Bundão? Com pesquisas e autoestima em alta, Bolsonaro volta a ser o que sempre foi

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BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 24: Jair Bolsonaro, President of Brazil, looks on wearing a protective mask before the "Brazil Vencendo a COVID" (Brazil overcomingo COVID) event amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on August 24, 2020 in Brasilia. Bolsonaro defended the use of chloroquine in the treatment of coronovirus. Brazil has over 3.582,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 114,474 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro durante o evento "Brasil vencendo a covid (sic)". Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Jair Bolsonaro mirou no que viu e acertou de novo no que não viu ao dizer que quando um bundão de nós, jornalistas, pega covid-19, a chance de sobreviver é menor do que a dele, um ex-atleta das Forças Armadas que contraiu e sobreviveu ao coronavírus.

Enquanto falava, o Brasil que prometeu colocar acima de todos contabilizava 115 mil mortes na pandemia. E daí? Quem mandou ser bundão? Quem mandou não ter porte de atleta?

A frase tem aspectos reveladores, como o raciocínio de traços eugênicos de quem confunde saúde pública com lei do mais forte, na qual só os mais aptos podem e devem sobreviver — o resto é “só” velho, doente ou budão.

A declaração mostra também que Bolsonaro está com a autoestima em alta após pesquisa Datafolha apontar que sua aprovação subiu no momento mais agudo da pandemia. Essa moral se deve, em parte, ao auxílio emergencial que o governo foi obrigado a distribuir por pressão da própria sociedade e dos parlamentares que vitaminaram a mixuruca de R$ 200 que ele queria oferecer aos mais afetados pela crise.

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Pois autoestima na mão de Bolsonaro é vendaval. “Aquela história de atleta, né, que o pessoal da imprensa vai para o deboche, mas quando pega (covid-19) num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”, disse Bolsonaro.

A fantasia do presidente paz e amor, que o próprio filho Flávio Bolsonaro disse ter vindo para ficar, foi rasgada na primeira lufada de ar ganha após a prisão do amigo e ex-assessor Fabrício Queiroz na casa do advogado da família em Atibaia (SP).

Desde então, Bolsonaro andava evitando a luz do sol, atribuindo à covid-19 o período de reclusão, sem atender a imprensa ou enriquecer seu anedotário de bobagens.

Ele se recolhia conforme avançavam as investigações sobre o suposto esquema de rachadinha praticado pelo primeiro filho em seus tempos de deputado na Assembleia Legislativa do Rio. Essas investigações identificaram depósitos de R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, sobre os quais ele nada tinha a dizer ao ser questionado por um repórter do jornal O Globo, a quem deu como resposta apenas a vontade de encher a cara de porrada. Haja coragem para fugir de uma pergunta assim.

Foi assim durante quase toda a campanha, quando Bolsonaro alegava motivos de saúde para fugir da briga toda vez que era chamado ao debate. Saúde que não faltou, dias depois, ao entregar a taça aos jogadores do Palmeiras quando seu time do coração se sagrou campeão brasileiro em 2018.

Bolsonaro tinha à disposição um verdadeiro hospital particular para tratar sua infecção quando declarou estar com covid, enquanto parte da população agonizava à espera de leito hospitalar graças à explosão da curva da contaminação que ele não moveu um dedo para achatar, com medo do colapso na economia que viria de todo jeito.

Ele lavou as mãos e se faz de desentendido, jogando para prefeitos e municípios a responsabilidade pelo morticínio que ele estimulou e desdenhou desde o princípio. Num exercício que beira o surrealismo, quer agora dizer que só houve tantas mortes porque os pacientes foram privados de serem tratados com um medicamento cuja eficácia até hoje não foi comprovada, ainda que na lista de mortos muitos tenham tomado sem encontrar a salvação.

Fato é que, com as pesquisas em mãos e a confiança renovada, Bolsonaro já se esforça para queimar o capital político que acumulou no tempo em que ficou quieto e fez uma multidão acreditar que a sabedoria repentina era fruto de reflexão ou reposicionamento de marca.

Na primeira chance ele mostrou o preparo de sempre, com a inteligência intelectual e emocional que marca sua passagem pela Terra como um sujeito que teme investigações, foge de perguntas, evita o confronto e agora associa mortes em uma pandemia a uma espécie de frouxidão física e moral. Ouviram, familiares de quem perdeu alguém para a covid? Quem mandou seu filho, pai, mãe ou irmão não serem atletas como ele?

Bolsonaro voltou à carga porque está com as costas largas. Mais largas do que quando assumiu o posto. E só faz tudo isso porque se sente confortável com os amigos valentões do centrão e da ala militar que o cercam e prometem proteção em troca de uma indicação aqui, uma verba liberada acolá.

Se for deixado sozinho na estrada, como parecia ficar após a reação do STF contra os atos antidemocráticos e a prisão do amigo de fé que tramava a fuga com milicianos, podem apostar que ele vai de novo se retrair, quieto, num canto, à espera da primeira chance de mostrar que ainda é o que sempre foi. Deem o nome que quiser. Isso é tudo, menos coragem.

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