'Bolsonaro concretizou extremismo político, e Jefferson é exemplo disso'

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 03.01.2018 - O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 03.01.2018 - O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

A eleição de Jair Bolsonaro (PL) em 2018 concretizou o extremismo no país, diz o psicólogo e professor da UFG (Universidade Federal de Goiás) Domenico Hur. A reação de Roberto Jefferson à prisão no último final de semana exemplifica isso.

Um dos autores do livro "Psicologia dos Extremismos Políticos", em que analisa o discurso de Bolsonaro ao longo da carreira, Hur aponta a retórica radical e agressiva como o fator que levou o presidente a ter sucesso nas urnas.

O extremismo, porém, não está presente apenas na direita, ressalta. A intensificação da divulgação de fake news às vésperas da campanha de ambos os lados reflete isso, com prejuízo à saúde mental de brasileiros.

"Quando tem essa tática eleitoral meio suja, podemos falar que a saúde mental nunca foi tão atacada. Não foram só os pró-Lula que sofrem esperando o segundo turno. A extrema-direita e os pró-Bolsonaro também estão ansiosos."

PERGUNTA - O que caracteriza o extremismo político?

DOMENICO HUR - É uma conduta política autoritária, que se fixa em um conjunto de quaisquer crenças -seja da direita ou esquerda- de forma muito intensa. Não raras vezes, fundamentalista. Há uma polarização e um monopólio sobre a verdade. Isso está correto e tudo o mais está incorreto, o que leva ao não diálogo.

A reação com tiros e granadas de Roberto Jefferson é um exemplo disso?

D. H. - Desde a vitória de Bolsonaro, Roberto Jefferson começou a surfar no bolsonarismo. Adotou retórica militarista e armamentista, posando com armas de fogo e motos Harley-Davidson numa demonstração de posições políticas extremistas.

Para consolidar isso e criar visibilidade para si, atacou o STF (Supremo Tribunal Federal) e arquitetou uma resistência armada rocambolesca no momento da prisão. É uma ação extremista, com fins de marketing político, que rompe com os limites instituídos pela lei, e quer advogar sobre uma suposta liberdade individual contra os agentes do Estado.

Apesar de Bolsonaro ter condenado a conduta de Jefferson, ele tem sido um presidente extremista?

D. H. - Jair Bolsonaro se elegeu por 28 anos como parlamentar e em 2018 como presidente devido à retórica extremista, muito contundente e agressiva. É uma retórica tão crua e dura que captura a atenção do espectador. Bolsonaro tornou-se um êxito eleitoral por concretizar o extremismo político no Brasil.

No meu livro analiso esse discurso em detalhes. Um exemplo foi a entrevista de 1999 em que Bolsonaro defendeu um golpe de Estado, com 30 mil mortes, começando pela do presidente da época, Fernando Henrique Cardoso. Neste golpe ficcionalizado, Bolsonaro defendeu o fechamento do Congresso Nacional.

Inúmeras vezes, como presidente, ele atacou outras instituições, como o STF. Defendeu ações que rompem com os limites instituídos pela lei no sonho de instaurar um governo em que houvesse apenas um poder: o seu. Esse é o anseio de todo governo extremista, que se fundamenta numa lógica autoritária e que pode constituir uma possível ditadura.

O bolsonarismo também é extremista?

D. H. - O bolsonarismo é um movimento político extremista por excelência, anterior a Bolsonaro. O movimento esperava por esse "líder" que não teria censuras próprias em expressar e afirmar todas as hierarquias e desigualdades que vivemos no Brasil.

O bolsonarismo é perigoso porque legitima o exercício da violência em diversas instâncias, como foi o caso do ataque armado de Roberto Jefferson à PF.

Por outro lado, há uma grande parcela do eleitorado de Bolsonaro que não é bolsonarista. Não defende a posse de armas de fogo, não está calcado no ódio à diferença e reconhece seus inúmeros defeitos. Esse é o antigo eleitorado de direita, que não quer votar no PT e na esquerda, mas que está órfã de ofertas eleitorais.

Essa eleição está muito acirrada, mas o extremismo já não se mostra uma oferta política tão eficaz se comparamos com o cenário de 2018.

Como o extremismo aparece no discurso político?

D. H. - Com a crise financeira mundial de 2008 houve um grande cenário de desamparo, crise social e psíquica e o extremismo surgiu como discurso contundente para resolver os problemas sociais. Na Europa, para lidar com a questão do desemprego e da insegurança social, veio o nacionalismo e o antagonismo.

A criação do antagonismo é uma estratégia política importante para a coesão interna grupal. Não é coincidência que seja o mesmo modo de ação do nazifascismo na década de 30.

Há polarização ou extremismo nas relações políticas brasileiras?

D. H. - A polarização é uma decorrência dessa lógica extremista. A polarização seria a divisão e o extremismo seria quando se rompe os limites de compatibilidade social, ao passo em que essa divisão acabaria ficando mais agressiva e, muitas vezes, fora da lei.

O que está no centro da polarização e do extremismo é criação da figura do inimigo, manejando as emoções para que a gente tenha raiva desse outro. Ter raiva do outro é muito eficaz politicamente, porque há a criação do antagonismo. Isso é importante porque cria-se esse discurso da polarização.

Se pensarmos no âmbito teórico, não há dois extremos políticos na eleição. Bolsonaro representa sim a extrema direita e o Lula representaria uma centro esquerda. Não são dois polos antagônicos, mas Bolsonaro, desde 2017, maneja a polarização, porque o antagonismo dá força ao discurso político.

O Brasil se tornou um país extremista? Em que momento?

D. H. - A estratégia retórica eleitoral no Brasil se tornou mais extremista após o impeachment da Dilma porque se queria aplicar de forma radical a agenda ultra liberal. A ideia é que isso seria feito com o Alckmin, mas ele não decolou, então se apostou em Bolsonaro.

Foi um erro crasso do PT colocar o Haddad como candidato em 2018, porque ele não encarna nenhuma das características do líder extremista.

Qual seria o perfil certo?

D. H. - Há dois contextos. Os mais calmos, em que é possível o diálogo. Ali um líder, um político que propiciasse a reflexão e a mediação poderia ser uma boa alternativa, mas em contextos mais conflituosos teria que ser um político forte, tal como o Lula.

Lula trabalha bem essa figura do homem forte quando está no embate, mas também do homem fraco, quando é vítima de perseguição. O Lula também é reconhecidamente um político autoritário. Faz o discurso Lula paz e amor, mas no PT ele é bem conhecido pelo autoritarismo dele.

A difusão de fake news na campanha é uma ação extremista tanto da direita quanto da esquerda?

D. H. - É uma tática da lógica extremista a difusão da fake news, tanto para desinformar quanto para fortalecer o grupo interno para atacar o outro.

Estudos na psicologia política mostram que muitos dos eleitores reconhecem as fake news, mas continuam a propagá-las porque isso fortalece o próprio discurso e provoca antagonismo.

Como o uso da desinformação na campanha afeta a saúde mental do eleitor?

D. H. - Quando tem essa tática eleitoral meio suja, podemos falar que a saúde mental nunca foi tão atacada. Não foram só os pró Lula que sofrem esperando o segundo turno. A extrema-direita e os pró Bolsonaro também estão ansiosos.

Não é à toa que a procura pelo curso de psicologia aumentou vertiginosamente. Como psicólogo, acho isso ruim porque mostra o adoecimento social.

A estratégia retórica dos extremismos é algo que vai nos adoecer mais, porque fomenta insegurança, ódio, ira e antagonismo.

Essas rupturas e alterações familiares que vimos de 2018 para cá, muitas se deram por uma estratégia eleitoral extremista para angariar votos, o que é uma pena. Há muito rancor e isso vai demorar para ser para ser mudado.

O que fazer nessa reta final e diante dos resultados das eleições para proteger a saúde mental?

D. H. - Evitar brigas com os vizinhos, familiares, porque faz parte da democracia termos posições diferentes. Não podemos deixar que a política rompa o nosso mundo cotidiano.

O segundo ponto é aprender a escutar. As redes sociais trouxeram um novo modo de socialização política diferente dos grêmios estudantis, grupos de jovens da igreja, sindicatos, com reuniões em que a gente mais ouvia do que falava. Hoje é o contrário: a gente só fala, escreve e não escuta. Escutar o outro antes de argumentar é fundamental. Tanto o outro pode aprender algo, como nós podemos aprender com o outro.

Por último, temos que fazer uma autoanálise sobre as nossas emoções e as do outro. Controlar os afetos primitivos e apostar na convivência.

O grande desafio que a gente tem no pós pandemia e no pós eleições de 2022 é como cultivar uma nova sociabilidade com as diferenças.

RAIO-X

Domenico Hur, 44

Doutor e mestre em psicologia social pelo Instituto de Psicologia da USP. Fez estágio doutoral na Universidade Autônoma de Barcelona e pós-doutorado na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. É professor associado da UFG (Universidade Federal de Goiás). Autor de livros de psicologia política, entre eles "Psicologia dos Extremismos Políticos", com José Manuel Sabucedo (Editora Vozes, 2020).

Veja as últimas pesquisas eleitorais para presidente:

Qual a data do segundo turno das Eleições 2022?

O segundo turno será disputado no dia 30 de outubro, último domingo do mês. Assim como no primeiro turno, o horário em que os colégios eleitorais estarão abertos para receber os eleitores será das 8h às 17h no horário de Brasília. Locais com fuso diferentes do da capital deverão adaptar seus horários para que o encerramento em todo o país seja simultâneo.

Quais cargos serão votados no segundo turno das Eleições 2022?

Em estados nos quais houver necessidade, haverá disputa para governador. Todos os estados e o Distrito Federal votarão para presidente da República.

Veja a ordem de escolha na urna eletrônica no segundo turno das Eleições 2022

  1. Governador (dois dígitos)

  2. Presidente da República (dois dígitos)

Presidente: qual a função que esse cargo exerce?

O presidente da República exerce a função de chefe do poder Executivo e de chefe do Estado (autoridade máxima) de forma simultânea em uma nação cujo sistema de governo é denominado presidencialismo.

Como chefe do poder Executivo, o presidente é responsável pelas ações e decisões cotidianas da política brasileira.

Por exemplo: como criar políticas públicas e programas governamentais, como gerir a administração federal, sugerir novas leis, dentre outras atividades. Já como chefe de Estado, o presidente é o representante máximo do país que o elegeu perante o mundo.

Governador: qual a função que esse cargo exerce?

O governador é representante do Poder Executivo, com objetivo de governar o povo e conduzir os interesses públicos de cada estado.

Assim, a função do governador é comandar de forma completa o estado e representá-lo em ações jurídicas, políticas e administrativas. Ele também defende todos os interesses e necessidades do estado para com o presidente da República.

O Poder Executivo estadual também possui a função de articulação política com o governo federal, bem como com os municípios que integram o estado.

O que está sob a gestão dos governadores?

  • Segurança pública Uma das maiores responsabilidades do governador estadual é a segurança pública, envolvendo o total controle das Polícias Civil e Militar e a construção e administração de presídios.

  • Saúde – Está na alçada do governador criar as políticas de saúde estaduais e organizar o atendimento todo o atendimento de saúde, construindo e mantendo hospitais e instalações – laboratórios, centros de doação de sangue e centros de atendimento complexo (hospitais do câncer, por exemplo).

  • Educação No quesito educacional, o principal foco do governador costuma ser o ensino médio, hoje considerada a mais problemática das etapas do ensino formal brasileiro.

  • Definir o orçamento estadual – Os documentos orçamentários são de responsabilidade do governador estadual. Eles visam fomentar o planejamento de curto e médio prazo do estado, trazendo mais transparência ao uso dos recursos públicos.

  • Infraestrutura estadual – A responsabilidade sobre toda a infraestrutura é mantida na alçada do governador estadual. Rodovias e portos, por exemplo, precisam receber cuidados do governo.

  • Adquirir investimentos federais para estados e municípios – Para viabilizar projetos de grande porte, tanto o estado quanto os municípios dependem de investimentos vindos do governo federal. Para isso, o governador é importante e peça-chave na articulação política entre União, estado e municípios.