Bolsonaro deixa discurso antissistema para afagar o Centrão no palanque

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O discurso do presidente Jair Bolsonaro na convenção que selou a sua candidatura à reeleição neste domingo (24) contrastou com o tom antissistema adotado em 2018. Com um discurso roteirizado e vestindo um colete à prova de balas, Bolsonaro defendeu feitos do governo ao lado do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e outros expoentes do Centrão.

Em mais de uma ocasião, Bolsonaro celebrou sua aliança com Lira, que foi vaiado pelo público em todas as ocasiões em que foi citado no microfone. “Sem Lira não teríamos chegado aqui”, sintetizou.

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Em outro momento, também elogiou Ciro Nogueira pelo “trabalho muito cuidadoso” na Casa Civil.

Em 2018, Bolsonaro chamou o grupo que hoje lhe dá base política no Congresso Nacional de “escória”, o que inclui seu atual partido, então chamado Partido da República (PR). Na ocasião o então candidato do PSL ironizou a aliança do bloco com Geraldo Alckmin, candidato do PSDB ao Planalto em 2018.

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“Eu sou o patinho feio dessa história. Mas tenho certeza, seremos (vencedores). De um lado tá a esquerda. De outro, tá o Centrão. Até quero agradecer a Geraldo Alckmin por ter juntado a nata do que há de pior no Brasil ao seu lado”, disse Bolsonaro em 2018.

A coligação de Alckmin, hoje filiado ao PSB e candidato a vice-presidente na chapa de Lula, foi formada pelo PL, PP, PTB, PRB (Republicanos), DEM, Solidariedade e PPS. Por ironia, os quatro primeiros farão agora parte da coligação do Bolsonaro em 2022.

Bolsonaro também alfinetou na ocasião o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, sem citá-lo. Os tempos mudaram: o bolsonarismo agora se aliou ao ex-prefeito de São Paulo para ampliar a candidatura de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo. O PSD, por sua vez, indicou Felicio Ramuth para a vice do ex-ministro da Infraestrutura, que é carioca e não tem atividade política prévia no estado.

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O discurso de Bolsonaro neste domingo, apesar de improvisos, foi preparado pela equipe de marketing e manteve linearidade. Ele defendeu agendas do governo como o Auxílio Brasil, a distribuição de títulos de terra, a transposição do Rio São Francisco e o 5G, com um aceno direto a jovens gamers.

Em contraponto ao PT, relembrou o escândalo do Petrolão, a defesa da regulamentação da mídia – comparada por Bolsonaro à censura dos regimes da Coreia do Norte e de Cuba – e a prisão de Lula por corrupção.

Essa é outra distinção da convenção de 2018, quando o então candidato fez um discurso longo, desconexo e repleto de anedotas pessoais. Em mais de uma ocasião, Bolsonaro interrompeu a fala após perder o raciocínio.

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Desta vez, ele decidiu seguir um script durante boa parte do discurso. Como mostrou o blog, a equipe de campanha do presidente temia que ele improvisasse com ataques ao Supremo Tribunal Federal e às urnas eletrônicas.

Durante boa parte do discurso, o presidente seguiu a cartilha desejada pela campanha de apresentar um “Bolsonaro light”, com um discurso moderado que exaltasse as entregas do governo.

O presidente pareceu se fiar ao script até mesmo quando o público nas arquibancadas do Maracanãzinho vaiou em peso o STF, aos gritos de “Supremo é o povo”. Bolsonaro silenciou.

Mas os temores se provaram realistas: próximo do fim de discurso, Bolsonaro elevou a voz e convocou apoiadores à guerra em tom golpista.

“Nós não vamos sair do Brasil! Nós somos a maioria! Somos do bem e temos disposição para lutar pela nossa pátria e nossa liberdade! Convoco todos vocês agora para que todo mundo no sete de setembro vá às ruas pela última vez”, bradou, em referência aos atos golpistas no ano passado.

“Esses poucos surdos de capa (toga) preta têm que entender o que é a voz do povo. Todos têm que jogar dentro das quatro linhas da Constituição”, declarou em referência ao STF e ao Tribunal Superior Eleitoral.

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Em uma referência cifrada às suas críticas infundadas ao sistema eleitoral, Bolsonaro também declarou que o povo brasileiro constitui o “seu” exército contrário a “fraudes” e composto por 210 milhões de brasileiros.

Como era de se esperar, o ápice da comoção do público foi justamente nas falas golpistas. Embora orientado pelo núcleo político a se concentrar nas entregas do governo, o presidente se mostrou capaz de inflamar sua base raiz – que compareceu com bandeiras do Brasil, do Império, de Israel e até mesmo da campanha de Donald Trump à reeleição nos Estados Unidos, em 2020.

Inicialmente esvaziado, o Maracanãzinho teve boa parte das arquibancadas preenchidas. O PL estimou o público em 12 mil, mas é certo que o evento não estava lotado.

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Arquibancadas vazias foram preenchidas por bandeiras verdes e amarelas e acabaram camufladas.

Há quatro anos, Bolsonaro também escolheu um local amplo para sua convenção: o centro de convenções SulAmérica, a poucos quilômetros do Maracanãzinho. Agora, o presidente voltou a escolher o Rio, seu berço político.

A composição do palco, por sua vez, diferiu bastante da formação de 2018. Bolsonaro discursou hoje ao lado de mais de cem pessoas. Foi montada uma estrutura em formato de “T”, típica de shows, para que o presidente se aproximasse do público.

Na última eleição, o número de apoiadores foi mais comedido. No seu entorno, destacaram-se ex-aliados: Joice Hasselmann, que rompeu com o presidente e hoje está no PSDB, e Gustavo Bebianno, primeiro ministro demitido por Bolsonaro e morto em março de 2020.

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Outra diferença é que a candidatura de Bolsonaro foi oficializada junto com seu vice, Walter Braga Netto (PL), em uma chapa puro-sangue inusual para uma campanha de grande porte.

Em 2018, Hamilton Mourão, que não esteve presente na convenção deste ano, foi escolhido no limite do prazo da Justiça Eleitoral. Naquela ocasião, a mais cotada era Janaína Paschoal (então PSL, hoje no PRTB), mas a parceria não foi pra frente.

O presidente encheu Braga Netto de elogios e, confirmando a tese de um “seguro-impeachment”, disse que escolheu o general da reserva pela confiança. Para Bolsonaro, um vice não pode ser conspirador, em uma aparente referência ao seu interlocutor e conselheiro Michel Temer, vice de Dilma Rousseff.

Mas, como se desejasse pagar uma fatura pendente, o candidato à reeleição prestou deferência inusual à ex-ministra Tereza Cristina (PP-MS), nome defendido para a vice-presidência pelo Centrão por ser mulher e fiadora do agronegócio. Bolsonaro chamou Tereza de “gigante” e desfilou pelo palco como se formassem uma chapa presidencial.

O gesto, acompanhado de um discurso recheado de referências ao agro, coincide com o movimento do ex-presidente Lula na direção do setor, como mostrou o blog.

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Outra vitória do núcleo político da campanha foi o papel desempenhado pela primeira-dama, Michelle, na convenção. Ela abriu o cerimonial com um discurso de forte apelo feminino e defendeu o marido. Demonstrou, ainda, muito traquejo político - a despeito do distanciamento da campanha, como mostramos na coluna.

A convenção consagrou o presidente por unanimidade dos convencionados do PL. A presença da militância inflamada deu ares de aclamação para sua reeleição, mas Bolsonaro tem um Brasil para cruzar em busca de votos com sua alta rejeição no encalço. Hoje, boa parte das pesquisas aponta chances de vitória para Lula já no primeiro turno.

Em 2018, o general Augusto Heleno, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional, comparou, em tom jocoso, deputados do bloco do Centrão a bandidos. “Se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”, disse. Nesta eleição, o Centrão e Bolsonaro, filiado por anos a partidos do bloco, decidiram sacramentar o casamento.

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