Bolsonaro captura o 7 de Setembro com comícios, machismo e ameaças repetidas

BRASÍLIA, DF, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) transformou as comemorações do 7 de Setembro em comícios de campanha em Brasília e no Rio de Janeiro, repetindo ameaças golpistas diante de milhares de apoiadores, mas em tom mais ameno do que no mesmo feriado do ano passado.

Em cima de carros de som, ele pediu voto, reforçou discurso conservador e deu destaque à primeira-dama Michelle Bolsonaro, com declarações de tom machista.

O mandatário deixou de lado o Bicentenário da Independência nos palanques montados nas duas cidades e, tanto no Rio como em Brasília, adotou discurso parecido.

Apesar da repetição de ameaças ao STF (Supremo Tribunal Federal) e da difusão de mensagens autoritárias nos atos (incluindo faixas e cartazes em diversos lugares do país), Bolsonaro reduziu o tom golpista adotado na manifestação do ano passado, quando chegou a pregar a desobediência ao Judiciário e xingou o ministro Alexandre de Moraes de "canalha".

A insistente narrativa de Bolsonaro de meses anteriores, de questionamento à confiabilidade das eleições, às urnas e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), também ficou de fora das pregações centrais do presidente.

Desta vez, Bolsonaro não citou Moraes, presidente do TSE, embora tenha atacado a operação da Polícia Federal, por determinação do magistrado, que mirou empresários bolsonaristas. Quatro deles estiveram no palanque de autoridades do desfile cívico-militar, em Brasília, ao lado do presidente.

Acompanharam a cerimônia Marco Aurélio Raymundo, dono da Mormaii; André Tissot, do Grupo Sierra; e José Koury, do shopping Barra World; além de Luciano Hang, dono da Havan.

Hang chegou a caminhar na avenida do desfile ao lado de Bolsonaro e foi até mais exaltado pela plateia do que o vice na chapa do presidente, general Braga Netto.

Apesar do marco do Bicentenário da Independência, a celebração da data histórica em si ficou de lado. O evento em Brasília não teve a presença dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e do STF, Luiz Fux. Todos foram convidados pelo governo federal.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) evitou se expor, e os demais rivais na disputa eleitoral também ficaram ofuscados em meio às festividades bolsonaristas.

Em suas declarações, Bolsonaro manteve ameaças veladas ao dizer que vai levar "para dentro das quatro linhas [da Constituição] todos aqueles que ousam ficar fora delas". Ele costuma usar o termo para criticar ministros do Supremo.

No ano passado, ele havia sido mais direto ao dizer que "ou o chefe desse Poder [Judiciário, ministro Luiz Fux] enquadra o seu [ministro] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos".

Mais cedo, durante café da manhã no Palácio do Alvorada, após ter citado diversos momentos de tensão ou ruptura democrática, entre os quais o golpe militar de 1964, Bolsonaro disse que a "história pode se repetir".

"Quero dizer que o brasileiro passou por momentos difíceis, a história nos mostra. 22, 65, 64, 16, 18 e, agora, 22. A história pode repetir. O bem sempre venceu o mal", afirmou ele.

A menos de um mês do primeiro turno das eleições, Bolsonaro elegeu como alvo principal o ex-presidente Lula, que está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.

Ele usou a estratégia de tentar pregar no petista a pecha de corrupto, algo que tem funcionado eleitoralmente, segundo estrategistas da campanha.

Para aliados do presidente, Lula ainda não encontrou uma forma satisfatória de responder às acusações e o tema continua relevante para o brasileiro na hora do voto.

Diante da multidão no Rio, Bolsonaro disse: "Não sou muito bem-educado, falo palavrões, mas não sou ladrão". A intenção é reforçar a imagem de que é "sincero", apesar das grosserias, algo que não é do agrado do eleitor.

Recentemente, aliados vinham insistindo para que Bolsonaro mudasse o eixo dos seus ataques para mirar em Lula. Atendendo aos apelos, ele buscou se apresentar como aquele que governa para todos.

"Eu sou o presidente da República de 215 milhões de brasileiros. Eu não quero o mal dessas pessoas [de esquerda], eu quero o bem delas. Tem que conhecer a verdade, tem que ter conhecimento para esse povo estar do lado certo", disse, em discurso no Rio de Janeiro.

Por outro lado, Bolsonaro defendeu "extirpar" adversários.

"Compare o Brasil com os países da América do Sul, compare com a Venezuela, compare com o que está acontecendo na Argentina e na Nicarágua. O que tem em comum entre esses países? Em todos, os chefes de Estado são amigos do quadrilheiro de nove dedos que disputa a eleição no Brasil", afirmou, em referência ao adversário petista.

"Não é apenas voltar à cena do crime, esse tipo de gente precisa ser extirpada da vida pública."

Para a campanha de Bolsonaro, manter o discurso de pautas conservadoras também é central. Por isso, ele repetiu frases curtas que têm dito em praticamente todas as suas falas públicas, em que diz ser contra a legalização das drogas e o aborto

"O Estado é laico, mas o seu presidente é cristão", disse à plateia, que gritou e aplaudiu o chefe do Executivo no Rio.

"Esperem uma reeleição para vocês verem se todos não vão jogar dentro das quatro linhas da Constituição. Fizemos a campanha com João 8,32: 'Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará'. Depois passamos por outra passagem bíblica, que diz 'Por falta de conhecimento, seu povo pereceu'. Hoje vocês sabem também como funciona a Câmara dos Deputados, sabem como funciona o Senado Federal. E sabem também como funciona o Supremo Tribunal Federal", disse.

Nos dois discursos, Bolsonaro estava ao lado do pastor Silas Malafaia, um dos seus principais aliados no mundo evangélico. No Rio, o palanque foi montado e bancado por lideranças religiosas. O presidente está à frente de Lula no segmento, com 48% de intenção de votos, segundo o último Datafolha.

Na capital federal, Bolsonaro também fez diversas referências religiosas. Antes de o presidente falar, o locutor de rodeios Cuiabano Lima, que conduzia o trio elétrico, puxou uma oração.

Pela manhã, em Brasília, Bolsonaro elogiou Michelle e ensaiou fazer uma comparação com outras primeiras-damas —mas sem citação direta à socióloga Rosângela da Silva, a Janja, mulher de Lula.

"A vontade do povo se fará presente no próximo dia 2 de outubro, vamos todos votar, vamos convencer aquelas pessoas que pensam diferente de nós, vamos convencê-los do que é melhor para o nosso Brasil. Podemos dar várias comparações, até entre as primeiras-damas. Ao meu lado, uma mulher de Deus e ativa na minha vida. Ao meu lado não, muitas vezes ela está é na minha frente", disse.

"Tenho falado com homens que estão solteiros: procurem uma mulher, uma princesa, se casem com ela, para serem mais felizes ainda", acrescentou.

Além das falas de teor machista, o presidente entoou gritos de "imbrochável" para a plateia, que o seguiu, em tom de celebração.

Michelle Bolsonaro é considerada essencial pela campanha para manter a proximidade com o mundo cristão e, especialmente, com as mulheres. O presidente precisa melhorar o seu desempenho com as eleitoras, que mantêm altos índices de rejeição ao governo Bolsonaro.

O desfile na capital federal durou pouco mais de duas horas e teve arquibancadas lotadas com apoiadores do chefe do Executivo, em maioria vestidos de verde e amarelo e entoando gritos de apoio a Bolsonaro.

Integrantes da organização distribuíram bandeiras do Brasil para a plateia.

O evento transcorreu conforme o previsto, com apresentação das três Forças, escolas do Distrito Federal e até mesmo tratores do agronegócio.

Em entrevista à CNN ao final do dia, Bolsonaro disse que os atos demonstram a preocupação da população com o futuro do Brasil e que seu governo representaria um "caminho seguro" e "tranquilidade".

"Eu falei todo o possível para mostrar à população que, com o outro lado, só tem a perder. Conosco é uma tranquilidade, um caminho seguro para a prosperidade", afirmou.