Por que Bolsonaro age como se tivesse perdido em 2018?

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TOPSHOT - Demonstrators take part in a rally in support of Brazilian President Jair Bolsonaro and calling for a printed vote model at Paulista Avenue in Sao Paulo, Brazil on August 1, 2021. - Thousands of Brazilians took to the streets Sunday to support far-right President Jair Bolsonaro in protest against the country's electronic voting system. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Foto: Neson Almeida/AFP (via Getty Images)

A cada dia que passa, o eleitor parece ganhar mais motivos para pensar que Jair Bolsonaro tinha um plano para o quadriênio 2018-22, com metas, escaladas e ambições. Entre elas não estava a de vencer o pleito de três anos atrás.

Pela lógica, o discurso do presidente que agora coloca em xeque o sistema eleitoral pelo qual se sagrou vencedor faria sentido de fora para dentro. Em caso de derrota, ele passaria quatro anos falando da injustiça com a “vontade da maioria”, supostamente fraudada pelo sistema eletrônico, e alimentaria, com as teorias conspiratórias mais criativas, a raiva de parte dos eleitores que creditaram a ele o papel de mito do salvador —e injustiçado.

O horizonte era propício ao caos.

Donald Trump seria reeleito com um pé nas costas em 2020. Com ele, o populismo de direita ganharia tração para além de Polônia e Hungria.

No terreno doméstico, a Lava Jato e o sistema tradicional seguiriam se despedaçando. Sem sinal de bonança econômica à vista, o eleitor revoltado que apostou em Bolsonaro em 2018 passaria os próximos quatro anos sentado num barril de ódio e frustração que só precisaria de um isqueiro para explodir.

Bolsonaro ganharia sem ganhar.

Teria na atuação dos filhos no Senado (Flávio), na Câmara (Eduardo) e nas redes sociais (Carlos) um eco para trincar todos os telhados de vidro que sobrassem da chamada política tradicional. Provavelmente, se valesse a lógica, com Geraldo Alckmin no comando do país tendo de se equilibrar entre o centrão e o bafo da República de Curitiba.

Quatro anos seriam o suficiente para Bolsonaro usar o recall de 2018 para estruturar seu próprio partido, onde pudesse mandar prender e soltar. Permaneceria em evidência sem precisar colocar o mito à prova. O mito de líder incorruptível, avesso aos conchavos políticos, que governaria com um corpo técnico sem amarras ideológicas ou concessões ao toma-lá-dá-cá.

Se o eleitor estava desenganado em 2018, quatro anos depois estaria com sangue no olho e disposto a matar ou morrer pela causa. Não faltariam cabos, soldados ou voluntários para emparedar quem se colocasse no caminho do caos.

E então veio Adélio Bispo e mudou a história.

Com o atentado sofrido às vésperas das eleições, Bolsonaro não só inverteu a rejeição que o esperava no segundo turno da corrida presidencial, como se tornou o principal cabo eleitoral do país. Quinze dos 27 governadores eleitos declaravam apoio a ele, inclusive o de São Paulo, João Doria (PSDB). E seu PSL, então um partido nanico e sem expressão, se tornou a segunda maior bancada da Câmara.

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Com um pouco de inteligência e boa vontade, e a ajuda da ala bolsonarista de partidos como PSC, Republicanos, PSD, DEM e até PSDB, o presidente teria a faca, o queijo, o apoio parlamentar e a confiança da maioria dos eleitores para colocar seu plano de governo em prática.

Havia só um detalhe. Dois, aliás. Um: não havia plano para o dia seguinte, só um amontoado de aliados e neoaliados que não chegaram unidos até a esquina. A começar pelo vice, Hamilton Mourão, escolhido às pressas e hoje declarado um estorvo, passando por Sergio Moro, militares como Santos Cruz, quadros como Luiz Henrique Mandetta e piadas como Vélez Rodriguez.

O outro detalhe é que inteligência e Bolsonaro na mesma frase é uma contradição em termos.

Antes da metade de sua gestão, o ex-capitão havia conseguido queimar o capital político conferido a ele pelas urnas (eletrônicas, sim) devido às suas obsessões de (mau) aluno de colégio.

A “falta de lógica, racionalidade e equilíbrio” mesclada com a “confusa mescla de ambições, aspirações e valores menores”, já diagnosticada por seus superiores nos tempos do Exército, deixou o ex-capitão em uma encruzilhada quando recebeu a maior chance de sua vida. Governar significava abandonar o flerte com o caos. E sem o caos não sobrava nada do mito preparado apenas para passar os próximos quatro anos como pedra, nunca vidraça.

Até que não sobrasse nada.

Por mais avarias que o sistema político e o Judiciário tenham atravessado, quando Bolsonaro tomou posse, possivelmente quatro anos antes de sua ideia inicial, as instituições estavam atentas e não totalmente enfraquecidas para dar respostas às aventuras autoritárias que já se vislumbravam mundo afora.

Bolsonaro tinha um discurso e um plano, e parece não fazer questão de atualizá-los para um pequeno detalhe de 2018 pra cá: ele venceu as eleições.

E, tendo vencido, a estratégia de aposta no caos se converteu em estratégia de cortar com serrote o galho da árvore em que está sentado desde então.

Era esse som de serrote que era ouvido quando confessava em voz alta, aos parceiros de aventura nos EUA, que não tinha muito o que construir no Brasil, apenas destruir. A gestão catastrófica tanto de Trump quanto de seu fã na pandemia mostrou que o papo era tudo, menos inconsequente.

A experiência da direita populista pelo mundo deixou, por aqui, um alerta para medir a temperatura de um caldo autoritário que engrossava aos poucos, e não com tanques e coturnos.

Talvez a reação aos arroubos autoritários não seja suficiente, mas a derrota não sairá barata. Todos já trincam os dentes.

Trump já havia dado o roteiro antes de ser rejeitado nas urnas, e o copia-e-cola à brasileira não passa de pastiche, embora ainda sedutor para uma parcela do eleitorado que concordaria com Bolsonaro mesmo se ele dissesse que o mar não existe.

As investigações dos atos antidemocráticos e das fake news, que agora colocam o presidente em xeque pela profusão de desinformações e lorotas espalhadas desde que tomou posse, mas principalmente depois que declarou guerra ao sistema eleitoral (contra o qual nunca foi provado qualquer indício de fraude, diga-se), não dá outra opção a Bolsonaro se não subverter a ordem de que a democracia morre aos poucos. O que ele prometeu em sua entrevista à Jovem Pan, na quarta-feira 4, é uma revolta à la século 20. Com água fervente, tanques e coturnos.

Quem topar a aventura de botar o tanque na praça com o capitão precisa estar ciente dos riscos. Que se virem para explicar para os defensores da democracia, os investidores minimamente comprometidos com a estabilidade e a comunidade internacional, já suficientemente preocupada com a devastação patrocinada pelos líderes locais, para explicar durante os próximos 20 anos que as bordoadas de quem ameaça jogar fora das quatro linhas só espocaram para evitar o mal maior.

Todos os que celebraram com ele as vitórias a curto prazo foram engolidos no dia seguinte.

Desse galho cairão todos.

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