Bolsonaro compara Guerra da Ucrânia a crise dos mísseis em Cuba em 1962

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) comentou nesta segunda-feira (12) a Guerra da Ucrânia e adotou argumentos similares aos usados por líderes russos para justificar a invasão ao país vizinho.

"O que deve ter passado na cabeça dele [do Putin]? 'Os caras estão entrando para a Otan, vão botar o míssil a poucos minutos de Moscou.' Igual à [situação na] baía dos Porcos [em referência à crise dos mísseis] em 1962. A União Soviética botou [mísseis balísticos] lá [em Cuba] e o governo americano falou 'tira ou o bicho vai pegar'. Os caras tiraram", afirmou em entrevista a seis podcasters simpatizantes.

A crise mencionada por Bolsonaro teve início quando o então líder cubano, Fidel Castro, convenceu a União Soviética a instalar mísseis balísticos na ilha, sob o argumento de que eles serviriam como instrumentos de dissuasão militar. Na época, Washington também tinha mísseis do tipo na Turquia, próximo à Rússia.

O Pentágono cogitou responder às ameaças cubanas invadindo a ilha, mas o então presidente americano, John Fitzgerald Kennedy, optou por uma saída diplomática. No ano anterior, uma operação apoiada pelos EUA contra o regime de Fidel havia falhado.

Após aviões americanos identificarem a instalação dos mísseis soviéticos, Washington e Moscou se ameaçaram mutuamente e o impasse -que durou 14 dias- deixou o mundo à beira de uma guerra nuclear. O acordo para a retirada dos mísseis de Cuba só foi alcançado quando os EUA prometerem publicamente não invadir a ilha. Secretamente, os EUA também concordaram em retirar seus mísseis da Turquia.

Desde o início da Guerra da Ucrânia, Bolsonaro alega neutralidade do Brasil no conflito. Ao visitar Moscou, em fevereiro, o presidente brasileiro se disse solidário à Rússia, o que gerou mal-estar com a Casa Branca -na época, os EUA já acusavam o Kremlin de panejar a invasão do país vizinho.

Após o encontro com Putin, Bolsonaro chegou a dar a entender que sua ida teria ajudado a debelar o enfrentamento, o que, por óbvio, não se confirmou. Bolsonaro, porém, afirma que a viagem garantiu o fornecimento de fertilizantes para o agronegócio brasileiro. Na entrevista desta segunda, o presidente brasileiro não quis revelar o teor da conversa com seu homólogo russo.

Bolsonaro também comentou o telefonema que teve com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensk, em julho. "[Ele] ligou para mim, não vou falar tudo que falou, lógico, mas em dado momento falou 'o que pode fazer para acabar com a guerra'. Se tivesse poder para acabar agora, teria muito mais poder para não ter iniciado lá atrás", afirmou.

Em entrevista ao Jornal Nacional, o presidente ucraniano criticou a neutralidade do Brasil na guerra. "Não acredito que alguém possa se manter neutro quando há uma guerra no mundo", disse.