Bolsonaro age como criança birrenta ao fechar ouvidos para atos pela democracia

SAO PAULO, BRAZIL - AUGUST 11: People stage a demonstration against Brazilian President Jair Bolsonaro and in defense of democracy and elections at Avenida Paulista in Sao Paulo, Brazil on August 11, 2022. With the participation of social movements, students and workers, the protesters displayed posters and banners against the government. (Photo by Paulo Lopes/Anadolu Agency via Getty Images)
Manifestante pede respeito ao vivo em ato na avenida Paulista em 11 de agosto. Foto: Paulo Lopes/Anadolu Agency (via Getty Images)

Se o seu cunhado ou vizinho subir hoje em uma caixa de madeira na esquina da avenida Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio e pregar oito horas por dias, sete dias na semana, que o fim está próximo e deste mundo só serão salvos os que embarcarem em uma nave de caramelo, até o fim do ano ele poderá visualizar, do alto da caixa tosca, pelo menos uma dúzia de seguidores alucinados com bandeiras e cartazes de sua Igreja Transnacional dos Últimos Dias do Açúcar Queimado.

Se abaixo do caixote estiver exposto o QR Code do site e das páginas nas redes sociais do movimento, a chance de a ideia emplacar, sob o engajamento de fãs, haters ou mero curiosos de diversas localidades, é considerável. Pode fazer o teste em casa. Só não esqueça as balas de caramelo. Nem as escovas de dente.

Um presidente da República, não importa o índice de sua popularidade, será sempre o maior influencer de seu país. O sistema de pesos e contrapesos o impede de transformar em lei tudo aquilo que diz, mas seu campo de exposição, acompanhado diariamente por jornais, câmeras de TV e veículos oficiais, tem o efeito de transformar em um míssil de longo alcance qualquer suspiro entediado.

Se esse presidente subir em um caixote no cercadinho do seu palácio e pregar oito horas por dias, sete dias na semana, que o fim está próximo e deste mundo só serão salvos os que … (preencha qualquer absurdo aqui), no dia seguinte haverá um pouco mais de uma dúzia de seguidores com bandeiras e cartazes na defesa de sua causa. A salvação pode ser uma nave de caramelo, a retirada em massa de nióbio sob a terra, a produção em escala industrial da cloroquina, um recibo com o comprovante de seu voto de cabresto em papel ou um golpe que dará a meia dúzia de generais o poder de decidir os rumos do país, sem espaço para o contraditório, e convencer uma multidão de que isso é liberdade.

Desde que tomou posse Jair Bolsonaro tem demonstrado que sabe como organizar uma marcha à sua imagem e semelhança. Passa suas oito horas diárias, sete dias da semana, pregando sua alta prosopopéia para colher ao menos uma vez por ano, geralmente no Sete de Setembro, uma foto de helicóptero da reunião de seguidores em via pública em pleno domingo. Quase sempre com bandeiras e camisas amarelas e cartazes que reproduzem quase literalmente tudo o que o chefe falou.

No país que na última década, mais precisamente a partir de 2013, fez das vias públicas um espaço diverso para múltiplas reivindicações, uma sentença tornou-se lugar comum a cada nova revolta: “é preciso ouvir o recado das urnas”.

Quem não ouviu ou só fingiu ouvir acabou engolido.

Mas ao menos em público ninguém estava autorizado a sequer pensar em desdenhar das mobilizações, como faz Jair Bolsonaro quando a bronca não é organizada nem estimulada por ele.

Resultado curioso e indireto das metamorfoses pelas quais atravessaram as ruas desde 2013, Bolsonaro subverteu esse processo de escuta, fundada na ideia de que se a rua pulsa, algo comunica.

Basta ver o que ele afirmou quando uma multidão foi às ruas confrontar seu desejo anunciado de desacatar o resultado das urnas em outubro, como bem pontou um dos trechos diagnósticos da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito, lida na última quinta-feira (11/8) no centro de São Paulo.

O primeiro recado da mobilização estava na pluralidade de seus participantes, entre personalidades e populares. Todos ali gritavam que retrocessos não serão tolerados e que o período eleitoral deveria ser um período para debater ideias, e não se haverá declaração de guerra caso os desejos do candidato à reeleição sejam rejeitados pelos súditos.

Bolsonaro viu a casca de banana do outro lado da rua e correu para escorregar ao dizer que a missiva tinha o objetivo de atingi-lo. Vestia assim a carapuça das forças antidemocráticas e pendores autoritários, assim descritos na missiva, que buscam transformar o pleito em um parquinho incendiado.

O sexagenário preso ao personagem ginasial, em vez de refletir sobre o que dizem juristas, movimentos sociais, personalidades e artistas, prefere dizer que a manifestação tem a mesma relevância de uma carta contra as drogas assinadas pelo Zé Pequeno, o temido traficante interpretado por Leandro Firmino no filme “Cidade de Deus”. Para ele, o documento, que ele chama de “cartinha”, vale “menos do que papel higiênico”.

Esse “papel higiênico” já tem a assinatura de mais de um milhão de pessoas.

E o que elas dizem é que representantes dos pendores autoritários podem até tentar o golpe, mas não terão as espinhas dobradas em direção às botinas. Pelo contrário: a hostilidade transformará o país num território inabitável e ingovernável. É esse o ambiente de negócios que os saudosos de 64 pretendem criar? Isolando, ainda mais, o país da roda de conversa do tabuleiro internacional? Entrando para o clube das repúblicas das bananas? E com uma anunciada fuga de cérebros e talentos em velocidade inédita mesmo para os padrões brasileiros?

Bolsonaro não é só um orador de caixote que usa o mandato para falar o que quer. É o presidente que só ouve o que lhe condiz.

O único recado das ruas que ele parece disposto a ouvir é só aquele montado para ecoar o que ele mesmo diz. Os papagaios de suas mensagens podem ser muitos. Mas não são a totalidade de um país sobre o qual o presidente eleito com a maioria dos votos reivindica o monopólio dos desejos e intenções.

A carta idealizada pelos juristas do Largo de São Francisco é um duro recado para quem confunde mandato de quatro anos com mandonismo imperial.

Bolsonaro prefere fechar os olhos, narinas e orelhas e gritar lá-lá-lá toda vez que os pais ensaiam uma bronca para que ele saia do quarto e venha fazer a tarefa.

O nível dos ataques ao seu principal adversário, a quem agora passou a se referir apenas como “cachaceiro” e outros encômios, mostra que sob sua influência as eleições terão o design e o conteúdo de uma carteira de quinta série desenhada em estilete.

A aversão demonstrada em ouvir o que não quer é um ensaio do que pretende fazer ao fim das eleições: o recado das urnas só serão aceitas se ele vencer. Caso contrário, o meninão já avisou que vai furar a bola. Se ele não joga, ninguém joga.