550 mil mortes. Mas o foco de Bolsonaro e cia é melar a eleição

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Brazil's President Jair Bolsonaro talks with his chief of staff, Army General Walter Souza Braga Netto, during a ceremony to announce a mass coronavirus disease (COVID-19) immunization program, at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, December 16, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino
Jair Bolsonaro e seu ministro da Defesa, Braga Netto. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Jair Bolsonaro pode não ter feito muito pelo país em sua jornada como dublê de presidente, mas para a língua portuguesa sua passagem pelo Palácio do Planalto tem sido, no mínimo, frutífera.

O esperneio em relação a uma eleição da qual saiu vitorioso há dois anos e meio é uma contribuição generosa aos nossos dicionários. Bolsonaro inventou o “choro de vencedor”.

Como sempre, o futebol ajuda a visualizar o impasse.

Há algumas semanas, a seleção argentina de futebol venceu o Brasil na final da Copa América e encerrou um jejum de 28 anos sem títulos. 

Agora imagine, ao fim do jogo, se o capitão da equipe, após a consagração, sentasse em cima da bola, chamasse uma coletiva, dissesse que o campeonato foi roubado e passasse os próximos quatro anos dizendo que, sem uma disputa limpa, com bola de couro, pesada, como no passado, não haverá Copa América na próxima edição.

Como assim? Sujeito acaba de ganhar um campeonato e está dizendo que não valeu? O que ele quer?

Loucura, não? Pois uma coisa é ser derrotado e sair de campo culpando o juiz, a imprensa, a deslealdade de adversários para justificar o fiasco. Outra é fazer tudo isso com a taça debaixo do braço.

Ou a faixa presidencial no peito.

Jair Bolsonaro tem desfilado seu choro de vencedor desde que foi eleito.

Em 2018, ele bateu Fernando Haddad (PT) no segundo turno e ajudou a eleger 15 dos 27 governadores do país.

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O PSL, que em 2014 elegeu apenas um deputado, deu abrigo ao ex-capitão e em 2018 se tornou a segunda maior bancada da Casa, com 52 parlamentares.

Não é que Bolsonaro ganhou em 2018. Ele ganhou de goleada.

Tinha quatro anos para usar o capital político depositado nele, mas preferiu chutar a urna. Já tem quase três anos no posto e ainda está ocupado procurando o erro no sistema que o levou até ali.

E ameaça: com essa urna supostamente fajuta, a mesma que o elegeu, não vai ter disputa no ano que vem.

Faz sentido?

Faz.

Bolsonaro não está preocupado com as urnas.

Para ele, tanto faz se a disputa for eletrônica, no papel, em raio laser ou em origami.

Seu problema não é o meio em que a disputa se dará. É a perspectiva de derrota que se avizinha.

Ele sabe que foi eleito em circunstâncias extraordinárias com um holograma, ou mito, que não tinha corpo nem consistência.

Na vida real, quando a mitologia precisa arregaçar as mangas fora do Twitter, Bolsonaro é só uma versão piorada do “centrão”, a quem agora oferece abrigo depois de décadas vivendo à sua sombra.

Um governo que combate a corrupção, que não rouba nem deixa roubar, que não intervém no livre mercado, que privilegia o conhecimento técnico em vez do alinhamento ideológico, que não se rende ao toma-lá-dá-cá e que colocaria o país, e não interesses mesquinhos, acima de tudo. Nenhuma dessas promessas ficou de pé após a vitória em 2018.

Por isso, para ele e a turma que subiu a rampa, não interessa ter campeonato no ano que vem. Melhor furar a bola e reivindicar o título de campeão vitalício.

Na nota para supostamente desmentir uma reportagem do Estadão na qual ameaçava não ter eleição sem voto impresso em 2022, o ministro da Defesa, Braga Netto, chamou de legítima a intenção de furar a bola.

Com aviso de tantos meses com antecedência, a dúvida não é mais sobre as pretensões golpistas dos vencedores da última eleição, mas quem estará com eles ou não. O racha, manifestado pela fala do vice-presidente, Hamilton Mourão, segundo quem vai ter eleição e pronto, vença quem vencer, está evidente.

Nada mais alegórico da tragédia atual: no momento em que o Brasil, um país a ser reconstruído, crava 550 mil mortes na pandemia, o foco de Bolsonaro e seus vassalos é tumultuar uma eleição que sequer aconteceu.

O choro do vencedor é o prenúncio da derrota que não se quer aceitar. Quando mais Bolsonaro e ministros apostam na quartelada, mais expõem o despreparo para os desafios do presente.

Em 1964, com a desculpa de que se preocupavam com a democracia e a liberdade no Brasil, os militares tomaram o poder com o apoio de quem pedia um freio de arrumação nacional para que houvesse eleições limpas no ano seguinte. O país que precisava ser tutelado só reconquistou o direito de eleger presidente pelo voto direto 25 anos depois.

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