Bolsonaro comemora suspensão de testes de vacina contra covid pela Anvisa

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·Agência de notícias
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“Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, escreveu Bolsonaro em resposta a um comentário em sua postagem no Facebook. (Photo: EVARISTO SA via Getty Images)
“Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, escreveu Bolsonaro em resposta a um comentário em sua postagem no Facebook. (Photo: EVARISTO SA via Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro comemorou nesta terça-feira (10) a suspensão dos testes da vacina contra a covid-19 CoronaVac, da chinesa Sinovac e que está sendo testada no Brasil pelo Instituto Butantan, em uma comentário em sua conta no Facebook, no qual classificou a interrupção como uma vitória pessoal sua.

Ao responder uma pergunta de um seguidor em uma publicação sobre as ações do governo na pesquisa sobre medicamentos para a covid-19, Bolsonaro colocou o link de um artigo sobre a suspensão dos testes e afirmou: “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”.

O seguidor perguntou se o governo federal iria comprar e produzir a CoronaVac se a Ciência disser que ela é segura. Bolsonaro respondeu: “Morte, invalidez, anomalia... Esta é a vacina que Doria [João Doria, governador de São Paulo] queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória”.

Os efeitos adversos citados pelo presidente são razões pelas quais um teste pode ser suspenso, citadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no comunicado em que informou a suspensão dos testes. A agência não detalhou qual desses efeitos a levou a determinar a interrupção, apenas afirmou ter havido um “evento adverso grave”.

“O evento ocorrido no dia 29/10 foi comunicado à Anvisa, que decidiu interromper o estudo para avaliar os dados observados até o momento e julgar sobre o risco/benefício da continuidade do estudo”, disse a agência em nota. “Com a interrupção do estudo, nenhum novo voluntário poderá ser vacinado”.

Butantan disse ter sido surpreendido com decisão

O Instituto Butantan, responsável por coordenar o programa de testagem no Brasil e pela futura produção local da vacina, disse em nota ter sido “surpreendido” com a decisão da Anvisa e indicou não ter conhecimento de qualquer evento adverso entre os participantes do estudo.

“O Butantan informa ainda que está à disposição da agência reguladora brasileira para prestar todos os esclarecimentos necessários referentes a qualquer evento adverso que os estudos clínicos podem ter apresentado até momento”, acrescentou.

Em seu comunicado sobre a interrupção dos testes, a Anvisa não informou se o evento adverso ocorreu no Brasil ou em algum outro país onde a CoronaVac também está sendo testada.

Em entrevista à TV Cultura, emissora pública ligada ao governo do Estado de São Paulo, ao qual o Butantan também é vinculado, o presidente do instituto disse se tratar da morte de um voluntário que não teve relação com a vacina e, portanto, na visão dele, não há justificativa para a paralisação dos testes.

“Primeiro, a Anvisa foi notificada de um óbito, não de um efeito adverso. Isso é um pouco diferente. Nós até estranhamos essa decisão da Anvisa, porque é um óbito não relacionado à vacina. Como são mais de 10 mil voluntários neste momento, podem acontecer óbitos. O sujeito pode ter um acidente de trânsito e morrer”, disse Covas.

“Essas questões foram colocadas agora à noite pela Anvisa. Não foi solicitado ainda o esclarecimento. Nós estamos solicitando já, e eu de público solicito aqui, para que amanhã, na primeira hora, sejam fornecidos esses dados, porque na realidade esse óbito não tem relação com a vacina.”

Segundo a Anvisa, os dados sobre voluntários de pesquisas clínicas devem ser mantidos em sigilo, em conformidade com princípios de confidencialidade, dignidade humana e proteção dos participantes.

Em nota, o governo do Estado de São Paulo, comandado por João Doria (PSDB), afirmou que tomou conhecimento da decisão da Anvisa pela imprensa e disse lamentar que isso tenha ocorrido.

“O governo de São Paulo, através do Instituto Butantan, lamenta ter sido informado pela imprensa e não diretamente pela Anvisa, como normalmente ocorre em procedimentos clínicos desta natureza, sobre a interrupção dos testes da vacina CoronaVac”, afirma a nota.

“O Butantan aguarda informações mais detalhadas do corpo clínico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre os reais motivos que determinaram a paralisação.”

Em nota publicada em seu site nesta terça-feira, a Sinovac disse que está confiante na segurança de sua vacina e que vai manter a comunicação com o Brasil nesta questão.

“Depois de nos comunicarmos com o parceiro brasileiro, Instituto Butantan, soubemos que o presidente do Instituto Butantan acredita que este evento adverso grave não tem relação com a vacina”, disse a empresa.

“O estudo clínico no Brasil é realizado estritamente de acordo com as orientação do BPC (Boas Práticas Clínicas) e estamos confiantes com a segurança da vacina.”

A vacina da Sinovac virou motivo de disputa acirrada entre o presidente Jair Bolsonaro e Doria, que são desafetos políticos e frequentemente trocam farpas publicamente.

Bolsonaro vetou um acordo costurado por seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que previa a compra de 46 milhões de doses da vacina com o objetivo de integrar o Programa Nacional de Imunização.

O presidente chegou a dizer que a vacina não transmite segurança “pela sua origem” e não tem credibilidade, e se recusou a liberar recursos para o governo de São Paulo investir na produção do imunizante.

No fim do mês passado, o Butantan reclamou de um suposto atraso da Anvisa para aprovar a importação de doses prontas da vacina e de insumos para a fabricação local, o que foi negado pela Anvisa, que posteriormente liberou as importações.

Início das obras para fábrica em São Paulo

A interrupção dos testes ocorre no mesmo dia em que o governo de São Paulo anunciou o início das obras da fábrica que produzirá a vacina, ao custo de R$ 142 milhões, com expectativa de produzir 100 milhões de doses anuais.

Na ocasião, autoridades estaduais de saúde de São Paulo exaltaram o fato de os ensaios clínicos da CoronaVac não terem registrado qualquer evento adverso até então, e disseram que dados já disponíveis sobre a vacina apontaram sua segurança e que produziu anticorpos contra o coronavírus em quase 98% dos voluntários que a receberam até o momento.

Além da CoronaVac outras três candidatas a vacina estão atualmente em testes no Brasil, incluindo as vacinas em desenvolvimento pelo laboratório AstraZeneca e a Universidade de Oxford e pela Janssen-Cilag, subsidiária da Johnson & Johnson, que também tiveram os testes temporariamente interrompidos no país após a ocorrência de eventos adversos ― em ambos os casos em voluntários no exterior.

No mês passado, um voluntário da vacina de Oxford no Rio de Janeiro morreu, mas o ensaio clínico não foi interrompido, uma vez que, segundo fontes, ele havia recebido o placebo e não a vacina.

A CoronaVac está entre três vacinas experimentais contra Covid-19 que a China tem utilizado para inocular centenas de milhares de pessoas sob um programa emergencial, e as autoridades sanitárias do país dizem que não foi observado nenhum efeito adverso grave até o momento.

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.

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