‘Bolsonaro ataca as urnas para questionar o resultado da eleição’, diz diplomata americano Thomas Shannon

Poucos diplomatas americanos conhecem tão bem o Brasil como Thomas Shannon, que, quase dez anos após ter deixado a embaixada em Brasília, está informado sobre a política do país como se continuasse no comando da sede diplomática. Em entrevista ao GLOBO, a primeira de uma série com analistas internacionais, o ex-subsecretário do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado expressou preocupação pelos ataques do presidente Jair Bolsonaro às urnas eletrônicas e a ministros das Cortes superiores e saiu em defesa do processo eleitoral brasileiro — “guiou o país pacificamente nas últimas décadas”, ressaltou. Ao analisar o encontro recente entre Joe Biden e o chefe do Executivo brasileiro, ele, que se aposentou há quatro anos da carreira diplomática, diz que a reunião é um sinal de que os EUA querem uma relação “produtiva”, mas sem demonstrar preferências eleitorais.

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Qual é a importância da eleição brasileira para a região, incluído os Estados Unidos?

Todas as eleições, quando são realizadas adequadamente, são uma expressão do desejo popular. Não cabe aos Estados Unidos, ou a nenhum outro país, determinar qual deveria ser esse desejo popular. Isso depende dos brasileiros. O importante não é tanto o resultado da eleição, mas como será conduzida, percebida e entendida no Brasil. O Brasil tem uma trajetória democrática destacada, desde sua redemocratização, nos anos 80. As instituições demonstraram grande resiliência, e também uma capacidade de se adaptar a mudanças de circunstâncias políticas. Isso deve ser parabenizado. Mas, realmente, pela primeira vez o Brasil enfrenta questionamentos sobre a integridade de seu sistema eleitoral, e esses questionamentos estão sendo apontados pelo atual governo. Para mim, isso pode ter apenas um propósito.

Qual seria esse propósito?

Questionar o resultado da eleição.

Isso preocupa a comunidade internacional?

Claro que sim. Porque a verdade de tudo isso é que o sistema eleitoral brasileiro tem funcionado bem ao longo do tempo. Por ser um sistema nacional, e por ser eletrônico, os resultados são divulgados com rapidez, e isso é importante para uma democracia. Questionar o sistema eleitoral é um erro. Quando falamos sobre a importância da eleição para a região e o mundo, as pessoas vão observar se o que começou nos Estados Unidos, em 6 de janeiro (de 2021) vai continuar. (Apoiadores de Donald Trump, então presidente, invadiram o Capitólio, em uma tentativa fracassada de reverter a derrota dele na eleição. O caso está sendo investigado no Congresso americano)

O senhor faz um paralelismo entre ambas as eleições?

Sim, correto.

Algo parecido ao que aconteceu nos EUA poderia acontecer no Brasil?

Acho que sim, e acredito que o presidente Bolsonaro e pessoas que estão ao redor dele estudaram os resultados de 6 de janeiro em detalhe, para determinar por que Trump falhou (no plano de desconhecer o resultado da eleição). Eduardo Bolsonaro estava aqui (nos EUA, na ocasião) e continua em contato com Trump e pessoas próximas a ele. Não posso dizer mais do que isso. A eleição brasileira é importante para o mundo, e acredito que a estabilidade política brasileira dependerá dela.

Em recente encontro com embaixadores estrangeiros, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro atacou novamente o sistema eleitoral e representantes do Poder Judiciário.

Os EUA observam faz tempo e com grande interesse e atenção o desenvolvimento do sistema eleitoral brasileiro. É um sistema que guiou o Brasil pacificamente ao longo das últimas quatro décadas, e ganhou o respeito da comunidade internacional. É um grave erro questionar este sistema com propósitos políticos.

Os presidentes Joe Biden e Jair Bolsonaro se encontraram na cúpula das Américas, em junho passado, em Los Angeles. Como o senhor avalia esse encontro?

Acho que foi importante que tenham se encontrado pela primeira vez. Os dois países são muito próximos e muito importantes mutuamente para permitir-se que não exista engajamento entre seus Executivos. Foi um claro sinal de que a administração de Biden quer ter uma relação produtiva com o Brasil, independentemente do resultado. Os EUA querem evitar ser uma questão na eleição, não querem aparecer mostrando qualquer tipo de preferência.

Existe expectativa nos EUA sobre a eleição brasileira?

A invasão da Ucrânia por parte da Rússia ocupa muito espaço, assim como questões econômicas e políticas internas, entre elas a inflação. Mas para quem conhece a América Latina e está familiarizado com o Brasil, sim, é uma grande questão. Não tanto em função de quem ganhe ou quem perca, mas pelo fato de que deve ser aceita como uma eleição legítima. Essa é a questão.

O senhor foi embaixador no Brasil. Alguma vez imaginou uma eleição desafiadora como a que o país está vivendo, em termos de democracia?

Em termos do sistema eleitoral, não. Mas estive no Brasil no início das manifestações (de 2013), e era evidente que as transformações sociais e econômicas que tinham acontecido tinham sido tão rápidas, que o sistema político não tinha tido tempo de se adaptar. Eu sabia que a democracia brasileira deveria mudar, como uma cobra que muda de pele, para adaptar-se às mudanças sociais e econômicas. Nunca tive dúvidas de que o Brasil encontraria uma solução democrática para estes desafios, e ainda acredito que as instituições democráticas do Brasil são fortes.

Fica surpreso ao ver a identificação de brasileiros com a direita e a extrema direita, como mostraram recentes pesquisas?

Não. Primeiro, porque o Brasil é realmente uma sociedade conservadora. Pode não parecer ser se você está no carnaval, no Rio. Mas é uma sociedade conservadora, especialmente em matéria de valores sociais e culturais. Segundo, voltando às transformações sociais e econômicas, o Brasil criou, nas Presidências de Fernando Henrique Cardoso e Lula, uma classe média que chegou a ser quase a metade do país. Mas são pessoas que atribuem seu sucesso econômico a seu próprio trabalho, e tendem a ser muito conservadoras, especialmente quando observam um governo que aplica impostos elevados, mas não conseguiu lidar com a corrupção e teve dificuldades para entregar. Outra questão é o impacto dos evangélicos, sobretudo nas periferias. As igrejas evangélicas injetaram e reforçaram um conservadorismo na sociedade, que se traduz politicamente. A questão aqui não é esquerda ou direita, a política dos países muda com o tempo. A questão é a resiliência das instituições que devem lidar com uma sociedade que está mudando dramaticamente.

Tratando de conceitos detalhados por dois cientistas políticos, Larry Diamond fala sobre recessão democrática, e Steven Levitsky, sobre como as democracias morrem. Essas visões são muito dramáticas?

Minha opinião é de que eles têm uma visão da democracia que considero superada. Sociedades mudam, e mudanças políticas sempre acontecem depois de mudanças sociais e econômicas. Sempre existe resistência no sistema político para mudar. Acho que nos EUA, por exemplo, se você observar a última eleição, votaram mais pessoas do que em qualquer outra eleição desde 1900. Tememos por nossa democracia, mas, ao mesmo tempo, podemos estar à beira de uma mudança maior, e de uma democratização maior de nossa sociedade. Não significa que não estejamos enfrentando tempos difíceis. Mas acho que, em muitos sentidos, o bem-estar da democracia dependerá da efetividade dos governos.

O que o senhor espera em relação ao Brasil, após a eleição?

Meu desejo é que esta eleição seja vista como livre, justa e válida, e que o resultado seja aceito por todos os brasileiros. Espero que o novo governo possa enfrentar os verdadeiros desafios que o Brasil enfrenta, como reconstruir sua economia e seu papel no mundo. Vou contar uma história, de quando Lula veio a Washington, após ter sido eleito, mas antes de assumir. O presidente era George W. Bush. A praxe era de que presidentes eleitos fossem recebidos pelo Assessor Nacional de Segurança. Lula foi convidado por Condolezza Rice, mas Bush decidiu quebrar o protocolo e o convidou para um encontro no Salão Oval. Lula entrou usando um pin do PT em sua camisa, uma estrela vermelha. Bush apontou para a estrela e perguntou o que era. Lula disse que era o símbolo de seu partido, e Bush respondeu que quando era candidato usava um elefante republicano em sua lapela, porque era o candidato do Partido Republicano. Mas disse que, na condição de presidente, usava apenas uma bandeira dos EUA. Se você observar fotos posteriores ao encontro, Lula está com a bandeira brasileira. Acho que quem ganhar a eleição, seja quem for, deve usar a bandeira do Brasil.

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