Bolsonaro anuncia que eleição 'acabou' e promete se comportar. Dá para confiar?

A supporter of Brazil's President Jair Bolsonaro reacts after Bolsonaro addressed the nation in his first public remarks since losing Sunday's election, while blocking the Presidente Dutra federal road, in Sao Jose dos Campos, Sao Paulo state, Brazil, November 1, 2022. REUTERS/Roosevelt Cassio
Apoiador de Bolsonaro fecha estrada em protesto na rodovia Presidente Dutra em São José dos Campos (SP). Foto: Roosevelt Cassio/Reuters

Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha na quinta-feira (27) mostrou que 46% dos eleitores diziam nunca confiar em nenhuma declaração de Jair Bolsonaro (PL).

Não se sabe qual é o índice de desconfiança entre os ministros do Supremo Tribunal Federal, mas ao menos um deles jura ter ouvido do próprio, em um encontro em Brasília na terça-feira (1º), que a eleição acabou e agora é hora de cuidar da transição.

Desconfio que ao menos 46% dos brasileiros não dormiram nem um pouco mais tranquilos por isso.

Depois de um sumiço de quase dois dias, o presidente ressurgiu para fazer um pronunciamento de dois minutos repleto de ambiguidades -- e que pode ser lido de formas distintas.

Incapaz de reconhecer a derrota e/ou citar o nome do ex-presidente Lula (PT) diante das câmeras, Bolsonaro fingiu condenar os movimentos golpistas espalhados pelo país dizendo entender que “movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça, de como se deu o processo eleitoral”.

Reparem que Bolsonaro dessa vez não falou em fraudes, mas em “injustiças”.

Não detalhou a que tipo de injustiça se refere (seria a tentativa de compra de votos por um prefeito bolsonarista em Coronel Sapucaia-MS, como mostrou Caco Barcellos na TV Globo?) e, ao fazer isso, terceirizou a interpretação de texto para cada um.

Alguns resolveram transformar a indignação em ação e estão trancando as rodovias pelo país. Tudo isso alimentado por um presidente ainda em exercício que, em vez de derrota, solta a palavra “injustiça” em uma frase enigmática que sequer pronuncia como e o que ele contesta na forma como “se deu o processo eleitoral”.

Bolsonaro, até onde se sabe, esperava um grande movimento popular pelas ruas para poder dizer “daqui não saio, é o povo quem está pedindo”.

Não foi exatamente o que aconteceu. Pelo contrário: a truculência de quem resolveu sequestrar as vias públicas e só soltar quando forem atendidos os pedidos de intervenção militar deixou o presidente em maus lençóis, com risco de perda de apoio até de quem votou nele porque sempre temeu uma suposta onda de manifestações promovidas por sem-terra, sem-teto, estudantes e demais movimentos populares.

Bolsonaro conclamou os apoiadores a se manifestarem pacificamente, deixando para cada um a tal liberdade de escolher até onde vai o pacifismo e até onde começa a baderna. No primeiro pneu incendiado? Ou apenas quando resolverem recorrer com armas às ordens cumpridas pelos agentes de segurança para liberar as vias públicas? (Afinal, povo armado jamais será escravizado, entendem alguns, como Roberto Jefferson).

É preciso muito esforço para compreender como um puxão de orelha o que disse o presidente sobre os manifestantes que ameaçavam a liberdade de ir e vir de quem transitava pelas vias públicas.

Parecendo contrariado e sem responder perguntas da imprensa, Bolsonaro prometeu cumprir a Constituição e não falou diretamente em rebelião.

Mas tudo pode ser apenas um jogo de cena de quem pode e muito até janeiro.

Buzinaços em seu apoio foram registrados em cidades como Campinas (SP) no feriado de finados (2), numa demonstração de que sua base mais radical não pretende deixar as ruas tão cedo – muito menos quando começar o governo Lula (PT), de quem esperarão o primeiro espirro para tentar tirá-lo de lá.

Pode-se dizer que Bolsonaro mostrou sua estatura ao evitar dizer com todas as palavras o que se espera de um presidente em momentos como o atual. Mas nada disso é novidade para quem transformou a mesquinharia em ativo político.

Contra Bolsonaro pesam o isolamento e a rápida manifestação de líderes estrangeiros, do Congresso e do Judiciário em reconhecer o resultado do pleito. O resto é choro de perdedor.

Escalado para iniciar a transição, Ciro Nogueira (PP-PI) já fala em nome do presidente, que promete sair de cena com um legado a cuidar e sem promover ou estimular nenhum incêndio. Alguém confia?