Bolsonaro acirra discurso às vésperas de CPI, e senadores veem ação para insuflar base

RENATO MACHADO
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Às vésperas da instalação da CPI da Covid, senadores que compõem a comissão afirmam que os recentes atos de Jair Bolsonaro (sem partido), saindo em defesa do ex-ministro Eduardo Pazuello e de métodos que serão investigados, representam uma tentativa de mobilizar a base bolsonarista para compensar a vulnerabilidade do presidente no colegiado. Para alguns parlamentares, o governo monta duas frentes de atuação: enquanto o presidente acirra sua retórica, o Palácio do Planalto tenta se municiar de informações para contra-atacar em focos de apuração da comissão. A CPI da Covid será instalada nesta terça (27), quando serão escolhidos oficialmente o presidente, vice-presidente e o relator da comissão. O governo conta com apenas 4 dos 11 membros titulares. A situação de desvantagem se reflete na perda dos principais cargos, com a presidência caindo nas mãos do independente Omar Aziz (PSD-AM). O maior temor do Planalto, no entanto, é a relatoria destinada a Renan Calheiros (MDB-AL). Face a esse cenário, Bolsonaro vem promovendo nova inflexão em seu discurso relativo à pandemia. Após um período em que passou a usar máscaras e chegou a defender a vacina contra a Covid-19, o presidente retomou com mais vigor seu comportamento negacionista e os confrontos com outros Poderes e entes federados. Bolsonaro passou a defender justamente alguns dos principais pontos de investigação da comissão, em manifestações vistas como de oposição à CPI. Paralelamente a essa estratégia do presidente, o Executivo busca reagir. Como mostraram o Painel e o UOL, a Casa Civil encaminhou um ofício para 13 ministérios contando as 23 principais acusações contra o governo relativas ao enfrentamento da pandemia, pedindo que cada pasta envie respostas a esses pontos. A Casa Civil, em nota, disse que considera natural a reunião de informações fornecidas pelos ministérios, como forma de defesa na CPI. "Diante da CPI da Covid no Senado Federal, nada mais natural que a Casa Civil reunir todos os dados e números de maneira a esclarecer qualquer questionamento feito no âmbito da comissão, além de se preparar para desmentir narrativas mentirosas que visem apenas atingir e desacreditar o governo federal", afirmou. A iniciativa coincide com o início dos trabalhos da CPI. O Planalto quer receber informações de qualquer medida que tenha sido adotada no contexto de combate ao coronavírus, desde esforços para obtenção de vacinas e insumos à aquisição de equipamentos de proteção. Na última quinta (22), em sua live semanal nas redes sociais, Bolsonaro não citou nomes de medicamentos, mas falou sobre "um negócio" que tomou que serve para tratar malária, artrite e lúpus, em referência à hidroxicloroquina. O cuidado de esconder o nome se deu, provavelmente, após plataformas derrubarem conteúdos postados em contas do presidente por divulgar medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid. Conforme o jornal Folha de S.Paulo publicou, Renan já tem em mãos um ofício do Ministério da Saúde que orienta o uso da cloroquina. Senadores acreditam que ele possa servir como prova contra o governo na CPI. Bolsonaro promoveu ainda um ato em desagravo a Pazuello na última sexta (23) em Manaus. O general ex-ministro da Saúde é considerado um dos principais alvos da CPI. Além disso, o presidente voltou a fazer ameaças contra governadores, ao afirmar que o Exército pode ir às ruas para acabar com a "covardia do toque de recolher". Os governadores de Alagoas, Renan Filho (MDB), e do Pará, Helder Barbalho (MDB), são filhos de membros da comissão. Senadores da CPI ouvidos pela reportagem afirmam que o comportamento recente de Bolsonaro reflete uma situação de fragilidade, com o provável avanço das investigações contra seu governo. "Termino achando que ele está meio perdido, acho que não está sabendo como fazer esse enfrentamento [na CPI], está dando tiro para todo lado", afirma Humberto Costa (PT-PE), que diz acreditar que os ataques são uma forma de mobilizar a base bolsonarista para compensar a desvantagem na comissão. Em caráter reservado, parlamentares que preferem não se identificar afirmam que a posição de Bolsonaro provavelmente reflete uma nova estratégia, a de partir para o confronto fora do ambiente da CPI, uma vez que não terá controle sobre o andamento das investigações. Embora não signifique que vá abrir mão de sua defesa na comissão, dizem esses congressistas, o presidente pode querer passar a impressão de que não se importa com a CPI e defender cada vez mais suas posições polêmicas. Os senadores da comissão, por sua vez, avaliam que a CPI deve evitar o confronto. "O único confronto que estamos preocupados na CPI é contra a pandemia e o vírus. Se o presidente e seu governo têm a consciência que estão fazendo a coisa, não precisam ter razões para temer", afirmou Randolfe Rodrigues (Rede-AP), líder da oposição no Senado e futuro vice-presidente do colegiado. Senador responsável por presidir a primeira reunião por ser o mais velho da CPI, Otto Alencar (PSD-BA) afirma que as falas recentes de Bolsonaro não terão efeito sobre as investigações, sendo mais destinadas ao público externo. "Ninguém vai dar a mínima atenção, a gente vai investigar as coisas normalmente, com independência. Porque na crise da Covid, da miséria, tem que fazer com responsabilidade, tem que fazer de uma forma com que o país não caia, sem fazer política, sem atos cênicos e cinematográficos." "Agora, era o momento em Manaus de ele [Bolsonaro] visitar um hospital, ter um gesto nesse sentido, ver um hospital de campanha. Ele está querendo blindar essas pessoas, que na verdade receberam ordens no Ministério da Saúde, não fizeram ciência, apenas receberam ordens". A instalação da CPI acontece em meio a novos questionamentos contra o governo. Após entrevista do ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten, na qual afirmou que houve "incompetência e ineficiência" da Saúde na compra de vacinas, senadores avaliam que o publicitário tentou blindar ele próprio e Bolsonaro, mas o efeito foi o reverso. Randolfe vai apresentar requerimento para convocar Wajngarten para explicar o papel do presidente na compra das vacinas e por que ele, um secretário de Comunicação, se envolveu nas negociações.