Se houver golpe após 7 de Setembro não terá sido sem aviso

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Brazilian President Jair Bolsonaro waves as he joins thousands of fans marching to show their support, in Sao Paulo, on September 7, 2021, on Brazil's Independence Day. - Fighting record-low poll numbers, a weakening economy and a judiciary he says is stacked against him, President Jair Bolsonaro has called huge rallies for Brazilian independence day Tuesday, seeking to fire up his far-right base. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP) (Photo by MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images)
Foto: Miguel Shincariol/AFP (via Getty Images)

Como esperado, Jair Bolsonaro deixou para o fim de tarde a fala mais dura do dia de protestos pelo país.

Pela manhã, ele discursou para apoiadores em Brasília e parecia olhar diante do espelho ao dizer que “nosso país não pode continuar refém de uma ou duas pessoas”.

Depois, pegou aeronave oficial, pago com dinheiro de manifestantes e não manifestantes, para avisar em São Paulo que só sairá da Presidência “preso, morto ou com vitória”.

Ou seja: deu data e hora não para o golpe, mas para o início de um conflito.

Para quem costuma colocar na mesma frase ou linha de raciocínio as palavras "corda esticada", "ruptura" e "fuzis", era mais do que uma ameaça. Era praticamente um refrão de Faroeste Caboclo chamando os opositores (no caso, todos os que ensaiam dar limites aos delírios bolsonaristas) a comparecerem na Ceilândia em frente ao lote 14.

Como esperado (2), Bolsonaro conseguiu a foto que queria na avenida Paulista, onde os atos foram concentrados, para mostrar ao Brasil e ao mundo, como ele mesmo disse, que tinha o povo ao seu lado.

Não tem.

No dia 12, é provável que um número igual ou superior de militantes surjam no mesmo local com uma mensagem diametralmente oposta à ouvida no Dia da Independência.

Em sua segunda fala, diferentemente do discurso da manhã, Bolsonaro também deu nome aos bois.

Na verdade, do “boi” na linha de seus planos para permanecer onde está.

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“Não vamos mais admitir que pessoas como Alexandre de Moraes continuem a açoitar a nossa democracia e desrespeitar a nossa Constituição”, disse o presidente, em referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal que mandou prender os delinquentes que estimularam a violência contra integrantes da Corte.

Num ato nada falho, Bolsonaro se queixou da decisão da Justiça Eleitoral de cortar a irrigação de dinheiro para canais bolsonaristas que proliferavam notícias falsas e criavam as pontes para um Brasil paralelo que só existe na cabeça do capitão e sua turma.

Aparentemente, o golpe no bolso doeu.

Como doeu também o enquadro da Polícia Federal no empresário Jason Miller, ex-assessor de Donald Trump que precisou prestar depoimento ao transitar pelo Aeroporto Internacional de Brasília. Ele foi ouvido no inquérito das manifestações antidemocráticas. Não perca os pontos.

Bolsonaro não perdeu nem esqueceu do episódio em sua fala.

Como não esqueceu da sua obsessão pelo voto impresso, já derrotado pela Câmara.

Ele basicamente condicionou o jogo eleitoral do ano que vem a uma mudança nas regras —as mesmas que o elegeram presidente em 2018 e também sua prole.

Bolsonaro avisou que não vai admitir um “sistema eleitoral que não oferece qualquer segurança” —como se o atual não fosse segura e auditável, como mostram as análises de qualquer autoridade sobre o assunto.

Pouco importa. A derrota do voto impresso já virou o pretexto para minar o campo onde será, ou deveria ser, disputada a campanha eleitoral em 2022.

Como esperado (3), a torcida foi ao delírio com a ameaça do presidente. É por essa plateia que Bolsonaro praticamente disse estar disposto a transformar Brasília numa trincheira em caso de derrota no ano que vem —como ameaçou fazer e quase fez Donald Trump, seu ídolo, nos EUA.

Ele voltou a apostar na confusão ao dizer que “pior que o vírus foram as ações de alguns governadores e prefeitos que ignoraram a Constituição, tolheram a liberdade de expressão e o direito de ir e vir, proibiram vocês de trabalhar e frequentar templos e igrejas”.

Mentira. Quem impediu parte do país de circular foi o coronavírus, que ele jurou ser uma gripezinha e já ceifou a vida de quase 600 mil compatriotas.

Diante de um cercadinho ampliado de apoiadores, Bolsonaro basicamente reciclou as ladainhas que espalhou e continua a espalhar em suas lives de quinta-feira. Deixou só um pouco mais claro que não vai largar o osso, ou o filé, tão fácil.

Na prática, pode apenas ter adiantado em alguns meses o embate ao fim do qual promete só sair morto, preso ou vitorioso. Ao fim da primeira fala, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, convocou reunião extraordinária com a executiva do partido para discutir o impeachment do presidente.

Não será a primeira nem será a última ação de quem já identificou Bolsonaro como a maior ameaça hoje ao país. Razões para atestar que ele não tem condições nem equilíbrio de seguir onde está já existem aos montes. A começar pelo desfecho que ameaça detonar em caso de revés.

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