Bolsonaro critica pesquisas e ministro endossa: "Não tem fake news maior"

Bolsonaro critica pesquisas e ministro endossa:
Bolsonaro critica pesquisas e ministro endossa: "Não tem fake news maior". REUTERS/Adriano Machado

Durante coletiva de imprensa no Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro (PL) voltou a criticar institutos de pesquisas eleitorais. Após o presidente lançar uma provocação, dizendo esperar que institutos "não dobrem a aposta por ocasião do segundo turno", o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, chamou os levantamentos de 'pesquisas falsas'.

"A própria fake news. Não tem fake news maior do que essa, no momento, em uma véspera de eleição... Então, a gente tem que ter muito cuidado. O inquérito é muito sério e a realidade vai vir à tona", disse Torres, que foi responsável por pedir investigação para a Polícia Federal.

O presidente declarou que "muitos votaram em quem estava na frente para não ter segundo turno e colocar um ponto final nas eleições".

A campanha de Bolsonaro decidiu acionar a Procuradoria-Geral Eleitoral e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra institutos de pesquisas. Os advogados do chefe do Executivo querem uma investigação dos órgãos para, segundo eles, apurar se houve irregularidade ou crime na divulgação de resultados que divergiram do apurado ao final da votação, no domingo (2).

As petições protocoladas nesta terça (4) são direcionadas ao corregedor-geral eleitoral, Benedito Gonçalves, e ao procurador-geral eleitoral, Augusto Aras.

Pesquisas eleitorais: como saber em quais posso confiar?

No primeiro dia do ano passou a ser obrigatório o registro junto à Justiça Eleitoral de qualquer pesquisa pública relacionada às eleições. Porém, se uma pesquisa está registrada não necessariamente significa que ela será confiável, isso porque não há nenhum tipo de fiscalização prévia sobre a metodologia desses levantamentos.

Atualmente, a confiabilidade das pesquisas é garantida no Brasil por meio da transparência. Nome do contratante, valor cobrado pela pesquisa, origem dos recursos investidos, metodologia, período de realização, sistema de fiscalização da coleta de dados e questionário aplicado são algumas das informações que devem ser cadastradas junto à Justiça Eleitoral, tornando as pesquisas passíveis de contestação, caso qualquer irregularidade seja encontrada posteriormente.

Tamanho e seleção da amostra

A quantidade de pessoas entrevistadas influencia diretamente na margem de erro das pesquisas, já que quanto mais pessoas, menor costuma ser essa margem.

O Doutor em Estatística pela USP (Universidade de São Paulo) e criador do site PollingData, Neale El-Dash, afirmou que são comuns amostras que englobam entre 1.500 e 2.000 pessoas. Esse número, para José Paulo Martins Junior, cientista político e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), tende a ser "mais do que suficiente", desde que a amostra seja bem distribuída.

El-Dash destacou que mais importante que o tamanho é o modo de seleção dessa amostra, isso porque ela deve representar o eleitorado.

Para isso, há duas formas de selecionar os entrevistados, por meio de sorteios – amostras probabilísticas – ou da seleção de grupos que, de fato, retratem a população apta a votar – amostra por cotas. El-Dash e Martins Junior concordam que as amostras probabilísticas são melhores, mas nem sempre são possíveis, já que o custo pode tornar o método menos viável.

Mas Martins Junior destacou que "resultados indicam que não há exatamente grande diferença entre uma amostra aleatória e uma amostra não aleatória".

Conforme ele lembrou, há ainda institutos que costumam combinar os métodos, realizando sorteios em etapas, primeiro sorteando as cidades e bairros, por exemplo, e utilizando cotas para a seleção dos entrevistados, o que na sua visão atinge o objetivo de representar o eleitorado.

Aplicação das entrevistas

Para avaliar o melhor tipo de entrevista, El-Dash se baseou em dados de um estudo da Ipsos em parceria com o PoolingData. De acordo com os resultados, pesquisas presenciais e telefônicas apresentam taxas de erro semelhantes e costumam ser mais confiáveis do que as pesquisas online.

Por isso, o Doutor em Estatística afirmou que não necessariamente as pesquisas presenciais são melhores, já que os dois tipos, tanto as presenciais quanto as telefônicas podem conter diferentes tipos de falhas.

De acordo com ele, cada tipo pode apresentar problemas na cobertura que fazem com que a pesquisa deixe de atingir determinados segmentos da população. O problema das pesquisas telefônicas consiste na falta de linhas de telefone em determinados domicílios. Já nas presenciais, ao acesso a condomínios de luxo, edifícios com porteiros e até mesmo favelas controladas pelo crime organizado impõe barreiras à coleta de dados.

Na pesquisa realizada com a Ipsos, El-Dash identificou que pesquisas presenciais costumam ser melhores no Norte e no Centro-Oeste, enquanto no Sul e Sudeste as telefônicas apresentam mais vantagem. Já no Nordeste, parece haver um empate, o que na média faz com que no Brasil tanto pesquisas presenciais quanto telefônicas apresentem uma margem de erro semelhante.

Além do modo de aplicação das perguntas, os dois especialistas consultados chamaram a atenção para a importância do conteúdo do questionário, já que ele deve "procurar minimizar o viés", segundo Martins Junior. Em uma publicação no PoolingData, El-Dash explicou que "tanto o enunciado das perguntas, quanto a ordem delas, pode ser relevante. Por exemplo, em pesquisas eleitorais, usualmente as perguntas de intenção de voto estão localizadas no início do questionário, para que não sejam influenciadas pelas outras perguntas".