Bolsonaro é retratado como presidente vilão em gibis nacionais e internacionais

Guilherme Caetano
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Novo quadrinho do Batman faz menção ao presidente Bolsonaro e o chama de 'Bozo'

Desde que tomou posse como presidente, Jair Bolsonaro tem batido ponto em outra função: vilão de histórias em quadrinhos. Nos primeiros 12 meses de mandato, ele acumula menções em HQs estrangeiras de super-heróis como X-Men e Batman, além de surgir em publicações independentes nacionais. Nem todas o mencionam nominalmente, mas o colocam como uma figura de poder, populista e intolerante.

O caso mais recente é da semana passada, quando chegou às bancas americanas a nova edição da série "The Dark Knight Returns", chamada "The Golden Child"., HQ do Batman cuja edição foi escrita pelo roteirista Frank Miller e ilustrada pelo premiado artista brasileiro Rafael Grampá. Ali, Bolsonaro é retratado como uma figura que promove a violência e é identificado pelo nome "JM. Bozo" em sua conta do Twitter, uma suposta abreviação de Jair Messias. Abaixo do retrato de presidente, em inglês, a mensagem que teria sido tuitada pelo perfil: "Se dependesse de mim, todo cidadão de bem teria uma arma de fogo em sua residência".

Menos explícita, uma HQ do Demolidor trouxe outra suposta referência ao mandatário. Em uma das páginas, ao retratar uma manifestação a favor de um político populista, há um cartaz com a inscrição "Fisk mito", referente ao novo prefeito de Nova York, Wilson Fisk. A versão em inglês traz o termo "Fisk rules" (algo como "Fisk manda"), mas foi adaptada pelo tradutor brasileiro, Paulo França.

A edição de janeiro, de número 17, o mesmo da sigla pela qual Bolsonaro foi eleito, foi levada às bancas em janeiro deste ano pela Panini, que traduz e distribui os quadrinhos da Marvel e DC no Brasil. Outro paralelo é que Wilson Fisk se elegeu com uma plataforma populista, espalhando notícias falsas para o eleitorado. Fisk é inimigo mortal do Demolidor.

Em setembro, foi a vez de X-Men colocar o governo brasileiro como inimigo, no título "House of X", escrita por Jonathan Hickman. Na história, o Brasil é retratado como um dos países que rejeitaram ter relações diplomáticas com os mutantes, votando contra a criação do estado no qual os X-Men poderiam viver em paz. Além do Brasil, outros países, como Rússia, Irã, Coreia do Norte e Venezuela, não aceitam o acordo e são tratados como "adversários naturais" dos mutantes.

Há outros casos de relação com HQs americanas e Bolsonaro, mas não diretamente. Em agosto, David Loyd, o coautor de "V de Vingança", clássico dos quadrinhos que se tornou filme em 2005, veio ao Brasil para a ComicCon do Rio Grande do Sul e afirmou, em entrevista ao "UOL", que o Brasil de Bolsonaro tem paralelo com a sua história. Ele declarou que estava ouvindo "coisas nada boas" sobre o mandatário brasileiro. O quadrinho retrata um futuro distópico em que o Reino Unido é administrado por um governo neofascista que persegue minorias, como LGBTs.

— Eu acho que o Bolsonaro acaba sendo um personagem interessante porque ele não se encaixa no perfil de um déspota comum. Seja para o imaginário dos quadrinhos de super heróis, mas também para o imaginário dos quadrinhos underground, é interessante a figura de um tirano que tenha traços cômicos. Alguém que ao mesmo tempo se mostre autoritário, mas que faça isso rindo, não levando nada a sério, transformando tudo num enorme espetáculo — afirma Alexandre Linck, pesquisador da área de quadrinhos e professor em Ciências da Linguagem da Unisul.

O tradutor catarinense Érico Assis, que trabalha com histórias em quadrinhos, não ficção e literatura infantil para diversas editoras, deu a sua opinião sobre por que Bolsonaro aparece com tanta frequência como vilão. Segundo ele, HQs americanas sempre "estiveram em busca de um Hitler", pois colocar heróis nacionais como Capitão América ou Super-Homem lutando contra um nazista ajudava nas vendas. Com Bolsonaro, ele diz acreditar que a mesma lógica foi empregada.

 

— Eu imagino que Bolsonaro circula com força no noticiário estrangeiro quando faz as declarações mais absurdas, como DiCaprio financiando queimadas na Amazônia, e por conta dos olhinhos apaixonados pelo Trump. Autores de HQ se inspiram no noticiário internacional e sabem que, quando precisam fazer referência a um governo estrangeiro contemporâneo do mal, podem citar Brasil, Hungria, Coreia do Norte, Filipinas. Quando um roteirista de HQ dos EUA, principalmente de editoras como Marvel e DC, cita ou faz alusão a Bolsonaro como vilão, é porque roteirista e editora se sentem tranquilamente do lado certo da história em demonizar a figura — afirmou Assis.

Os quadrinhos independentes nacionais, por sua vez, abordam o presidente Bolsonaro de forma mais explícita, fortes e depreciativas. "Kriança Índia", publicada por Rafael Campos, ilustra de maneira violenta e delirante várias figuras do governo Bolsonaro. Já a terceira edição da revista "Cavalo de Teta", criada em 2017 pelo quadrinista João Pinheiro, mostra o "real encontro" entre Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A capa traz o americano apontando uma arma para a boca de Bolsonaro, enquanto os quadrinhos mostram o presidente brasileiro aflito enquanto o telejornal mostra uma reportagem que implica o mandatário na morte da vereadora Marielle Franco. Ambas as HQs são de São Paulo e integram o circuito alternativo.

— Não sei nem por onde começar. Não sei por que alguém não consideraria atraente para ser retratado como vilão um presidente como Bolsonaro — afirma Pinheiro — Tem todo o histórico de agressões a minorias, elogio a torturadores da ditadura condenados. São muitos os motivos.