "Em todo o mundo, os indicadores sobre morte são por milhão de habitantes. Nós temos uma das maiores populações do mundo, então é natural que a gente tenha um maior número de mortes do que algumas ilhas, ou Suíça e Itália, por exemplo", afirmou.

No caso das vacinas, ela diz que o critério de número absoluto é o mais correto. "No caso do vacinômetro, todas as pessoas têm usado o número de vacinas compradas, o número absoluto. O insumo [para as vacinas] não vem por número de habitantes, vem por número absoluto", diz.

Ele lembra que em algumas postagens mencionou a aplicação de doses por 100 habitantes. "Não é verdade que eu só uso o número absoluto", diz. Zambelli, no entanto, usou o dado proporcional apenas para dizer que o Brasil liderava entre os países dos Brics (grupo de nações emergentes) e estava em segundo lugar na América Latina, sem citar a cifra global.

Procurada, a Secretaria de Comunicação Social do governo Bolsonaro não se manifestou.

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FRASES

Secretaria de Comunicação Social

“Com 14,12 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 administradas pelo governo federal até 22 de março, o Brasil está em quinto lugar em doses absolutas de imunizantes contra a doença", em 23.mar.2021

“Um dos menores índices de óbitos por milhão entre as grandes nações”, em 8.ago.2020

Osmar Terra, deputado federal (MDB-RS)

“Brasil está entre os cinco países que mais vacinam para Covid no mundo. A velocidade aumentará com o tempo e o aumento na produção”, em 20.fev.2021

“O resultado mais trágico da pandemia está na proporção de mortes por milhão de habitantes. Por aí se mede a efetividade da estratégia para salvar vidas", em 16.abr.2021

Bia Kicis, deputada federal (PSL-DF)

“Ótimas notícias! Ontem, sexta-feira, 26/03/21, nosso país aplicou 922.481 vacinas. O Brasil é o quinto país que mais vacinou no planeta”, em 27.mar.2021

“No Brasil, são 928 mortes por milhão de habitantes. Na Suíça são 932 e ninguém fala em caos na saúde. Sentiu o nível da perseguição?”, em 7.jan.2021

Bibo Nunes, deputado federal (PSL-RS)

“O Brasil é o quinto país que mais vacina no mundo. Chorem, urubus”, em 19.mar.2021

“Espanha, Inglaterra e Itália —primeiro mundo— têm mais mortos por milhão que o Brasil! O povo brasileiro sabe disso e vê o Brasil no bom caminho para dizimar o vírus. Urubus estão inconsoláveis”, em 3.abr.2021

Carla Zambelli, deputada federal (PSL-SP)

“O Brasil ultrapassou a Inglaterra em aplicações da segunda dose de vacinas contra a Covid-19. Mais de 10 milhões de brasileiros já receberam a última dosagem do imunizante!”, em 23.abr.2021

“Parte da imprensa alardeia, quase em tom de comemoração, o terceiro lugar no número de mortes por Covid. O que não lhe contam é que o Brasil está em 26º lugar no número de mortes por milhão de habitantes. Para gerar pânico na população a ciência é descartável?”, em 22.mai.2020

Filipe Martins, assessor internacional da Presidência

“Enquanto os alarmistas espalham caos e desinformação, o Brasil já está entre os 20 países que mais administraram doses de vacina no mundo”, em 24.jan.2021

“O Brasil se tornou um dos países que mais recupera infectados e com um dos menores índices de óbitos por milhão entre nações populosas", em 9.set.2020​

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