Bolsonaro acusa institutos de pesquisa de interferirem na democracia e cobra ação do TSE

Presidente Jair Bolsonaro

Por Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro (PL), que tenta a reeleição, acusou nesta quarta-feira os institutos de pesquisa de interferirem na democracia e, em tom de ameaça, pediu para que as empresas responsáveis pelos levantamentos não dobrem as apostas no segundo turno.

"Nós lamentamos esses institutos que estão trabalhando para quem os contrata e não é para fazer uma pesquisa séria, a intenção é interferir na democracia, falam tanto de atos antidemocráticos, isso é um ato antidemocrático", disse.

"Eu espero que os institutos de pesquisas não dobrem as apostas por ocasião do segundo turno", alertou ele, em entrevista no Palácio da Alvorada ao lado do ministro da Justiça, Anderson Torres.

Na véspera, Torres anunciou em uma rede social ter determinado à Polícia Federal que abra um inquérito para apurar se houve crime na atuação dos institutos. Sondagens divulgadas no dia anterior ao primeiro turno apontaram uma distância de até 14 pontos percentuais entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Bolsonaro nos chamados votos válidos, inclusive com possibilidade de vitória do petista em primeiro turno.

O resultado do primeiro turno, entretanto, apontou uma vantagem de Lula sobre Bolsonaro de 5,23 pontos percentuais, ou 6,2 milhões de votos em números absolutos -- 48,43% dos votos válidos para Lula contra 43,20% para Bolsonaro.

Para Bolsonaro, os números dos institutos quase decidiram a eleição presidencial no primeiro turno, o que, para ele, "seria um desastre" para o Brasil.

À noite, em transmissão pelas redes sociais, Bolsonaro voltou a atacar os institutos de pesquisa e defendeu que as sondagens sejam tratadas com rigor pela Justiça Eleitoral.

"Todas as pesquisas erraram. Está na cara que isso é coisa feita com má fé para atender interesses que quem pagou aquela pesquisa", afirmou.

"O nosso TSE (Tribunal Superior Eleitoral) deveria tratar as questões de pesquisas com o mesmo rigor aos ditos fake news do pessoal de direita. Quer mentira maior do que essa das pesquisas?", questionou.

Institutos de pesquisa já vinham afirmando antes da votação que os levantamentos não poderiam ser encarados como prognósticos, mas fotografias do momento. Também apontavam diferenças metodológicas e a ausência de dados oficiais atualizados sobre a população, necessários para o desenho da amostragem de entrevistas.

Outro fator levantado por especialistas da área diz respeito a possível boicote de entrevistados, principalmente da parte de eleitores do presidente. A abstenção também foi apontada como variável que pode ter influenciado e resultado na discrepância entre pesquisas e o resultado oficial.

INQUÉRITO POLICIAL

Na entrevista pela manhã, o ministro da Justiça negou que o inquérito da PF seja uma intimidação e afirmou que é preciso verificar se houve crime. Ele afirmou que não tem "fake news" maior do que a divulgação desse tipo de levantamento na véspera da eleição. Destacou que o inquérito é muito sério e a realidade vai vir à tona.

"Nada melhor que um inquérito policial na Polícia Federal para poder esclarecer tudo isso aí, até para esclarecer para a população brasileira que possa exercer seu direito para que pesquisas não fiquem direcionando muitas vezes questões de voto útil", disse.

"Nada melhor do que o inquérito policial para esclarecer se realmente existe ou não algum crime, algum conluio, algumas empresas associadas", reforçou ele, ao afirmar que não há um instituto específico que será alvo e que tudo será investigado após ter havido "números muito discrepantes" com a realidade.

Na terça-feira, os advogados da campanha de Bolsonaro entraram perante o TSE e o Ministério Público Eleitoral com pedido de investigações sobre as divergências nas pesquisas de primeiro turno e cobraram providências para que esse tipo de divergência dos levantamentos não venham a ocorrer no segundo turno.

"Não se está, desde logo, a afirmar que estejam (alguns) institutos de pesquisa agindo de má-fé", dizem os pedidos.

"Ainda não há elementos probatórios para dar vida à suspeita, mas se isso for verdadeiro, o que investigações como a ora requisitada podem confirmar (ou não!), providências devem ser adotadas, no âmbito das atribuições institucionais dos órgãos de controle legitimados", destacaram.

Além dessas iniciativas, aliados de Bolsonaro também discutem a eventual apresentação de um pedido de uma CPI no Congresso para investigar os institutos e há parlamentares se articulando para a aprovação de leis que punem os erros dos institutos.

(Reportagem adicional de Maria Carolina Marcello)