Patadas de Bolsonaro acertam nações vizinhas e criam novo estresse diplomático

Brazil's President Jair Bolsonaro, presidential candidate of the Liberal Party (PL), participates in the first Presidential Debate ahead of the national election, in Sao Paulo, Brazil, August 28, 2022. REUTERS/Carla Carniel
Jair Bolsonaro, durante debate na Band. Foto: Carla Carniel/Reuters

Em pouco mais de três anos e meio de mandato, não foram raras as vezes em que Jair Bolsonaro (PL) se esqueceu de que era o presidente da República e, como tal, deveria…agir como tal.

Um desses momentos aconteceu durante o debate da TV Bandeirantes, no domingo (28).

Em suas considerações finais, o candidato à reeleição ignorou que ainda vestia a faixa presidencial e ampliou em algumas jardas o alcance das ofensas dirigidas contra seus adversários. As patadas chegaram a Buenos Aires, Bogotá e Santiago.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Atrás do ex-presidente Lula (PT) nas pesquisas, Bolsonaro adotou como tática o discurso de que no Brasil a vida não está fácil para ninguém, mas não há nada que não possa piorar. A ideia é se safar de questionamentos sobre a situação política e econômica no campo doméstico desviando as atenções para os problemas das nações vizinhas dizendo: "eles somos nós amanhã".

A Argentina, que enfrenta perrengues graves com uma crise política aguda e uma escalada inflacionária, virou a bola da vez. Seu atual presidente, Alberto Fernandez, é amigo de Lula, a quem visitou na prisão, em Curitiba (PR), quando ainda era candidato em seu país. Lula retribuiu a visita ao já presidente eleito da Argentina em dezembro de 2021.

“Hoje, 40% da população da Argentina está na linha da miséria”, mentiu Bolsonaro na TV.

O índice real é de 10,5%, enquanto 42% dos argentinos encontram-se em situação de pobreza —e não de miséria.

Falar dos problemas do país vizinho é uma forma de Bolsonaro convencer o eleitor a revisar o eventual apoio ao adversário petista pela tática do medo.

Em entrevistas, Bolsonaro já disse temer que o Rio Grande do Sul se torne destino de argentinos empobrecidos, como acontece em Roraima, estado que faz fronteira com a Venezuela.

As menções à ditadura de Maduro, assim como a da Nicarágua, são recorrentes nos discursos do presidente. A novidade é que agora ele decidiu colocar todos os vizinhos que elegeram candidatos do campo progressista no mesmo balaio.

Em sua fala, Bolsonaro atacou gratuitamente o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ao dizer que seu país estava adotando medidas para liberação de drogas e de presos (Petro, na verdade, tem defendido uma nova abordagem à chamada guerra às drogas, que há décadas provoca um morticínio no país sem reduzir o problema central).

O capitão atacou também o presidente chileno, Gabriel Boric, a quem acusou de “tocar fogo em metrôs lá no Chile”. “Para onde está indo o nosso Chile?”

Boric nunca “tacou” fogo em metrô. Ele esteve à frente de protestos que levaram um país inteiro a discutir a elaboração de uma nova constituição. Algumas estações foram vandalizadas, mas não por ação ou a mando do atual mandatário.

O governo vizinho não deixou barato e convocou o embaixador do Brasil em Santiago, Paulo Soares Pacheco –na linguagem diplomática, trata-se de uma espécie de puxão de orelha que precede medidas mais duras.

"Consideramos essas acusações gravíssimas. Obviamente são absolutamente falsas e lamentamos que em um contexto eleitoral as relações bilaterais sejam aproveitadas e polarizadas por meio da desinformação e das notícias falsas", disse a ministra das Relações Exteriores do Chile, Antonia Urrejola.

O estrago estava feito e ajudou a ampliar, também por algumas jardas, o isolamento do Brasil.

Como eleitor e cidadão, Bolsonaro tem direito de pensar o que quiser das ideias dos chefes de governo da vizinhança; como chefe da nação, tem a obrigação de zelar por relações harmoniosas que transcendem, ou deveriam transcender, preferências ideológicas, inclusive para não colocar em risco acordos diplomáticos e comerciais.

A declaração do candidato (e ainda presidente) foi duramente atacada pelos veículos de imprensa locais.

O uso do pronome possessivo na primeira do plural ao se referir a outras nações (“nossa Argentina”, “nossa Colômbia”, “nosso Chile”) virou piada, mas também deixou evidente a postura colonizadora do (ainda) chefe de Estado brasileiro.

Bolsonaro tem dito em sua campanha que não existem nações amigas, mas apenas relações costuradas por interesses econômicos.

Paulo Guedes, ministro da Economia, parece tão convertido à cartilha do chefe que se sente à vontade para chamar o maior parceiro comercial do país de “chinesada” e dizer que não quer seus habitantes “entrando aqui e acabando com nossas fábricas”.

Quando um time está perdendo o jogo, é normal observar uma desorganização tática em campo, que muitas vezes se revela no desespero de quem bota toda a defesa no ataque na tentativa de conseguir alguma coisa e sob o risco de desguarnecer ainda mais a própria meta.

Bolsonaro não está preocupado com isso.

Segue queimando pontes, tratando nações vizinhas como adversários e adversários como inimigos na tentativa tresloucada de provar que, se não for ele, ninguém que vai fazer você feliz.

Se tudo der certo (para ele), o dia seguinte à virtual vitória terá como herança um país ainda mais isolado e longe do respeito e da admiração da comunidade internacional.