Bolsonaro ataca jornalistas e nega estremecimento de relação com China e Índia: "Nada mudou"

Marcelo Freire
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Presidente Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 21 de janeiro (Reprodução)
Presidente Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 21 de janeiro (Reprodução)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se defendeu de críticas e negou, nesta quinta-feira (21), que tenha havido um estremecimento das relações do Brasil com China e Índia.

O atraso de envios ao Brasil de vacinas da Oxford/AstraZeneca, no caso da Índia, e de insumos utilizados para a produção dos imunizantes, oriundos da China, teria sido motivado por problemas de diplomacia do governo Bolsonaro com esses países, segundo informações publicadas em alguns veículos de imprensa.

A China, por exemplo, já recebeu críticas e ironias de Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente, e Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação, em questões tanto ideológicas quanto de saúde – Araújo, por exemplo, chegou a apelidar o coronavírus de "comunavírus", em alusão ao regime chinês.

Bolsonaro, que estava acompanhado por Ernesto Araújo e também pelo ministro dos Transportes, Tarcísio Gomes de Freitas, em sua live semanal nesta quinta-feira, reproduziu um áudio de William Bonner no Jornal Nacional onde o jornalista afirma que Bolsonaro e Araújo "minaram as relações" China e Índia.

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O presidente respondeu, primeiro, ironizando Bonner, afirmando que ele ganha "o dobro da Renata [Vasconcelos, apresentadora do Jornal Nacional]", e dizendo ter sido a única autoridade convidada para uma comemoração anual na Índia, em janeiro do ano passado. "Temos um excelente relacionamento, nada mudou. E vem o Bonner mentir, com aquela cara de pastel dele, cara de que é o último a saber das coisas, falar que eu minei as relações?", disse Bolsonaro. "Com a China é a mesma coisa, não há problema nenhum."

Na sequência, o presidente afirmou que conversou reservadamente com o premiê chinês, Xi Jinping, no ano passado, e com o embaixador indiano no Brasil, Suresh K. Reddy, nesta semana, o que, segundo Bolsonaro, mostra que não há estremecimento na relação com os países.

O atraso chinês para o envio de insumos da vacina ocorreu por questões burocráticas, segundo Bolsonaro e Araújo. "Não é nada de político, como alguns falaram, como o Bonner falou. Pare de mentir. Isso atrapalha o Brasil. Eu tenho vergonha de vocês fazerem jornalismo dessa maneira", atacou o presidente.

Em outro momento, Bolsonaro negou que o governo da China teria pedido a saída de Ernesto Araújo da chefia do Itamaraty, conforme publicado por alguns veículos. "Quem demite ministro sou eu. Ninguém me procurou e nem me procuraria. Assim como nós não faríamos isso com nenhum outro país, jamais um país faria isso com a gente", disse o presidente.

Na sequência, Araújo afirmou que esse tipo de pedido "não existe em países soberanos" e voltou a criticar Bonner. "Tem gente que quer ver uma crise, criar invenções onde não existe, e quando vem a realidade e desmente, continua insistindo e redobrando a mentira. Como esse caso do William Bonner, que falou que temos más relações com a Índia e com a China. Estamos provando que não, e sobre a Índia, estamos trazendo as vacinas", disse o ministro.

"Falam que o Brasil precisa da China, mas a China precisa da gente", acrescentou Bolsonaro. "Ou você acha que eles compram soja para jogar fora? Eles compram porque precisam", disse o presidente, afirmando que o país asiático deverá passar por um crescimento populacional.

"Qualquer relação entre países do mundo tem interesse. Não existe amor. Um quer comprar e o outro quer vender. A China tem interesse no Brasil. O Brasil é um grande celeiro do mundo", disse o presidente.

Bolsonaro nega ter decretado sigilo sobre sua carteira de vacinação

Na transmissão, Bolsonaro negou ter decretado um sigilo de 100 anos sobre as informações contidas em sua carteira de vacinação, conforme publicado pela revista Época. A revista solicitou os dados via Lei de Acesso à Informação, citando declarações contrárias do presidente à vacina contra a covid-19 e suas afirmações, ditas em semanas anteriores, de que não se imunizará contra o vírus.

"Não tem decreto, não existe isso no Diário Oficial da União. A revista faz isso para sacanear, dizer que sou negacionista, que não tomo a vacina. Estou com a minha carteira de vacina em dia. Tem países que exigem certas vacinas e se você não tomar, você não entra. É mentira em cima de mentira", respondeu.

Na sequência, Bolsonaro chamou o jornalista que publicou a reportagem de "paspalhão" e fez ironias. "Querem saber o quê? Minha marca de sabonete? Minha marca de desodorante? Realmente, é uma piada."

Apesar dos comentários, Bolsonaro não falou, durante a transmissão, se irá tomar ou não a vacina contra a covid-19.

Ainda sobre a vacina, o presidente voltou a dizer que o governo federal disponibilizará o imunizante "de forma gratuita e não obrigatória". Em seguida, disse que ainda está decidindo, junto com seus irmãos, sobre a possibilidade de sua mãe, Olinda, tomar a vacina. Ela, que tem 93 anos, seria um dos grupos de prioridade de acordo com o Plano Nacional de Imunização.

"Nós vamos decidir isso, e você deve fazer a mesma coisa. Leia a bula e decida [sobre tomar ou não a vacina]", disse Bolsonaro.

Bolsonaro faz ironia sobre doação venezuelana de oxigênio

Logo no começo da live, Bolsonaro falou sobre a doação de cilindros que a Venezuela fez para Manaus, capital do Amazonas, que vive um colapso em seu sistema de saúde. O presidente ironizou o líder venezuelano, Nicolas Maduro, e disse que a doação foi feita por uma empresa particular que tem sede na Venezuela – essa afirmação do presidente é falsa, segundo agências de checagem, que esclareceram que houve sim uma doação de cilindros feita por uma estatal venezuelana.

"O pessoal está batendo em mim falando que o Maduro deu oxigênio para o Brasil. Se o Maduro quiser dar oxigênio, carne, que está sobrando, mantimentos, é bem-vindo. Afinal de contas, recebemos dezenas de milhares de venezuelanos no Brasil. O pessoal está fugindo de lá", disse o presidente – que, mais tarde, afirmou que "não existe mais cachorro e gatos" na Venezuela "porque o pessoal comeu tudo".

Em outro momento, o presidente e o ministro das Relações Exteriores foram questionados sobre quais ações o Brasil poderia ter em relação à Venezuela em 2021. Bolsonaro disse que "conversou demoradamente" com Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, sobre o impasse diplomático em relação à Venezuela.

"Não é fácil a solução. Nós sentimos muito, porque nossos irmãos perderam a liberdade, o poder aquisitivo, grande parte está em uma miséria enorme. Gostaria que tudo se solucionasse, mas a gente sabe que uma ditadura, uma vez instalada, dificilmente ela se desfaz", comentou o presidente.

Bolsonaro ainda acrescentou que, no Brasil, as Forças Armadas estão comprometidas com a democracia e a liberdade e "jamais aceitariam o convite de uma autoridade de plantão, no caso o presidente da República, a enviesar para um caminho diferente da liberdade". "Lá [na Venezuela], elas foram cooptadas e nós sabemos o que aconteceu."

Bolsonaro não comenta saída dos EUA de aliança contra o aborto

Bolsonaro e Ernesto Araújo ainda foram questionados sobre as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos com a chegada do democrata Joe Biden ao poder, substituindo Trump.

Perguntado especificamente sobre a decisão de Biden de deixar a aliança mundial antiaborto – uma política do ex-presidente Trump e que tinha apoio de países que têm governos conservadores, como Brasil e Hungria –, Bolsonaro afirmou que não comentaria "a política externa de outro país".

Araújo, por sua vez, respondeu que a relação entre Brasil e EUA "tem tudo para ser excelente". "São muitas coisas em comum: interesses na segurança, promoção da democracia na América do Sul, interesse econômico", disse o ministro das Relações Exteriores.