Bolsonaro ignora erros em crise sanitária e usa números errados ao culpar IBGE por alta no desemprego

Fernanda Trisotto
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Brazil's President Jair Bolsonaro attends a promotion ceremony for generals of the armed forces, at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil April 8, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Brazil's President Jair Bolsonaro attends a promotion ceremony for generals of the armed forces, at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil April 8, 2021. REUTERS/Adriano Machado
  • Bolsonaro criticou iBGE por metodologia usada para medir desemprego no país

  • Presidente usou números errados para tentar justificar seu argumento

  • Instituto aponta mais de 14 milhões de desempregados no país

O presidente Jair Bolsonaro criticou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a metodologia usada para medir o desemprego no país. A presidente do instituto, Susana Guerra, deixa hoje o instituto, após corte no orçamento do Censo que inviabiliza a pesquisa. 

— Estamos criando empregos formais, e bastante, mês a mês, mas tem aumentado o desemprego por causa dessa metodologia do IBGE, que atendia ao governo da época. Esse tipo de metodologia, no meu entender é o tipo errado. Vou sofrer críticas do IBGE, mas eles podem mudar a metodologia – declarou o presidente em entrevista à CNN na noite desta quinta-feira.

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Bolsonaro citou números errados para corroborar seu argumento. Segundo o presidente, o país tinha 14 milhões de desempregados, e agora possui 20 milhões. Ele diz que esse número foi inflado porque a metodologia do IBGE consideraria como empregados os 40 milhões de informais que perderam trabalho na pandemia.

— Como elas perderem seu ganha pão, vendiam churrasquinho de gato, vendiam água mineral no sinal, um biscoito na praia, um sorvete na arquibancada do estádio de futebol… Como não tem ganho, não tem como catar latinha mais, não tem latinha por aí, procuraram emprego. Ao procurar emprego, tínhamos 14 milhões de desempregados e agora temos mais de 20 milhões – disse o presidente.

Os números estão errados. O número de desempregados no Brasil é de 14,3 milhões de pessoas no trimestre encerrado em janeiro, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE, divulgados no fim de março. Este é o maior número de desempregados desde o início da série histórica da pesquisa, em 2012.

A pesquisa ainda mostrou que 5,9 milhões de brasileiros se encontram em desalento. Essa categoria enquadra aqueles que desistiram de procurar uma oportunidade no mercado de trabalho. O número também foi recorde na série do IBGE.

IBGE segue padrões internacionais para pesquisa

O número de desempregados no Brasil é de 14,3 milhões de pessoas no trimestre encerrado em janeiro, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE, divulgados no fim de março. Este é o maior número de desempregados desde o início da série histórica da pesquisa, em 2012 - Foto: AP Photo/Eraldo Peres
O número de desempregados no Brasil é de 14,3 milhões de pessoas no trimestre encerrado em janeiro, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE, divulgados no fim de março. Este é o maior número de desempregados desde o início da série histórica da pesquisa, em 2012 - Foto: AP Photo/Eraldo Peres

Essa não é a primeira vez que Bolsonaro critica a metodologia usada pelo IBGE nas pesquisas de emprego. Ele já havia reclamado dos dados quando havia sido recém-eleito e meses após assumir o cargo.

Em 2018, ele classificou o cálculo do desemprego como uma farsa em entrevista ao Jornal da Band.

— Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil, porque isso daí é uma farsa – declarou, quando foi confrontado com os dados de que havia 12,4 milhões de desempregados no país.

Ele voltou a criticar o IBGE em abril de 2019. Durante viagem a Israel, declarou:

— Como é feita hoje em dia a taxa? Leva-se em conta quem está procurando emprego, só quem está procurando emprego. Quem não procura emprego, não é tido como desempregado. Quem está, por exemplo, recebendo Bolsa Família, é tido como não empregado. Quem recebe auxílio-reclusão também está tido como empregado. Então, quando há uma pequena melhora na questão do emprego no Brasil, essas pessoas que não estavam procurando emprego, procuram, e, quando procuram e não acham, aumenta a taxa de desemprego. É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população — afirmou.

Nas duas ocasiões, o IBGE divulgou notas ressaltando que o levantamento segue padrões internacionais. O instituto também esclareceu informações incorretas de Bolsonaro, que afirmou, por exemplo, que beneficiários do Bolsa Família eram considerados empregados.

Segundo o IBGE, a Pnad Contínua segue recomendações de organismos de cooperação internacional, em especial a Organização Internacional do Trabalho (OIT), e, desde 2012, o levantamento é completamente digitalizado.

O IBGE também já esclareceu que receber Bolsa Família não é critério para ser considerado empregado ou desempregado e que os beneficiários são retratados especificamente por uma edição anual da PNAD Contínua, que investiga os rendimentos provenientes de todas as fontes.