Bolsonaro dá a receita para o golpe em reunião com embaixadores em Brasília

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Brazil's President Jair Bolsonaro gestures after meeting with Hungary's President Katalin Novak (not pictured) at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, July 11, 2022 REUTERS/Adriano Machado
Foto: Adriano Machado/Reuters

“Vou dar um golpe”.

Mesmo para os padrões bolsonaristas de inteligência, pegaria mal reservar um prédio público e convidar embaixadores do mundo todo para dizer, na ordem direta, qual o plano oficial da Presidência para antes e depois das eleições.

O jeito foi inverter sujeito e predicado da frase e avisar: “Eles vão me golpear”.

O alerta serve como vacina para justificar tudo o que Jair Bolsonaro planeja fazer caso tudo saia como apontam as pesquisas de intenção de voto.

“Ah, bom”, devem ter pensado os representantes dos países presentes no Palácio do Alvorada.

Bolsonaro estava em horário de serviço. Chamou a reunião como presidente para dizer que, como candidato, não aceita as regras do jogo eleitoral do qual pretende atuar como juiz e participante.

Os responsáveis pelo pleito já avisaram que as duas coisas ele não pode ser. Daí a estratégia do presidente de dizer para o mundo que três ministros do Tribunal Superior Eleitoral, todos oriundos do Supremo, impedem o país de rumar para o pleito de modo tranquilo, sem os solavancos que ele deixa implícito que irá promover se suas ideias não forem atendidas.

E quais são as ideias? Alterar as regras do jogo para que elas fiquem mais vulneráveis, como um papel impresso, e possam ser manipuladas injustamente a seu favor. O próprio Congresso enterrou a proposta de voto eletrônico, mas Bolsonaro não se dá por vencido.

Sua estratégia é mostrar que olhe lá, veja bem, não é que ele queria melar o jogo. É que não deram a ele outra opção.

Fica assim justificada qualquer revolta patrocinada pelo presidente em caso de derrota. Ela de saída só pode ser manipulada, diz o presidente que jura ser o único postulante que consegue sair nas ruas e sentir o carinho do povo. O DataEu apresentado no encontro seria a prova do desencontro entre a vontade popular e o resultado das urnas que nem sequer foi conhecido ainda.

Na reunião com embaixadores, Bolsonaro promoveu a maior difamação do sistema de Justiça de um país do qual se tem notícia por aqui. Ele basicamente acusou três dos integrantes da Corte de operarem em favor de seu adversário –sempre nomeado como “o outro lado”.

Quem ouvia poderia ter a impressão de que Bolsonaro estava em busca do voto dos presentes. Mas aparentemente ele queria apenas o endosso para seu plano de “contragolpe” anunciado.

E então acusou o atual presidente da corte de ter trabalhado para um “grupo terrorista” chamado MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). Disse que outro ministro tinha um passado nebuloso em seus tempos de advogado. Outro ainda atuou em defesa de um condenado na Itália por terrorismo.

O trio, segundo a tese delirante do presidente, atuava em consonância para habilitar seu adversário político (mentira) e entregar a ele a Presidência por meio de um sistema de votação que ele não tem provas, mas jura que é vulnerável a ataques de racks (imagina-se que ele quisesse dizer hackers).

Os ataques previstos pelo presidente parecem mais ou menos como aqueles planejados pelos militares no Riocentro para jogar a culpa do perigo no colo dos “terroristas de esquerda” e brecar a reabertura democrática.

Desde 1996, quando foram adotadas as urnas eletrônicas no país, as Forças Armadas do país encaminharam um total de zero questionamentos ao sistema de votação no Brasil.

Foi só Jair Bolsonaro correr o risco de ser reeleito que uma saraivada de perguntas sobre a rebimboca da parafuseta dos equipamentos surgisse às vésperas da votação. Algumas sugestões foram acolhidas. Outras rejeitadas por não fazerem sentido.

Bolsonaro diz que assim não brinca.

Ao menos uma vez ele falou das Forças Armadas na terceira pessoa do plural. Elas foram convidadas por Luís Roberto Barroso a colaborar com o processo. Bolsonaro, comandante em chefe dos militares, achou que o convite se estendia para ele. Era a chance de atuar como juiz e atleta da competição.

Em outras palavras, o que ele está dizendo aos representantes diplomáticos reunidos em Brasília é que haverá tiro. Mas não é ele que terá começado. Sim, a confusão dos tempos verbais é proposital.

Bolsonaro colocou o sistema de votação que o elegeu seis vezes (cinco como deputado, uma como presidente) sob suspeita. Fez o mesmo, consequentemente, sobre a eleição de todos os deputados, senadores, prefeitos e vereadores, incluindo seus filhos, sufragados pelas mesmas urnas eletrônicas que ele diz que não prestam e estão a serviço de um único “lado” em um país com representantes de 23 partidos diferentes na Câmara. Um “lado” bastante heterogêneo, ao que parece.

Era como se anunciasse aos corpos diplomáticos para tomarem cuidado com o que fazem neste país porque nada aqui é sério.

O discurso golpista de caráter eleitoreiro foi realizado em horário de trabalho, em prédio público e com transmissão de TV estatal. Mais um dia normal na vida do brasileiro.

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