Bolsonaro aproveitará discurso da ONU para reforçar campanha na reta final

Presidente Jair Bolsonaro discursa na ONU em 2021

Por Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - Pressionado a duas semanas do primeiro turno, o presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), vai usar as viagens internacionais, com destaque para o discurso de abertura na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, para reforçar sua campanha na reta final.

Em Nova York, na ONU, Bolsonaro deverá exaltar o legado do seu mandato, com destaque ao desempenho da economia brasileira, disse à Reuters uma fonte da campanha. A expectativa é que faça um discurso para fora da bolha bolsonarista.

O próprio presidente confirmou, em comício eleitoral em Londrina (PR) à noite, que pretende vender a imagem do país em seu discurso na ONU, e pediu aos apoiadores que assistam.

"Na segunda-feira irei para os Estados Unidos, onde farei um pronunciamento por ocasião da abertura dos trabalhos da ONU. Assistam. Será um pronunciamento onde estarei voltado basicamente para o nosso Brasil, mostrando a nossa potencialidade e o que representamos para o mundo", afirmou.

Depois de um começo de ano ruim, o presidente tem neste momento bons números para apresentar no lado econômico. Após meses de forte inflação, o Brasil registrou em julho e agosto deflação, em grande parte devido à queda dos preços dos combustíveis, causada pelo corte de impostos no país e pelo recuo dos preços no mercado internacional do petróleo.

Ao mesmo tempo, embora ainda alto, o desemprego vem caindo e as estimativas para o crescimento da economia este ano foram revistas para cima após expansão do PIB maior do que o esperado no segundo trimestre

A fala deverá ser usada por Bolsonaro em seus programas de rádio e TV, conforme a fonte, com o objetivo de impulsionar o presidente mostrando-o como um "estadista", o que, se espera, será reforçado pela viagem a Londres. Antes da ida à ONU, o presidente vai ao funeral da rainha Elizabeth 2ª.

Essas agendas internacionais estão sendo costuradas com extremo cuidado, segundo a fonte, para mostrar que o presidente tem respaldo internacional e não está isolado diplomaticamente.

PESQUISAS

Em outra frente, o discurso é de rechaçar o resultado das últimas pesquisas eleitorais, segundo duas fontes da campanha, com o objetivo de manter a base mais aguerrida mobilizada na reta final para o primeiro turno.

As sondagens eleitorais têm mostrado um quadro estável com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente de Bolsonaro, mesmo após as manifestações do 7 de Setembro e ações do governo como a PEC dos Benefícios que turbinou o Auxílio Brasil.

Nessa tática, inclusive, Bolsonaro tem repetido em seus discursos que vai vencer no primeiro turno, o que foi divulgado também em vídeo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um de seus filhos e um dos coordenadores da campanha à reeleição.

Uma das fontes disse que o trabalho principal vai ser buscar ampliar o desgaste de Lula e assim eliminar qualquer chance de que a busca do adversário pelo voto útil possa liquidar a eleição na primeira rodada de votação. O trabalho é para, ocorrendo o segundo turno, tentar virar o jogo incentivando o antipetismo.

Na quinta-feira, em linha com a estratégia de desgastar o adversário, a campanha de Bolsonaro levou ao ar uma dura peça de propaganda em que cita a situação de Lula na Lava Jato e afirma que ele está mentindo, que não foi inocentado e, sim, será julgado por uma outra jurisdição do Poder Judiciário.

Efetivamente, no entanto, Lula foi inocentado de algumas acusações, enquanto outros processos estão suspensos.

Nas duas últimas semanas para o primeiro turno, segundo uma das fontes, Bolsonaro vai buscar reforçar agendas no Sudeste --onde está concentrada a maior fatia do eleitorado-- e também no Nordeste, principal base eleitoral de Lula e do pedetista Ciro Gomes.

(Reportagem de Ricardo Brito; Reportagem adicional de Maria Carolina Marcello)